Dragões são criaturas poderosas, desconfiadas e possessivas.

Eles podem voar alto e seu tamanho impõe respeito, tendo uma pele escamosa à prova de fogo, vento, água ou metal. Além de magia, obviamente. E como você já deve desconfiar, eles não possuem um hálito muito convidativo, afinal estamos falando de uma bocarra de fogo que destrói casas, bairros e até cidades inteiras.

É de assustar, não é? Ou nem tanto, afinal eles estão apenas tentando proteger o que pensam ser seus: riquezas bem impressionantes ou apenas suas jovens mamães de charmosos cabelos platinados. Assim sendo, se você não mexeu com eles ou os acordou numa hora inapropriada, sua saúde e sua vida estão garantidas. Ainda que suas intenções sejam boas e seu coração seja honesto, é necessário tomar cuidado antes de qualquer aproximação ou contato. Pois estamos sim falando de seres que sabem ser bem geniosos e temperamentais. Mas seria diferente com você? Qual seria sua reação se alguém invadisse sua toca e mexesse em seus livros, seus jogos ou com o amor da sua vida?

Nesta semana, vamos discutir um pouco os tesouros que guardamos em nossas casas e o modo como esse espaço altera, motiva ou atrapalha o processo criativo. Se fomos convidados no último texto deste bestiário, dedicado ao Pégaso, a dar início ao nosso projeto ficcional fabuloso e memorável, hoje iremos discutir a importância dos lugares que escolhemos, criamos ou adaptamos, para nossa atividade criativa. Devidamente acomodados para começarmos?

Onde vou escrever minhas histórias?

Há três tipos de espaços nos quais podemos criar nossos mundos, desenvolver nossas aventuras intergalácticas ou criar nossos heróis e heroínas memoráveis: ideais, reais e adaptados.

No caso do primeiro, falamos daquele gabinete de trabalho dos sonhos que se parece com o estúdio de Hannibal Lecter, as Salas Comunais de Hogwarts, a Biblioteca do Sonhar ou ainda com o Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro. Entretanto, quase sempre o que temos, em oposição a esse espaço sonhado, é um quarto pequeno sem mesas, uma sala com televisão ligada e família conversando alto ou então a boa e velha mesa da cozinha.

Nesses casos, você tem de aprender a fazer desses espaços limitados, e não raro ruidosos, confortáveis ambientes nos quais você consiga sair do mundo circundante e mergulhar no universo da sua história. Fones de ouvido com música ambiente e líquidos estimulantes – como água, café ou suco ou o que mais você considerar apropriado – sempre ajudam. Além desses, felinos ou caninos jogados aos pés também se mostram fundamentais à atmosfera. Isso, claro, se estes não ficarem lambendo seu pé ou pulando ao seu lado ou aqueles se espreguiçando sobre o seu teclado.

Eu, particularmente, não sou um grande apreciador nem de bebida alcoólica nem de comida, ao menos não como acompanhantes do trabalho. E a razão disso é bem simples: além de dar sono, eles podem transformar seu ambiente de trabalho num pandemônio de migalhas esfareladas e taças derramadas. Mas é claro, isso no meu caso. Você pode descobrir que uma cerveja gelada num dia quente ou um snack ao lado do computador podem funcionar perfeitamente como estímulos. Mais uma vez se trata de você definir a si próprio como deseja trabalhar.

Em termos de espaço, nem sempre você tem o que você deseja, mas quase sempre você tem o que você precisa.

Vejamos como alguns escritores lidam com seus espaços de trabalho. Sergio Rossoni, autor de Birman Flint e o Mistério da Pérola Negra (Editora Chiado), afirma que transformou um dos cômodos de seu apartamento em seu gabinete de escrita: “É o meu local de trabalho – minha pequena biblioteca onde costumo escrever cercado pelos meus filhotes felinos. Possuo mais livros do que estantes, distribuindo-os em três fileiras de livros para cada prateleira. Além disso, mantenho algumas figuras colecionáveis espalhadas por entre os livros como se fossem pequenos observadores.” O hábito de manter seu lugar de trabalho organizado faz com que ele “se sinta bem”, o que contribui para a sua escrita.

Outro autor que gosta de ter um espaço exclusivo para escrita é Duda Falcão, autor dos livros de terror Mausoléu (Editora Argonautas) e Treze (Editora Avec). “Eu escrevo em um aposento híbrido, misto de biblioteca com sala de jogos. Neste mesmo local também recebo os amigos para conversar, jogar, pintar miniaturas e ler. Não costumo escrever em qualquer local.” Como vemos, para muitos escritores é uma questão de imersão no trabalho criativo, algo muito raro de se ter em ambientes públicos ou então muito agitados. Mas aqui estamos falando de um ideal, algo que nem todos nós possuímos em termos de espaço ou condições de trabalho. Nesses casos, a saída é improvisar.

Ana Lúcia Merege, a autora da fantasia épica Athelgard, que já conta com três livros, O Castelo das ÁguiasA Ilha dos Ossos e A Fonte Âmbar (Editora Draco), afirma que não tem um espaço específico para sua escrita: “Eu escrevo em vários lugares. Em casa, na barca durante a travessia entre o Rio e Niterói, em cafés. Geralmente escrevo no caderno e depois passo a limpo, o que já serve como uma primeira revisão, mas algumas vezes, dependendo do texto, escrevo direto no Word.”

Já Bárbara Morais, autora da trilogia Anômalos (Editora Gutemberg), é outro exemplo interessante de como se pode criar alternativas para resolver o desafio do espaço próprio de trabalho: “Só consigo escrever em casa e, como moro com minha família, só tem dois ambientes que considero meus: a sala e meu quarto. Meu quarto é um estudo constante da teoria do caos, então prefiro escrever na sala. Toda minha família também prefere fazer suas atividades na sala e, para escrever, preciso me concentrar bastante no que estou fazendo ou não produzo nada, então acabo escrevendo no meu quarto, com um aviso de ‘Não Perturbe, Fábrica de Ideias em Funcionamento’ que mamãe me deu na porta. Parece ótimo, né?”

Sergio Rossoni – Duda Falcão – Ana Lúcia Merege

Outro autor que não esconde a importância de se ter um espaço, para não dizer um ambiente, propício à criatividade é Zé Wellington, roteirista dos quadrinhos Quem Matou João Ninguém? e Steampunk Ladies – Vingança a Vapor (Editora Draco): “Eu tenho um escritório onde estão todos os meus livros, o que sempre foi um sonho pessoal para quando eu saísse da casa dos meus pais. Há pôsteres espalhados pelo ambiente, alguns bonequinhos e brinquedinhos nerds e essas coisas todas. Para mim, a porta desse escritório acabou se tornando um portal para um mundo protegido, cercado por aqueles mestres e ícones que inspiram o meu caminho. Nesse templo é onde começa o importante processo de imersão para a criação dos meus projetos.”

Depois de ver todos esses casos, que tal então definirmos, para nós mesmos, quais são os lugares mágicos e encantados onde criaremos nossas histórias? Para tanto, vamos ao terceiro exercício criativo da nossa coluna. Os primeiros dois você confere aqui. Lembrando, peguem um pedaço de papel, pensem alguns instantes e anotem a sua resposta.

EXERCÍCIO CRIATIVO 3:

ONDE IREI CRIAR MINHA HISTÓRIA? QUAL ESPAÇO EU VOU ESCOLHER HABITAR, CRIAR OU IMPROVISAR, PARA QUE SE TORNE MEU GABINETE DE TRABALHO?

Pronto? Agora que discutimos diferentes espaços para a nossa atividade criativa e estabelecemos o nosso “onde”, vamos ao nó górdio do tema “Escrita Criativa”, aquele que tem a ver com o nosso principal desafio nesses dias e que pode ser sumarizado pela direta e pujante pergunta: “Escrever eu até escrevo em qualquer lugar, mas como diabos eu acho tempo para fazer isso?!”

Como vou encontrar tempo para meus projetos criativos?

Há várias formas de estabelecer uma rotina de escrita. Eu destaco três: regular, imersiva e profissional. A primeira delas é aquela escrita diária, na qual o escritor ou escritora consegue trabalhar uma ou duas horas por dia ou então produzir um número específico de palavras ou parágrafos a cada sessão de trabalho. A imersiva, por sua vez, é aquela rotina de finais de semana, feriados ou retiros criativos. Por fim, a profissional é aquela na qual você tem um prazo a cumprir.

De forma geral, boa parte dos escritores concorda que uma rotina diária é a mais adequada. A.Z. Cordenonsi, autor do romance Le Chevalier e a Exposição Universal e da graphic novel Le Chevalier: Arquivos Secretos (Editora Avec), gosta de trabalhar desse modo, apesar de ter uma rotina bem flexível, de acordo com as urgências do trabalho ou da família. “Eu tento trabalhar quase todos os dias,” afirma ele, “com exceção de sábado e domingo, quando dou atenção às crianças. Não tenho uma rotina quantificada de quantas horas por dia posso trabalhar, pois as demandas diárias são bastante variadas.”

os autores Barbara Moraes – Ze Wellington – A.Z. Cordenonsi
Barbara Moraes – Ze Wellington – A.Z. Cordenonsi

Merege, que também defende em seu processo uma rotina diária, gosta de estabelecer “uma meta de 1.000 palavras/dia, meta que na maior parte dos dias consigo cumprir – em janeiro escrevi mais de 31.000 palavras, mesmo com altos e baixos. Frequentemente trabalho com prazos apertados quando se trata de contos, pois às vezes sou convidada para coletâneas com prazo determinado.”

Mas infelizmente, a vida nem sempre nos permite uma regularidade diária, o que nos leva muitas vezes a adotar uma estratégia imersiva, em datas previamente agendadas. Duda Falcão destaca esses retiros ou eventos criativos como fundamentais à sua criatividade. Apesar de preferir escrever em casa, “às vezes participo de retiros literários com outros escritores. Já tive oportunidade de escrever durante a noite e a madrugada na Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul e no Teatro São Pedro. Quando possível vou com minha esposa para locais afastados da minha cidade para escrever. Além disso, algumas vezes escrevo na praia, no campo ou na serra.”

Foi num desses retiros criativos, junto de Duda Falcão e Christopher Kastensmidt, na casa deste em Torres (RS), que eu e A. Z. Cordenonsi, escrevemos a primeira versão dos capítulos de Guanabara Real – A Alcova da Morte (Editora Avec). Num respeitável grupo de escritores sulistas autointitulado W.C.M (Writing Club Motherfuckers!), que se reúne duas ou três vezes por ano, nós dois escrevemos os capítulos respectivos de nossos personagens: eu focado no mundo místico de Remy Rudá e ele, nos perigos tecnológicos enfrentados por Firmino Boaventura. Enquanto isso, Nikelen Witter trabalhava em Santa Maria, centrada no enredo policial protagonizado pela investigadora Maria Tereza Floresta.

Como podem ver, retiros criativos como esses são importantes por várias razões. Primeiro, porque te colocam em contato com outros criativos e criam um ambiente colaborativo que é desafiador e estimulante. Você não vai se jogar na cama se há outro escritor ao seu lado prestes a chegar às primeiras cinco mil palavras, vai? Ademais, situações imersivas permitem concentração absoluta em seu projeto, sem os desvios ocasionais que temos se estamos em casa, na universidade ou no trabalho. Mas é claro que para funcionarem, há uma regra de ouro: Desligue a Internet!

Neste ponto, talvez você esteja pensando: “Mas eu não tenho amigos escritores nem condições de sair de minha cidade para quatro dias de criação imersiva!” Se este for o seu caso, fique tranquilo, pois não é necessário viajar para outra cidade para organizar um retiro criativo. Junte alguns amigos ou colegas que tenham pretensões criativas – sejam quadrinísticas, romanescas, poéticas ou ensaísticas –, marquem uma data comum, comprem mantimentos e tranquem a porta por um final de semana estendido, talvez aproveitando um feriado de sexta ou segunda-feira. Mas lembre: Desligue a Internet!

Por fim, além das rotinas diárias e das imersivas, destacamos o hábito mais comum entre escritores profissionais, aquele que não prevê escolhas, musas ou situações ideais, concentrando-se apenas no temível “deadline”. Se para alguns a “linha mortal” poderia ser vista como um dragão feroz e sedento de sangue, ossos e músculos, também é um fato que, dados os nossos péssimos hábitos de procrastinação, muitos escritores reconhecem no prazo um de seus melhores amigos. Quando você sabe que há um editor ou um parceiro profissional esperando seu texto e que descumprir um prazo pode arruinar sua carreira ou então deixar uma péssima impressão, você baixa a cabeça e trabalha. Simples assim.

Se você ainda não tem um editor ou uma carreira profissional que lhe dê o beneficio do compromisso externo, crie-o. Ao invés de estabelecer prazos meramente pessoais – que são frequentemente suplantados por urgências de trabalho, escola ou universidade, isso para não falar do último romance de Neil Gaiman ou então da nova série da Netflix –, escolha amigos de confiança e pergunte a eles quando terão uma semana para ler seu original. “Mas, cara, eu nem terminei meu original ainda?!”, você pode dizer. Sim, mas a chance de você terminar justamente porque há alguém esperando para lê-lo é bem grande. E você não quer decepcionar seu amigo, colega ou namorado/a dizendo que não terminou sua aventura épica/espacial/monstruosa, não é mesmo?

Isso compreendido e depois de revisitarmos essas três modalidades importantes à nossa rotina, vamos ao quarto exercício criativo da nossa coluna. Tome seu lápis ou sua caneta e de preferência um calendário semanal e deixe tudo à sua frente. Depois de pensar um pouco, responda:

EXERCÍCIO CRIATIVO 4: QUANDO IREI CRIAR MINHA HISTÓRIA?

IREI ADOTAR UMA ROTINA DIÁRIA OU IMERSIVA OU ENTÃO ESTABELECER PRAZOS RAZOÁVEIS PARA CONCLUIR A PRIMEIRA VERSÃO DO MEU CONTO OU ROMANCE?

Depois de escrever sua resposta, marque no calendário sua programação. E com isso, caros, encerramos por esta semana. Ou ainda não. Alguns lembretes finais sobre ferramentas, acompanhamentos e claro… dragões!

Instruções para que o Sabre de Luz não exploda na sua mão!

Vamos a algumas questões bem práticas para concluir. Como é obrigação de todo Cavaleiro Jedi construir seu próprio Sabre de Luz, cabe também a todo escritor organizar seu ambiente de trabalho e ter à mão as principais ferramentas do seu ofício. E a importância disso também é externa, uma vez que ao estabelecermos um espaço para o nosso trabalho comunicamos aos nossos familiares e amigos que aquilo que nós fazemos é sério, comprometido e profissional. Então, deixarmos claro onde e quando escrevemos também nos ajuda a ganhar respeito e evitar que pessoas nos interrompam por achar que não estamos fazendo nada. Você já passou por isso, não?

Eu gosto de ter por perto pilhas de livros que me motivem, especialmente volumes relacionados ao gênero ou ao modo narrativo no qual estou trabalhando naquele momento. Além disso, sempre garanto música estrangeira ou instrumental – nacional eu evito, pois a letra me distrai com facilidade –, doses inesgotáveis de cafeína, felinos ronronentos e bigodudos e uma cadeira confortável, mas não muito, senão eu durmo… mesmo!

Ao lado desses amuletos de poder ou companheiros de viagem, também é importante ter por perto o “Um Anel” da criação literária: uma boa e, de preferência, bem surrada Gramática! Outra arma de grande auxílio em cavernas escuras é a espada élfica prateada chamada Dicionário, que brilha em presença de monstruosos erros gramaticais. Mas você também pode optar por uma ou outra em formato eletrônico. Mas indiferente de ser digital ou impresso, um conselho: nunca saia pelo mundo sem eles, afinal você não quer ser pego despreparado. Ou em termos Jedi: Você não quer que seu sabre exploda na sua mão!

Quais armas você forjou para a sua aventura no mundo da escrita?

Em outros termos, você não quer que a cena de ação mais perfeita ou o diálogo mais emocionante ou a descrição mais memorável que você já foi capaz de criar seja implodida por um erro de concordância, crase ou regência. Então, faça seu dever de casa e aprenda a usar armas e ferramentas textuais. Com elas, você não apenas se protege de inimigos gosmentos – e eventuais e pavorosas críticas aos seus erros de concordância ou digitação – como também será capaz de construir sua máquina do tempo ficcional ou seu portal de teleporte mítico. Apenas não deixem moscas entrar, por favor!

Vamos voltar então à nossa metáfora inicial? O aventureiro se aproxima do tesouro e lá está o dragão medonho e furioso, à espera. Ele é poderoso, imenso e atento a cada uma das moedas que compõem sua ostentosa riqueza. Você pode fugir. Você deve fugir, na verdade. Mas você é um herói ou uma corajosa viajante. Assim, você decide ficar, pois há histórias que serão contadas em sua homenagem. Mas ficando, o que você faz? Luta com o dragão? Você não tem chance. Leva-o na lábia? Esqueça! Ele é muito mais inteligente do que você sequer sonhou. Depois de pensar um pouco, você decide fazer a única coisa cabível: sentar e humildemente aprender com o modo com que ele protege e cuida do seu tesouro.

Seu ambiente de trabalho e sua rotina criativa são seus bens mais preciosos. Então, cuide deles com sua vida e mande embora as pessoas que querem saquear sua criação dizendo “Você não está fazendo nada, então vem me ajudar” ou então “Deixa isso aí e vamos à nossa maratona House of Cards”. Não digo a você que essa pessoa merece uma baforada de fogo – ou de qualquer outra coisa que você tenha comido nas últimas horas – mas mostre a ela com quem está lidando: um ou uma profissional que não vai deixar para depois a escrita da história que guardou por tanto tempo. Concorda? Então, comece hoje, comece agora.

Um abraço, escritores, e nos falamos de novo em algumas semanas, quando voltarei aqui para discutir com vocês a fisiologia dos ciclopes e os desafios da arte do storytelling.

Enéias Tavares é criador de Brasiliana Steampunk (LeYa) e co-autor de Guanabara Real – A Alcova da Morte (Avec), duas séries literárias ambientadas em um Brasil retrofuturista. Além disso, é um dos coordenadores do projeto de extensão Bestiário Criativo e professor de Literatura Clássica na UFSM. Nas poucas horas vagas, cozinha, nada e cuida das suas duas panteras domésticas, Mona e Penélope e de seus escorpiões robóticos.

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