Golens são gentis, calmos e meio lentos. Eles são feitos de lama e insuflados de magia para poderem andar, proteger e intimidar. Mas eles também são a perfeita metáfora para o momento em que deixamos os planos de lado para encaramos a escrita e a temida primeira versão do manuscrito! Neste Bestiário Criativo, Enéias Tavares discute esses simpáticos monstros, disseca as partes que compõem um capítulo e detalha o processo de escrita da primeira versão de um romance ou novela. Prontos para a diversão?

Golens são criaturas feitas de pedra, lama ou terra. Sua matéria prima é elementar, aludindo ao ato criador de fazer o primeiro homem do pó ou do solo. De origem judaica e com implicações cabalísticas, a lenda do golem alude ao poder de se insuflar vida em matéria inanimada através de sopro divino ou de palavras de grande energia. Além disso, ela nos adverte de que muitas vezes as coisas não saem exatamente como planejamos.

Como o primeiro homem, todos os golens são criados a partir da lama. Na idade média, golens eram servos pessoais de rabinos sábios e poderosos, podendo ser usados para boas ou más ações. Meio tolos e rudes, não cabia ao golem falar e sim agir. Força bruta em essência, golens tendem a não ser muito simpáticos. Eles não pediram para nascer e nem mesmo podem comunicar suas insatisfações. Devem apenas obedecer. Ou não. De acordo com a narrativa de Yudl Rosenberg, escrita em 1909 em Praga, um golem que deveria proteger o gueto judaico saiu do controle e começou a matar. Seu criador o venceu substituindo a palavra que havia lhe dado vida e que estava inscrita em sua testa – “Emet”, ou “verdade” – por “Met”, que significa “morto”.

O Golen e o Rabino Loew, de Miloslav Dvorák (1951)

São várias as implicações desse mito para o processo criativo. Como magos cabalistas metafóricos – ou literais (vai saber!) –, insuflamos os corpos de criaturas disformes – nossas ideias – com palavras de poder e magia, que prosaicamente chamamos de frases e parágrafos. Em nosso esforço demiúrgico, queremos que nossas histórias saiam exatamente como planejamos, que os personagens nos obedeçam e que o clímax seja como sonhamos. Mas nem sempre isso acontece. Ou melhor… isso quase nunca acontece. A razão é que histórias, assim como golens, tendem a fugir do controle. Por fim, a última fase do nosso trabalho criativo quase sempre envolve a mesma tarefa do rabino criado por Rosenberg: um herói improvável cuja principal qualidade está num esforço heroico e paciencioso de revisão textual!

Até agora, nas sete colunas anteriores, discutimos tudo o que diz respeito ao planejamento da nossa história, desde a ideia Inicial, passando pela nossa rotina de trabalho, o que é mais importante numa obra de ficção, a criação de personagens complexos e a definição de estruturas ficcionais, até a criação de mundos e o cuidado com o tempo narrativo. Todas essas discussões envolviam a fase de pré-produção do nosso trabalho, exigindo muito mais reflexão e definição e, quanto muito, alguns apontamentos bem específicos, definidos nos 14 exercícios que tivemos até aqui.

Mas agora, chegou a hora de deixar de lado organogramas, papeis, blocos, pastas e subpastas – ou qualquer outra loucura que tenhamos criado para organizar nossa matéria prima – e de colocarmos nossa bunda na cadeira para… escrevermos a nossa história! Mas como faremos isso? Como partiremos do amontoado de planejamento que fizemos até chegarmos em um manuscrito de 30, 50 ou 70 mil palavras?! Em outras palavras, como pegar um monte de terra, água e pedras, e transformá-las numa simpática criatura ou numa história repleta de vida?!

Mãos à Obra: Versão ou Versões?

A resposta às perguntas acima tem haver com mudarmos a ideia de que a criatividade é um estado genial em que se senta e escreve um texto perfeito de uma só vez. Ao invés disso, o que conseguiremos nessa primeira seção de trabalho será, quando muito, a primeira versão da nossa história. “Primeira?!”, alguns podem protestar. “Isso quer dizer que haverá outras?” Lamento decepcioná-los, mas sim. Quando falamos de escrita profissional, prevemos no mínimo quatro versões de um manuscrito. São elas:

  • Versão 1 ǀ Versão bruta do nosso manuscrito, a partir do outline ou escaleta que inicialmente fizemos para montar nossa história. É raro essa primeira versão ser exatamente o que planejamos, podendo sofrer alterações bem substanciais durante sua criação. Se o outline é o monte de lama, esta é a fase em que você dá forma à cabeça, tronco, dois braços e duas pernas. PS. Duas cabeças estão valendo também, afinal o golem é seu e você faz com ele o que quiser.
  • Versão 2 ǀ Também conhecida como Copidesque ou Revisão do Enredo. Aqui vemos se a história não tem furos, se personagens são bem desenvolvidos, se as cenas são coerentes e os diálogos, legíveis e completos. Essa versão tende a ser maior que a anterior, às vezes tendo o dobro ou triplo do seu tamanho. Agora, começamos a ver detalhes do corpo, do rosto e dos dedinhos do nosso monstro. É aqui que a história ou o golem ganha vida, para nossa alegria ou desespero.
  • Versão 3 ǀ É nessa versão que você revisa e reescreve a Voz do Narrador e as Vozes dos Personagens, atentando se não há incoerências estilísticas ou problemas mais específicos, como variações temporais – o Calcanhar de Aquiles de muitos autores iniciantes. Falo de quando você começa a história no presente, passa ao passado e então volta ao presente. Como você não quer que seu filho seja processado por atentado ao pudor andando pelado por aí, encare essa versão como as roupas comuns e básicas que você cria para vestir o golem.
  • Versão 4 ǀ É finalmente nessa versão que você vai começar a revisar a linguagem, atentando se as frases estão boas, fluidas e atraentes. É também aqui que começa a Revisão Gramatical. Se antes questões como concordância, regência e adequação não eram essenciais, agora elas são. É também aqui que você começará a descobrir seu estilo ou o estilo da história. É nessa fase que seu filhote monstruoso descobre que as roupas que você escolheu são simplórias, feias ou – o horror dos horrores! – caretas! Chegou a hora dele passar horas no espelho vendo se os trajes são estilosos, chamativos e atraentes. Quem nunca foi adolescente, não é mesmo?!

Obviamente, estamos falando de um número mínimo de versões. Há escritores que passam por dezenas de versões, cada uma delas modificando algum aspecto que consideram importante a partir de suas próprias revisões ou das sugestões de leitores beta, editores, preparadores e/ou revisores. (Caso você não saiba quem são essas pessoas, fique tranquilo/a, que chegaremos nelas no futuro). Será que esse trabalho de múltiplas versões diminui com o tempo ou à medida que autores ganham experiência? A resposta é não!

Eduardo Spohr, Barbara Morais e Patrícia Baikal

Eduardo Spohr, por exemplo, que está na estrada há mais de uma década com sua saga Filhos do Éden (Editora Verus), afirma: “Em média, meus textos passam por 20 versões. Eu reescrevo e reviso dezenas de vezes. No passado, como era um escritor amador, eu apenas escrevia, sem muita preocupação com a forma. Hoje estou mais preocupado não só com a história, mas como a prosa, isto é, com a maneira como eu escrevo, sempre tentando tornar o texto mais claro e acessível ao leitor.”

No início de um romance, Barbara Morais, criadora da trilogia Anômalos (Gutenberg), produz “inúmeras versões, até encontrar o caminho certo. Daí, há poucas mudanças na estrutura de enredo porque planejo de forma cartesiana e cerebral, analisando cada cena antes de inseri-la. Isso só é possível porque passo meses pensando de forma criativa e louca e acumulando ideias para depois escolher o que funciona melhor, ahaha. Enfim, eu tenho vários inícios; uma versão do primeiro rascunho; uma versão revisada/editada; e a versão final. Não são tantas assim, né?”

A também brasiliense Patrícia Baikal, autora do romance Mariposa (Kiron), afirma que sua escrita é composta de dezenas de versões. “É que meu processo de revisão é demorado: o livro passa por alguns leitores de confiança, crítica literária, correção gramatical, etc… O mais importante da revisão é assegurar a verossimilhança do enredo, sendo que as críticas literárias de leitores-beta e de profissionais do ramo são essenciais para encontrar pontos inverossímeis na trama. Às vezes, no decorrer da revisão, o enredo muda, mas percebo que meu estilo permanece.”

Felipe Castilho, autor da saga O Legado Folclórico (Gutenberg) e do recente Ordem Vermelho – Filhos da Degradação (Intrínseca) menciona: “Reviso demais, a ponto de me exaurir completamente e de começar a pensar que eu, o texto e o mundo somos horríveis. Nas vezes em que preciso entregar algo correndo sem reler muitas vezes eu me sinto como se tivesse saído de casa sem calças. Sempre perco muito tempo no começo, até achar o tom que me deixa confortável. Evito avançar na história até sentir que o início está legal. No livro da Ordem tive umas 15 versões do primeiro capítulo, muito diferentes uma da outra.”

Felipe Castilho e suas séries O Legado Foclórico e Ordem Vermelha

Agora que vimos um pouco de como escritores e escritoras com maior experiência no mercado trabalham com suas várias versões, vamos voltar ao nosso processo criativo. Na coluna deste mês, vamos nos concentrar na primeira e na segunda versão do manuscrito, que são aquelas dedicadas a transformar o outline em manuscrito e a revisar o enredo. Na próxima coluna, iremos estudar as outras duas, mais centradas em questões estilistas. Prontos pro trabalho?

A Construção da Primeira Versão

Aqui, será necessária uma boa dose de trabalho braçal e paciência. Isso mesmo, pois significa que você vai pegar um conjunto de ideias e transformá-lo num longo texto narrativo. Para alguns escritores, trabalhar horas em um único parágrafo e já produzir uma versão finalizada é a melhor saída. Mas com frequência essa habilidade só é conseguida com o tempo e depois de vários projetos. Nos primeiros projetos, o que mais escutamos dos escritores entrevistados para o nosso Bestiário Criativo é que eles primeiro terminam uma primeira versão – que são chamadas de versão “plana”, “suja”, “rápida”, “básica” ou “sem polimento”.

Terminar essa primeira versão é importante, em especial para vermos o trabalho progredindo. O problema de uma abordagem muito paciente e exigente no início é você ficar meses escrevendo e retrabalhando seu texto e não avançar. Muitas vezes é isso que faz com que muitos escritores desistam de seus projetos. Então, a sugestão aqui é: Escreva a primeira versão do livro sem se preocupar com estilo, revisão ou gramática. Apenas se preocupe com o enredo e faça isso o mais rápido possível, de preferência um pouco por dia.

Mas como transformo um outline de uma frase – como fizemos no Exercício 10 , por exemplo – em um capítulo? Aqui é que entra a compreensão de dois componentes essenciais de qualquer obra narrativa: Sumário e Cena. Sim, meus amigos, todo conto, novela, romance ou saga literária que você já tenha lido é composto da intercalação desses dois elementos. Vamos às definições:

  • Sumário é o conjunto de informações, parágrafos ou frases que sumarizam ou resumem grandes períodos de tempo. Ou seja, quando um livro ou capítulo abre com uma passagem que detalha os últimos milênios, décadas, anos, meses, semanas, dias ou horas, temos Sumário. Além disso, entendemos por Sumário tudo aquilo que aconteceu antes do momento que estamos prestes a testemunhar, no presente da narrativa, quando nosso personagem vai falar com alguém, fazer uma boa ação, sofrer um acidente ou se envolver numa luta. Em resumo, Sumário é tudo aquilo que prepara o palco da página para a…
  • Cena! A cena é a narrativa pisando no freio e nos dando – muitas vezes em tempo real – o que nosso herói, vilão, coadjuvante ou grupo de personagens está fazendo, no presente. Cenas contemplam diálogos, lutas, reflexões, ações e conflitos de qualquer natureza. É nas cenas que a história de fato ocorre. Basicamente, quando fazemos um outline, por exemplo, pensamos apenas na cena. Mas na hora da escrita, precisamos fracioná-la em… Sumário e Cena.

Ficou claro? Para recapitular, Sumário é Tempo Passado & Cena, Tempo Presente. Para entendermos como fracionar uma frase de outline em Sumário(s) e Cena(s) e como transformar isso num capítulo, vou usar como exemplo Guanabara Real – A Alcova da Morte (AVEC), meu romance escrito em parceria com AZ Cordenonsi e Nikelen Witter. Como se tratava de um romance a seis mãos, nosso primeiro desafio foi fazer justamente o outline do que aconteceria em cada capítulo. Definimos que teríamos três personagens e que o romance seria montado a partir da sucessão respectiva de suas vozes, ficando cada um de nós com um personagem diferente. Segue abaixo a tabela que fizemos para nos organizar (sim, um horror!). Como não quero dar spoilers do nosso livro nem aterrorizar ainda mais nosso editor (Um abraço, Artur Vecchi!) apenas deixei legível o capítulo que iremos analisar abaixo. Quanto ao resto, ficou em simpática grafia élfica!

Outline de Guanabara Real – A Alcova da Morte

Definimos nesse outline que Nikelen escreveria os capítulos 1, 4, 7, 10, 13, 16 e 18, centrados em Maria Floresta; AZ ficaria com os de número 2, 5, 8, 11, 14, 17 e 19, dedicados ao engenheiro positivista Firmino Boaventura; e eu, com os demais (3, 6, 9, 12, 15, 18 e 21), que acompanhariam a história pelo ponto de vista do dândi místico Remy Rudá. Para melhor visualizarmos cada grupo de capítulos, usamos um código de cores, respectivamente Verde, Azul e Rosa. Vamos agora à análise da frase que definia no outline o enredo do nono capítulo:

GUANABARA REAL – OUTLINE DO CAPÍTULO 9

Remy Rudá vai consultar uma Historiadora do Oculto. São atacados por um espírito milenar. A historiadora desmaia e é levada para o hospital, inconsciente. Remy recebe mensagem de Maria Teresa. Vai à delegacia, visto que Firmino foi preso.

Notem que nessa fase do trabalho, eu não tinha a) o nome da historiadora, b) o nível de intimidade dela com Remy, c) ou mesmo os objetivos desse “espírito milenar”. Tratava-se aqui de colocar o mínimo, fazendo a história avançar e se conectar com os outros capítulos e personagens. Desse outline de cinco períodos, chegamos à seguinte versão detalhada – dividida em Sumários e Cenas:

CAPÍTULO 9 – FOCO NARRATIVO: REMY RUDÁ
Rio de Janeiro, Praia Vermelha, 17 de Julho de 1892, 17 horas.

  • Sumário 1. Remy, na agência Guanabara Real, revisa o caso e seu Diário Arcano.
  • Cena 1. Diálogo entre Remy e o Cocheiro sobre seu destino: “Para a casa de uma especialista em Feras!”
  • Sumário 2. História de Catarina Volkov e seu romance com Remy.
  • Cena 2. Remy chega à casa de Catarina.
  • Sumário 3. Gabinete de Catarina e Eventos que levaram Remy até ali.
  • Cena 3. Diálogo sobre os Símbolos Demoníacos inscritos na Alcova da Morte.
  • Cena 4. Ataque do misterioso – e até então anônimo – Demônio Milenar.
  • Cena 5. Catarina desmaia e Remy a leva ao hospital.
  • Sumário 4. Remy pede urgência no atendimento e aguarda por cinquenta minutos.
  • Cena 6. Médico noticia o estado de Catarina.
  • Sumário 5. Remy retorna ao sobrado de Catarina e fecha sua casa.
  • Cena 7. Pela primeira vez, Remy invoca o demônio chamando-o por seu nome.
  • Sumário 6. Reflexões de Remy sobre os últimos eventos ao voltar pra agência.
  • Cena 8. Ao chegar na Agência recebe mensagem de MT dizendo que Firmino foi preso, acusado de assassinado. “Diabos dos Infernos! O que faltava acontecer?!”

Notem que ao partir do primeiro outline pra essa divisão entre sumários e cenas, há vários detalhes que vão surgindo: O nome da historiadora (Catarina Volkov), o conteúdo da sua conversa, a necessidade de termos um nome para o demônio (neste momento ainda não tínhamos pensado em um) e a dinâmica entre Remy e Catarina e entre o herói e o demônio. Além disso, o final tanto conecta com os eventos dos capítulos passados como faz a transição ao próximo, onde veremos como MT ficou sabendo da prisão de Firmino. Além disso, há frases que começam a surgir aqui, marcadas entre aspas, que possivelmente irão parar na versão final do texto. O importante é deixar a mente livre e não se esquecer de anotar as boas ideias.

Pensemos também na sucessão de sumários e cenas. É bem comum que o número de Cenas seja maior que o de Sumários. Neste capítulo, tivemos 6 sumários e 8 cenas. É também usual que capítulos comecem com sumários – para situar o leitor – e terminem com cenas, que são mais impactantes e dramáticas, convidando a virar a página. Mas isso não é regra. Livros volta e meia começam com cenas impactantes, recorrem a sumários para mostrar como o personagem chegou até ali, e depois retomam a cena. Muitos autores usam essa mesma estratégia na escrita de capítulos, pois é uma forma narrativa que coloca o leitor no meio da ação já de saída. Boa parte dos capítulos de A Alcova da Morte faz isso, em especial os três primeiros, que tem a dura tarefa de apresentar a trama, os protagonistas e o mundo.

Eu, Nikelen Witter e AZ Cordenonsi tentando organizar essa Bagunça – Foto de Ronald Mendes

Também notem que o grande conflito deste nono capítulo ocorre com a sucessão de três cenas (3, 4 e 5), logo depois do terceiro sumário. Eu particularmente adoro sumários como o segundo, em que abrimos uma fenda no tempo e visitamos o passado de personagens para desvendar suas relações. Particularmente, tenho muito orgulho da relação de Remy com Catarina. Remy é bissexual e Catarina é bem mais velha que ele. De pronto, invertemos aqui dois estereótipos bem comuns na literatura e na literatura fantástica: heteroafetividade ou homoafetividade e relações que não raro aproximam homens mais velhos de mulheres mais jovens. Nesses dois casos, por que não um caminho diferente? Meu desafio, especialmente com Remy, foi criar um herói livre de qualquer amarra social ou mesmo sexual.

Com a oposição entre Sumário e Cena explicada e exemplificada, que tal agora um pouco de exercício? Prontos pra sujar as mãos de lama ou de tinta?

EXERCÍCIO CRIATIVO 15:

PEGUE O OUTLINE DA SUA HISTÓRIA, ESCOLHA UM DOS CAPÍTULOS OU PARTES, E FAÇA O DETALHAMENTO DE SUMÁRIO(S) E CENA(S), LEVANDO EM CONTA QUE: A) AS INFORMAÇÕES SOBRE O PASSADO DO SEU HERÓI E AS RELAÇÕES DELE COM OUTROS PERSONAGENS DEVEM APARECER NOS SUMÁRIOS; B) AS CENAS SEJAM IMPACTANTES E INTERESSANTES AOS SEUS LEITORES.

Prontinho? (Nesse caso, não podemos deixar para depois, pois o próximo exercício depende diretamente deste.) Com o exercício 15 feito, vamos ao próximo exercício, que é o de transformar o outline detalhado em narrativa já finalizada. Para ilustrar isso, peguei o outline do capítulo 9 de A Alcova da Morte, analisado acima, para opormos à sua versão finalizada.

  • Sumário 1. Remy, na agência Guanabara Real, revisa o caso e seu Diário Arcano.
  • Cena 1. Diálogo entre Remy e o Cocheiro sobre seu destino: “Para a casa de uma especialista em Feras!”
  • Sumário 2. História de Catarina Volkov e seu romance com Remy.

O segundo sumário é bem longo, indo até a metade da página 99, quando Remy finalmente chega à Praia Vermelha e à casa de Catarina. Nos capítulos dedicados a Remy, esses sumários memoriais são bem comuns. Como A Alcova da Morte é escrito em terceira pessoa, revisito nesses sumários um tipo de escrita que adoro, que é aquela dedicada a reminiscências e reflexões. Os leitores de Brasiliana Steampunk sabem do que falo. Apesar de essas passagens darem uma pausa na narrativa, são elas que dão complexidade e profundidade às personagens, produzindo muitas vezes nossa conexão emocional com elas.

Prontos pra continuar? Agora, com o seu outline detalhado pronto, o desafio é sentar no computador e não sair da frente dele antes de ter uma primeira versão do seu capítulo pronta – exceto, claro, para pegar café, ir ao banheiro ou brincar com o gato.  

EXERCÍCIO CRIATIVO 16:

COM O EXERCÍCIO 15 CONCLUÍDO, CHEGOU A HORA DE VOCÊ TRANSFORMÁ-LO EM UM TEXTO FINALIZADO – FALAMOS DE UMA PRIMEIRA VERSÃO, OBVIAMENTE. USANDO A OPOSIÇÃO SUMÁRIO E CENA, ESCREVA-O NA ORDEM DA LEITURA PARA NÃO PERDER O FÔLEGO E A CONTINUIDADE DA SUA NARRATIVA. DOIS CUIDADOS: A) EVITE SUMÁRIOS MUITO LONGOS, POR MAIS QUE SUA ESCRITA ENGRENE. SE VOCÊ CONSEGUIU ESCREVER MUITO SOBRE O PASSADO DO PERSONAGEM, TRANFIRA ALGUMAS DAS INFORMAÇÕES PARA OUTRO CAPÍTULO. B) NÃO ESCREVA APENAS CENAS DE AÇÃO NEM APENAS CENAS DE DIÁLOGO. O IDEAL É INTERCALAR AS DUAS. COMO NA VIDA, NA LITERATURA PRECISAMOS DE TEMPO PARA CONVERSAR… E FUGIR! (ESPECIALMENTE SE TIVERMOS UM GOLEM ATRÁS DE NÓS!)

E falando em Golens…

Conclusão – A Segunda Versão: Revisão do Enredo

Agora, você tem em suas mãos – como um mago cristão cabalista dos infernos! – todas as ferramentas para compor a primeira versão do seu manuscrito. Não se surpreenda se ela tiver apenas 20 ou 30 mil palavras das 70 ou 80 inicialmente planejadas. Também não fique triste se a escrita não estiver das mais bonitas. Esta versão é simplesmente a sua primeira tentativa de colocar no papel o enredo, os personagens, o mundo e as cenas que você ideou nos últimos meses. Agora, você começará a melhorar esse texto.

O que nos leva à segunda versão do nosso manuscrito. Primeiro, deixe seu texto descansar por uma ou duas semanas. Depois, o releia com caneta vermelha ou verde ou amarela (enfim, sua cor favorita), anotando incongruências, que são bem comuns em primeiras versões. Segue uma lista do que é bom checar nessa versão e o que você corrigirá para a segunda:

  • Meu herói é muito passivo e pouco ativo;
  • Meu vilão é apenas um poço de maldade sem motivação crível;
  • Meus coadjuvantes pouco contribuem para a narrativa;
  • A arma ou artefato que uso no último capítulo não foi apresentado antes;
  • A cena de ação fantástica está muito rápida ou muito lenta;
  • A descrição de cenários está pobre ou excessiva;
  • A ordenação temporal está uma bagunça;
  • Há variações em vozes narrativas (1ª e 3 ª pessoa) ou tempos (passado e presente);
  • O ponto de vista se altera de forma incoerente de um personagem pra outro;
  • Há juízos de moral que são mais meus do que dos personagens;
  • Há pouca representatividade étnica, social e de gênero;
  • Minhas heroínas – se você é homem – estão muito tipificadas;
  • No caso de cenas românticas, estão muito sentimentais;
  • A sequência de Sumários e Cenas precisa ser reorganizada;
  • Cenas de tensão precisam ser adicionadas ou aprimoradas;
  • As leis internas do mundo ainda estão confusas ou imprecisas.

A lista do que poderíamos corrigir neste momento – e em momentos posteriores – é infinita. Mas essas são as mais comuns e aquelas que editores e leitores percebem rapidamente como problemáticas. Então, copie a listinha, imprima e cole na parede! Tá bom, na parede não. Na geladeira então! Ou então em algum post it perto do seu computador para não esquecer. Isso feito, e com nossa segunda versão encaminhada, vamos encarar agora a criatura!

Golem bombado e inominado (por hora!) de Jéssica Lang

Você respira fundo e invoca suas divindades favoritas ou espíritos de proteção. Você abre os olhos e lá está ela, gigantesca, poderosa e intimidadora. Você sorri e não tem resposta. Será que há alguma coisa errada? A criatura, um pouco incrédula, pois é tudo muito novo, te devolve o olhar. Há um pouco de lama escorrendo por um dos lados do rosto e o cheiro,  dependendo da lama que você usou, não é dos melhores. Mas esses são os ossos do ofício e bebês fazem sujeira. Ao menos no início. Victor Frankenstein que o diga…

Mas seu golem particular, sua criatura de estimação, a primeira versão da sua história, está lá. E ela fica em pé! Como é possível? Ora, a estrutura dela é forte. Você passou meses – talvez anos – a construindo. E fez isso com andaimes de ferro, ouro, madeira, correntes, cordas e cipós (improvisação é alma do negócio), escrevendo em cadernos, papéis, computadores e celulares. Você teve ajuda, logicamente. Dos seus mestres, desta coluna, dos amigos com quem discutiu a história e do namorado ou namorada que teve que escutar cada surto psicótico quando uma nova ideia surgia. Por tudo isso, é claro que ele fica em pé! Mas agora está na hora de tirar os andaimes e torná-lo/la mais forte. Nosso Golem já nasceu bombado e forte, mas agora precisa continuar trabalhando esses músculos para não amolecessem ou dissolverem. E você não quer que isso aconteça no meio da sala, não é mesmo?

Esse será justamente o assunto da próxima coluna, que responderá às seguintes perguntas: Como eu fortaleço meu monstro ficcional para ele ficar ainda mais saudável? Além disso, como eu transformo um Golem meio disforme numa atraente e hipnótica Sereia? Em outros termos: Como eu transformo a minha ainda caótica primeira versão num manuscrito apresentável a leitores e editores?  Um abraço a vocês, caros escritores & escritoras, e nos vemos no Tomo X, quase chegando ao fim do nosso Bestiário Criativo em Doze Lições!

Enéias Tavares, o autor desta coluna, desde sua infância adorava brincar com lama, para o horror de seus pais. Hoje, ele finalmente entende tal fascínio. É o criador de Brasiliana Steampunk (Editora LeYa) e coautor de Guanabara Real (Editora Avec), duas séries ambientadas em um Brasil retrofuturista. É um dos coordenadores do projeto Bestiário Criativo na UFSM, onde ensina Literatura Clássica e Escrita de Ficção. Nas poucas horas vagas, escreve, caminha e pesquisa a História da Literatura Fantástica no Brasil, junto de Bruno Matangrano, para o projeto Fantástico Brasileiro. É um também, junto de Felipe Reis, o showrunner e o roteirista da websérie A Todo Vapor!, baseada em suas séries steampunk. A artista responsável pelo Golem fortão deste mês e por outras criaturas deste bestiário é Jéssica Lang, designer, ilustradora e uma das criadoras da webcomic Metalmancer, ao lado de Andrio Santos.

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