Todos nós temos nossos medos, pesadelos e horrores, temores que nos afligem e nos petrificam como Górgonas. Com Perseu não era diferente. A diferença era que no seu caso, o monstro que transformava homens em estátuas de pedra era bem literal. Munido de espada e escudo, o herói grego decepou a cabeça de sua nêmese e preparou-se para partir, levando seu prêmio.

Mas como escapar daquela ilha amaldiçoada, povoada de aventureiros e heróis transmutados em pedra? Como chegar em Sérifo a tempo de salvar sua mãe Dânae? Foi quando – surpreendentemente!!! – do sangue do monstro ancestral emergiu um cavalo alado que possibilitaria sua fuga. Hmmmm… tudo bem. Nem sempre os mitos são coerentes, mas não se engane: eles sempre são verdadeiros, mesmo que de um ponto de vista unicamente imaginativo ou psicológico.

A saída estava lá, diante de Perseu, mas como montar e cavalgar o poderoso equino com asas?! Embora o mito não explique isso, o fato dos antigos terem unido uma criatura bela e inspiradora, que nos leva para longe e para o alto, a um monstro ctônico e soturno, de olhos petrificantes e cabelos peçonhentos, comunica-nos algo importante: todo processo criativo ou voo de inspiração decorre de medos, inseguranças e pavores primitivos, justamente aqueles que não queremos encarar, ao menos não de frente.

Ei aqui o papel da arte e também a possível razão de todos nós nos deliciarmos com histórias de terror e violência. No espelho da arte – como Perseu encarando a face da Medusa pelo reflexo côncavo do seu escudo – podemos encontrar e vivenciar nossos horrores mais primitivos e, ainda assim, sobreviver, numa experiência essencialmente catártica, curadora e revigorante, como Aristóteles muito bem apontou em sua Poética.

Mas e no caso da criação artística? Como encarar Górgonas demoníacas e Pégasos inspiradores pode nos auxiliar no desafio inicial de transformar nossa primeira ideia ou nossos milhares de elucubrações num projeto que possa ir em frente? É sobre este desafio que vamos nos dedicar neste texto e nos próximos dois, tentando encarar de frente as nossas motivações criativas.

Compreendendo a Ideia inicial: Pulsação, ressonância ou descoberta?

Para entendermos a mais preciosa das perguntas sobre a arte e suas obscuras origens – “De onde você tira suas ideias?” – podemos primeiro sugerir que três são os movimentos imaginativos iniciais que nos levam da passividade deliciosa da recepção para o furacão tempestuoso da criação.

Primeiro, podemos nos sentir impelidos, empurrados, inexplicavelmente motivados por uma pulsão antiga e misteriosa, talvez um sonho de infância, um desejo de expressar algo importante – fato, sentimento ou insatisfação –, algo que está preso em nossa garganta, algo que comprime nosso coração ou então revira nossas entranhas. Acredito que este sentimento seja um dos mais poderosos, mas também um dos mais desafiadores de ser mapeado ou compreendido.

Outra possibilidade é a reminiscência de um fato ou história do passado: um grande amor, uma viagem impossível, uma amizade desfeita, a inevitabilidade da morte… ou da vida. Algo que nós guardamos dentro de nós há muito tempo e algo que continuará conosco até colocarmos para fora. Essas ressonâncias também são poderosas e são elas que muitas vezes nos motivam – sejamos escritores “realistas” ou “fantásticos” – a escrever o que precisamos escrever.

Mas há também as boas e velhas descobertas do dia a dia. Quando aprendemos que aquilo que pensávamos sobre nós e os outros não era exatamente tão preciso e verdadeiro quanto pensávamos no alto dos nossos quinze anos. Ou ainda, quando percebemos que o mundo é complicado, que os sonhos são desafiadores e que as histórias, assim como os sentimentos, são caprichosas e fugidias.

Perdoem-me as divagações, mas algo que você perceberá nestes momentos iniciais de seu processo criativo é que elas são inevitáveis. Ainda estamos no movediço e perigoso terreno das primeiras ideias, na qual você, Perseu imaginário, ainda está vagando sem ver com precisão o que tem pela frente.

Neste momento, você está em busca do tema, não ainda do modo narrativo ou do enredo. Apenas do tema. Por exemplo, sua história é uma busca por sobrevivência, uma jornada existencial ou sensorial, uma reflexão sobre a morte, uma aventura em direção ao desconhecido ou então uma trágica e intensa história de paixão e possessão. E aqui, faremos nossa primeira pausa. Esta coluna terá algumas. Nesta primeira, gostaria de convidar você a responder a seguinte pergunta:

EXERCÍCIO CRIATIVO 1. MINHA HISTÓRIA É SOBRE O QUÊ?    

Tome o tempo que quiser para responder e de preferência pegue papel, caderno ou celular, e anote a sua resposta. Será a partir dela que iremos prosseguir. Faça isso agora. Vá lá e anote. Não deixe para depois, pois nossa memória é uma tia sacana e miserável que sempre nos deixa na mão.

Pronto? Sigamos então, agora de uma forma menos etérea e abstrata, em direção às principais influências de todo escritor ou escritora.

Primeiras influências: Aquilo que vivemos e aquilo que consumimos

Grosso modo, aquilo que produzimos ficcionalmente vem de dois lugares: a) daquilo que vivemos e/ou b) daquilo que lemos/assistimos/jogamos. Eu particularmente acredito que a boa arte advenha do entrecruzamento das duas experiências. Ficções unicamente autobiográficas tendem a ser entediantes e insuportavelmente melodramáticas, ao passo que histórias que apenas revisitam outras histórias não raro resultam frágeis e desinteressantes do ponto de vista emotivo ou dramático. Agora, quando temos sentimentos reais mesclados a enredos atraentes e fantásticos, aí sim temos um conjunto ficcional que nos conquista, da primeira à última página.

Cada escritor acaba oscilando entre essas duas instâncias. Eduardo Spohr, por exemplo, autor da tetralogia Filhos do Éden (Editora Verus), afirma que, em sua série angélica, “duas foram as principais referências: a série de filmes ‘Anjos Rebeldes’ e os quadrinhos da Vertigo (DC Comics), como Hellblazer, Preacher, Sandman e Livros da Magia. É claro que, além disso, eu tive influências de várias mídias. Por exemplo, as lutas angélicas foram certamente inspiradas no anime ‘Cavaleiros de Zodíaco’. Os monstros dimensionais tem alguma coisa de Lovecraft e a imortalidade dos personagens sem dúvida veio dos livros da Anne Rice. Por outro lado, a miscelânea de entidades e deuses nasceu a partir da leitura dos romances de Neil Gaiman.”

Eduardo Spohr, Eric Novello e Carol Chiovatto

Eric Novello, de Exorcismos, Amores e uma dose de Blues (Editora Gutemberg), defende a importância de se manter atento às duas instâncias. “A parte da ficção”, afirma o escritor e tradutor, “talvez seja um pouco mais simples: ler muito, ler sempre, prestigiar toda forma narrativa, seriados, filmes, teatro, jogos. Por terem estruturas diferentes, linguagens diferentes, durações diferentes, consumir essa variedade nos abre um leque de estratégias narrativas que aos poucos vai se tornando um processo orgânico. A parte da realidade exige um tanto mais de ‘trabalho’, me parece. É preciso aprender a escutar o outro, observar o mundo, manter-se informado, conhecer as histórias que inspiram as próprias histórias.”

Se alguns autores defendem um processo de absorção de algum elemento externo, outros vão em direção inversa. Carol Chiovatto, por exemplo, autora do conto finalista do prêmio Hydra, A Última Feiticeira de Florença, diz que raramente espera a ideia vir. “Eu costumo refletir sobre coisas que me chamam a atenção, questões que me causam algum desconforto – em livros, filmes, mas mais comumente no cotidiano (o que é bem engraçado, porque só escrevo coisas que se passam ou muito no passado ou muito no futuro). Às vezes eu quero trabalhar uma determinada questão e daí escolho um cenário espaço-temporal adequado para fazer o assunto sobressair sem a coisa toda parecer panfletária. Normalmente, essa questão é algum aspecto do feminino (ou das representações de gênero) na sociedade, mas eu também gosto de discutir parâmetros de poder e dominação e conflitos de consciência.”

Como os comentários desses escritores indicam e como você constatará em outros momentos desta coluna, não há regras ou fórmulas quando discutimos criatividade e o desenvolvimento de histórias. O que há são possibilidades infindas a partir de quem você é, do que você vivenciou e das várias coisas que você acessou culturalmente. Para muitos autores, o fundamental é lidar com uma inquietação bem pessoal. Lembrem: Pulsação, ressonância ou descoberta.

A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison (Editora LeYa), o primeiro volume de Brasiliana Steampunk, nasceu de três perturbações bem pessoais. Primeiro, da minha chateação com o modo como a literatura brasileira me foi ensinada na escola. Segundo, do fato de muitas obras de ficção nacional não apresentarem paisagens nacionais em sua elaboração. E por fim, de um coração partido, literalmente, visto que eu havia recém terminado um relacionamento de quase dez anos. Assim, coloquei boa parte da minha mágoa, chateação e tristeza no trabalho, ao invés de apenas me afundar em autocomiseração. Isso só depois de chorar muito, obviamente.

Mas nem todos os processos são tão tortuosos assim. Para muitos autores, ficção não tem mesmo a ver com autobiografia, mesmo que ela seja metafórica. Andre Gordirro, autor de Os Portões do Inferno (Editora Rocco), enfatiza a importância dos jogos de interpretação para o seu processo criativo. O escritor carioca relata: “Como minha obra é baseada nas aventuras de RPG que fui jogando e escrevendo ao longo de vinte e cinco anos, basicamente tiro desse grande repositório de ideias passadas para lhes dar uma cara mais literária, tudo costurado por uma alegoria à situação geopolítica do mundo atual.”

Andre Gordirro, Camila Fernandes e Cirilo Lemos

Já para Camila Fernandes, criadora de Reino das Névoas, a escrita é uma exploração de perguntas: “O que nos encanta, perturba ou ocupa a mente de alguma forma, e por quê? Talvez a gente não descubra nenhuma resposta, nem precise descobrir. O importante é explorar esses territórios. Aproveitar a jornada da escrita, aonde quer que essas perguntas levem a gente. Se você for fascinado pela Primeira Guerra Mundial, por exemplo, faz sentido que queira escrever uma história dessa época, no front ou longe dele, usando as informações que já tem. Por outro lado, talvez você sinta vontade de escrever sobre um tema que ainda não domina e, estudando-o, acabe tendo as ideias certas, num esforço consciente.” E ela especula: “Imagino que quem tem o hábito de escrever ficção acabe se tornando automaticamente uma ‘esponja de ideias’”.

Cirilo Lemos, autor de E de Extermínio (Editora Draco), concorda que cada ideia vem um lugar diferente, mas leva essa suposição adiante. “A ideia de cada texto, cada conto e cada um dos romances veio até mim por meios próprios e bem distintos entre si. A verdade é que não sei dizer de onde essas ideias vêm. Elas simplesmente brotam na árvore e eu apanho e coloco em uma cesta. Algumas me obrigam a subir no galho, outras despencam sozinhas quando maduras. Talvez o segredo esteja no tipo de solo onde a árvore brota e no tipo de adubo que usamos. As referências do dia a dia – um filme, uma HQ, uma música, uma notícia ou mesmo uma conversa aleatória com um amigo – se combinam, se misturam e acabam fermentando até virar a fagulha da ideia, que chega em diferentes estágios e por diferentes caminhos. Às vezes, ela está acabadinha. Outras vezes, tem que brigar por ela e chocá-la feito um ovo. Meu primeiro romance, O Alienado, surgiu de uma conversa com um colega sobre como burocracia é uma coisa irritante.”

Qualquer uma das duas abordagens descritas acima – entre milhares de outras – é válida e bem-vinda, desde que consigamos identificar, no emaranhado de ideias que perpassam todo projeto inicial, o elemento que tem maior potencial. Neste caso, as possibilidades para se começar são infindas. Mas é de fundamental importância ter consciência disso e se questionar sempre de onde suas ideias estão partindo, onde elas estão chegando e quais as questões pessoais ou culturais que você deseja apresentar na história que deseja contar. Vamos a algumas dessas possibilidades.

Primeiros passos: transformando o tema num primeiro escrito

Vários são os percursos possíveis para se começar uma história e cada projeto vai demandar um processo e um percurso diferente. Alguns serão apenas falsos começos, ideias que pareciam geniais e que, com o passar do tempo, serão esquecidas, seja porque são muito parecidas com outras ou então porque careciam de apelo dramático. De um modo bem abrangente, eis os lampejos iniciais mais comuns:

Um início – Você consegue imaginar exatamente onde sua história vai começar, o ponto de partida para a batalha, a busca, a aventura, o romance. Neste caso, o desafio será esboçar como continuar e qual o final satisfatório para sua história.

Um final – Você visualiza com realismo cinematográfico o confronto final, a última cena, o modo como seu protagonista finalmente alcançará seu objetivo, como ele destruirá seu antagonista. Agora, como ele chegará lá é o que você precisa descobrir.

Uma cena – Você não faz ideia de como sua história irá começar ou como ela findará, mas teve, num momento de pura iluminação, a ideia dessa cena, maravilhosa e épica ou sutil e emocionante, ou ainda, brilhante em seu cinismo ou ironia. Agora, você precisa descobrir se esta cena integra uma história maior ou se ela não passa de uma ideia que daria um bom conto ou mesmo uma pequena crônica.

Um herói – Em escrita criativa, discute-se muito o que vem primeiro, o ovo ou a galinha, o herói ou a história. Não entraremos nesta discussão aqui, ao menos não por enquanto, mas eu tendo a acreditar que costumeiramente é um herói ou uma heroína o que primeiro vem à nossa mente, sendo que sua história será moldada posteriormente. Quem ver? Quem é ele ou ela? No momento em que respondemos essa pergunta, já entramos na história. Eu suponho que projetos que nascem de um personagem marcante são os que têm maior chance de vingar.

Um cenário – Nem início nem fim, nem cenas nem heróis. Para muitos autores, o que importa é o mundo, o universo, o cenário. Muitos criadores ficam meses ou anos criando uma geografia específica – com mapas, diagramas históricos, detalhes culturais, sucessões políticas, entre outros detalhes – para só depois entrar na história. O risco deste procedimento é se dedicar muito tempo à construção do mundo e nunca começar de fato a história ou então não conseguir encontrar um conflito que seja tão elaborado ou rico quanto os universos que se criou.

Em Lição de Anatomia, a parte que primeiro escrevi foi o diário do temível doutor do título, seção que foi parar na quinta parte do manuscrito final. Todo o resto foi sendo criado a partir dali, num processo mais circular do que linear. Aqui é importante manter a mente aberta, a percepção desperta, e saber que cada um dos seus projetos terá um desenvolvimento singular. Se você gosta de diários, mantenha uma anotação constante do seu processo criativo, escrevendo e detalhando de quais lugares e de que natureza são suas ideias iniciais. Isso ajudará você, sobretudo a médio e longo prazo, a compreender melhor seu próprio processo. Vamos então à segunda pergunta que precisa ser respondida?

EXERCÍCIO CRIATIVO 2. QUAL É O PRIMEIRO ELEMENTO DA MINHA HISTÓRIA?

Aqui, você pode partir das sugestões acima ou então simplesmente registrar a ideia mais absurda, divertida e fantástica que lhe veio à mente. Respondido? Então, vamos encerrar por hoje. Peço a você apenas mais uns minutinhos.

Últimos preparativos para começar a jornada

De posse então de sua primeira ideia, o que fazer com ela? Como Perseu diante do Pégaso, estamos prontos para voar. Porém, alguns cuidados são necessários, como guardar a espada, afivelar o escudo, prender a bolsa que leva a cabeça decepada do monstro no cinto e relembrar seus conhecimentos, mesmo que esparsos, de montaria.

De posse de sua ideia inicial, questione-se: Há alguma história muito parecida com esta? Qual seria o seu diferencial em relação a outras obras? Quais autores eu buscarei como referência para pensar o modo narrativo (aventura, fantasia, horror, policial, etc), o estilo e a identidade do projeto? Por mais inquietantes que tais perguntas sejam, respondê-las irá ajudar você a avançar no seu percurso.

E por fim, comece. Escreva uma frase, depois outra e ainda outra, até fechar um primeiro parágrafo, seja um parágrafo inicial do livro, ou o final, ou o clímax de uma cena, ou um encontro entre fervorosos apaixonados ou entre nervosos antagonistas. Apenas comece. Como e quando quiser, mas comece. Nada substitui o simples “sentar e escrever”.

Entre os vários inimigos da escrita que iremos encontrar por aqui, um dos principais é a procrastinação.  São aqueles nossos velhos conhecidos: o “prorrogar até amanhã”, o “deixar para depois”, o “ainda não estou pronto”, o “ainda não fechei o argumento”. Mas saiba que pensamentos como esses são vilanescos, perniciosos e nocivos. Então, apenas sente e escreva.

Apesar de eu insistir muito no planejamento, e vamos discutir muito sobre isso nos meses à frente, devemos evitar o risco de planejar muito e escrever pouco (ou nada!). Nada é mais nocivo a um projeto criativo do que semanas e meses de planejamento e nada de escrita.

Depois de se preparar, você então monta o Pégaso e, para a sua surpresa, o voo começa sem grandes problemas. É claro que haverá momentos acidentados, ventos inesperados, pássaros perigosos e gigantescos que estão logo atrás e que lembrarão você do seu medo, cuja cabeça decepada jaz abaixo de sua cintura.

Apesar desses percalços, a jornada será linda e o trajeto bem frutífero.

Até o próximo mês, quando discutiremos a importância do seu espaço de trabalho e como ele pode modificar ou prejudicar seu processo criativo.

Um abraço a todos & boas histórias por aí.

Enéias

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