Que inquietantes relações lobisomens bombados teriam com cenários fantásticos e baladas psicodélicas?! Saiba no Bestiário Criativo deste mês, onde Enéias Tavares recebe Affonso Solano, Bárbara Morais e Gustavo Czekster para discutirem criação de mundos e mapas literários!

Lobisomens tem uma conexão direta com o espaço e o mundo onde vivem. Suas transformações seguem os ritmos lunares e seu apego a Terra, suas origens e mitos, muitas vezes os fazem ser associados com defesas naturais e causas ambientais. Mas não se enganem: lobisomens são também furiosos caçadores, de presas, de conquistas, de histórias, além de figurarem  tanto em mitos clássicos quanto em histórias contemporâneas.

Na Grécia antiga, o rei da Arcádia, Licaão – de onde vem a palavra Licantropo – teria servido carne de má qualidade a Zeus e este, como castigo, transformou-o em lobo. Daí vem uma das variantes da palavra Lobisomem, que surgiu na Grécia da aglutinação das palavras “homem” e “lobo”. E o mesmo ocorreu, por exemplo, com o Versipélio romano, com o Voldkodlák eslavo, o Werwolf nórdico, o Loupgarou dos franceses e o Luison (!!!) dos guaranis – neste último caso, uma corruptela do Lobizón espanhol. E creiam-me: qualquer semelhança com temíveis doutores e suas censuradas lições de anatomia não passa mesmo de mera – apesar de inquietante – coincidência!

Desenho de um Lobisomen pelo artista Conor Burke
Florestas Selvagens & Lobos pouco Simpáticos – Arte de Conor Burke

Mas em todas essas variantes, além de dezenas de outras, a relação com a terra e a lua, com o mundo natural e seus elementos, persiste. Além disso, o fato de configurar uma criatura humana que se transmuta em fera comunica nossa própria condição natural, por mais que nossas ilusões racionalistas e civilizatórias produzam a ilusão de que estaríamos acima da natureza. Neste aspecto, o mito do homem – ou da mulher – que se transforma em ser lupino ecoa pelos tempos, não nos fazendo esquecer de quem somos e de onde o somos.

Em ficção, a importância do espaço é inegável. Tanto num romance experimental e realista como Ulysses de James Joyce quanto no épico fantástico de Tolkien, é o percurso pelo espaço que irá definir o arco narrativo de Leopold Bloom ou de Frodo Baggins. Todo escritor ou escritora tem uma ou mais histórias sobre como seu personagem teria ido parar num lugar que não fora previsto. Muitas vezes, essa alteração do destino – da trama e do enredo – tem a ver diretamente com o espaço onde a história se passa, espaço que não raro define o próprio herói ou heroína.

Desenho dos mapas de Ulysses e O Senhor dos Anéis
Mapas Literários que ilustram os cenários de Ulysses e de O Senhor dos Anéis

Para autores como nós, que objetivam criar histórias fantásticas, refletir sobre o espaço e sobre a criação de mundos ou universos é fundamental ao nosso processo criativo e à complexidade que daremos a nossa história. Na coluna deste mês, conversamos com alguns escritores sobre seus processos de criação de mundos e os desafios que teremos pela frente quer almejemos contextos históricos reais, cenários alternativos ou então mundos completamente fictícios. Prontos para o mapeamento desses territórios?

Definindo as Primeiras Coordenadas

Antes de iniciarmos nossa jornada – literária e existencial – é preciso compreender que tipo de território vamos explorar. A primeira escolha que precisamos fazer sobre o onde nossa história se passa diz respeito às três modalidades abaixo:

  • Cenário Real numa Linha Temporal Existente – É a escolha daqueles que se aventuram no romance histórico ou mesmo nos romances fantásticos urbanos. Neste aspecto podemos tanto falar de A Feiticeira da Terra, de Carol Chiovatto, dA Bandeira do Elefante e da Arara, de Christopher Kastensmidt, e dO Legado Folclórico, de Felipe Castilho, no caso do Brasil, quanto da saga Crepúsculo ou Harry Potter.
  • Cenário Real numa Linha Temporal Alternativa – Aqui falamos de gêneros como steampunk ou cyberpunk e de ficções futuristas ou distópicas, nos quais você ainda continua no planeta Terra – ou então no mesmo Sistema Solar ou universo – porém sob o efeito de um acontecimento que os alterou. É o caso de 1984 de George Orwell e do Neuromancer de William Gibson, ou mesmo de obras retrofuturistas como Brasiliana Steampunk (LeYa) e Le Chevalier (Avec) ou distópicas como a trilogia Anômalos (Gutemberg) ou o romance Ninguém Nasce Herói (Seguinte).
  • Cenário Ficcional Completamente Imaginário – E aqui vamos falar da chamada “high fantasy”, ou quando escritores criam mundos complexos e todos os seus detalhes fictícios, como mapas, linha temporal, descrições da cultura, da religião, da política, etc. Sagas como Star Wars e fenômenos literários como Senhor dos Anéis e As Crônicas de Gelo e Fogo podem ser vistos a partir desse viés. No Brasil, obras como O Espadachim de Carvão, de Affonso Solano, Três Viajantes, do Thiago Tizzot e os livros de Ruff Ghanor, de Leonel Caldela, exemplificam esse tipo de ambientação.

Ao definir esses três tipos de cenários possíveis, fica a dúvida: Qual deles escolher? Aí depende da sua energia e da sua disposição para a pesquisa. O primeiro conselho é sempre tentar produzir o tipo de história que você mais consome, pois isso te dará um repertório maior para levar para sua própria obra. O segundo é dedicar uma ou duas horas por dia, ao menos no início do seu projeto, à pesquisa necessária e à criação do seu mundo, seja ele real, alternativo ou completamente fictício. E obviamente, conhecer não apenas seus gostos e interesses como também suas limitações será de grande auxílio.

No meu caso, que tenho formação como professor de literatura brasileira e estudo a cultura e a arte do século XIX – além de ser um grande fã da literatura produzida nele ou que se passa nele – optar pelo steampunk e por um cenário brasileiro foi uma consequência lógica. Ainda mais: Temendo me dar mal ao escolher uma cidade com a qual não estivesse familiarizado, optei por uma paisagem urbana que eu conhecia bem para se tornar a capital de Brasiliana Steampunk, neste caso Porto Alegre. Com esta decisão tomada, parti de uma série de referências existentes – história do Brasil, do Rio Grande do Sul, da própria cidade, seus mapas, seus aspectos culturais, etc – para só então recriá-la a partir de um exercício imaginativo inicialmente simples: E se no século XIX brasileiro tivéssemos vivido um gigantesco avanço tecnológico possibilitando a criação de autômatos robóticos?

desenhos dos mapas de Brasiliana Steampunk e O Espadachim de Carvão
Mapas Fantásticos Nacionais Porto Alegre dos Amantes e Kurgala

A partir dessa primeira pergunta, outras surgiram: Com autômatos robóticos, a escravidão teria sido abolida antes de 1888, não? Como seria a vida dessas pessoas caso elas tivessem secretários robóticos para facilitar/atrapalhar suas vidas? De que modo aspectos como arte, cultura, política e religião, entre outros, seriam alteradas a partir dessa nova tecnologia? Assim, o que começou como uma simples pergunta se tornou um arquivo de páginas e páginas de informações e textos que nunca serão publicados, mas que servem de bússola à lógica interna do universo da série. Aos iniciados, esse arquivo monstruoso com dezenas de referências sobre um mundo ficcional é chamado de “Bíblia do Mundo” ou apenas de “Bíblia”.

Mas este foi o meu processo. E quanto a outros esforços criativos? São parecidos? Como veremos, quando o assunto é Criação de Mundos Fantásticos, nem um pouco. Entrevistamos três autores que trabalham justamente com os tipos de universos descritos acima. Prontos para os mundos “reais” de Gustavo Czekster, para os universos “distópicos” de Bárbara Morais e para as altas paisagens imaginativas do mundo de Kurgala criadas por Affonso Solano?

Desenhando Mapas & Projetando Mundos

O escritor gaúcho Gustavo Czekster, autor das coletâneas O homem despedaçado (Dublinense) e Não há amanhã (Zouk), não economiza palavras quando o assunto é a importância do cenário para qualquer história. Seus contos aproximam-se do realismo mágico, muitas vezes revelando o fantástico no mundo cotidiano em que vivemos, como se o insólito existisse aqui ao lado, no nosso mundo e nas nossas cidades. Segundo ele, “o cenário é essencial! Sem ele, a história não existe. O leitor precisa saber onde está, justamente para poder acreditar ainda mais no mundo ficcional criado pelo autor. Por causa disso, dou especial atenção ao cenário, pois sei que a descrição dele é essencial para o leitor visualizar a cena, além de ajudar a construir não só a trama, mas também os dilemas dos próprios personagens.”

Questionado sobre o que deve nortear a escolha de um escritor sobre cenários reais ou imaginários, ele defende que essa resposta deva ser dada a partir do tipo de história que se deseja contar. “Eu não vejo muitos desafios em ambientar um enredo no mundo real, pois considero que, se a história ficará melhor no mundo real, é ele que deve se ajustar a ela, e não o contrário. Existem autores que possuem obsessão com realismo dentro da narrativa, mas eu acredito que, se não for um erro grave, eventuais incoerências com a realidade ficarão na conta dos acasos e impossibilidades que às vezes acontecem no cotidiano.”

Imagem de Gustavo Czekster e as capas de seus livros
Gustavo Czekster e seus “Mundos Reais”

Partindo de histórias ambientadas em cenários inspirados em nossa realidade, vamos ver o que Bárbara Morais, escritora brasiliense de literatura fantástica distópica, tem a dizer sobre a criação do seu mundo. Na sua trilogia Anômalos (Editora Gutemberg) – constituída de A Ilha dos Dissidentes, A Ameaça Invisível e A Retomada da União – Morais cria uma megalópole povoada de heróis improváveis que sofreram mutações genéticas.  Num mundo desses, que parte da nossa realidade e se propõe a contar um futuro possível, o detalhamento do cenário é parte fundamental da trama, muitas vezes definindo os próprios conflitos da narrativa. Eis como ela vê esse processo:

“Gosto muito de metáforas biológicas para histórias. O cenário é o esqueleto, é o que sustenta a narrativa – não importa o tipo de animal que é sua história, não importa se ela precisa de exoesqueleto, se é uma criatura unicelular cujo o único semblante de esqueleto são as paredes celulares ou se é um dinossauro gigantesco com um esqueleto que sobrevive a milênios. Sem ele, não haveria vida. Você teria enredo e personagens, teria seus órgãos vitais e seus sistemas, mas eles estariam soltos sem uma espinha dorsal. O cenário são as regras sociais e morais, o sistema político e econômico, o modo de pensar dos seus personagens, é a geografia, o idioma, os papéis de gênero.“

Imagem da autora Bárbara Moraes
Bárbara Morais e seus Cenários Distópicos

Há autores, por outro lado, que preferem mergulhar na construção do mundo em seus mínimos detalhes, mesmo que isso leve muito tempo. No caso da alta fantasia, a série de Affonso Solano, O Espadachim de Carvão (LeYa), é um bom exemplo de um mundo imaginário criado do zero com uma série de elementos que dialogam com eixos culturais presentes também em nosso mundo: história, geografia, religião, arte e cultura. Adapak, o herói da série – que já recebeu dois livros, O Espadachim de Carvão e As Pontes de Puzur, além de um quadrinho e outras ações transmídia – é um jovem aventureiro que parte numa busca por identidade e salvação, levando os leitores a também conhecerem pouco a pouco o mundo de Kurgala.

Solano levou mais de dez anos trabalhando apenas no mundo da série, antes mesmo do primeiro livro ser publicado. Segundo ele, esse fascínio com a criação de mundos nasceu ainda na infância: “Eu sempre fui aficionado por universos, às vezes até mais do que pelas histórias ambientadas neles. Com Dungeons & Dragons, por exemplo, enquanto meus irmãos jogavam e se divertiam com as aventuras, eu adorava ler e memorizar os monstros, os cenários, os guias para aquele mundo. Daí eu ficava desenhando os cenários e tentando entender como aquelas pessoas que habitavam aquele mundo viviam, como elas se relacionavam. Mais tarde, na adolescência, esse meu interesse acabou se relacionando com disciplinas como biologia, história e geografia, que também era uma forma de organizar mundos, porém o nosso mundo.”

imagem d autor affonso solano
Affonso Solano e o Mundo Fantástico de Kurgala

Sobre a criação de Kurgala, que começou como uma HQ para o portal Omelete, Solano explica: “Quando eu fui transformar aquele quadrinho em livro, primeiro estudei as pessoas que criaram mundos literários com maestria, como Edgar Rice Burroughs e Robert E. Howard, autores que eu gostava muito. Esse último é um grande exemplo de precisão narrativa, sendo capaz de te dar a visão de um mundo inteiro em apenas uma ou duas páginas. A esse estudo, somou-se o interesse da minha família por religião, o que me auxiliou a buscar unidades comuns em diferentes culturais, tanto em crenças quanto em medos, o que resultou na estrutura religiosa de Kurgala. Ou seja, nessa primeira fase, foi menos escrita e mais pesquisa. Somente depois é que veio a aplicação: além de desenhar a geografia do planeta, com cada casa de cada deus se tornando um continente, fui percebendo como esses diferentes espaços geográficos e culturais passaram a determinar as linhas morais de seus habitantes.”

Somente depois desse trabalho de criação do mundo e da definição dos seus habitantes, é que veio a “decisão de qual história contar e com quais personagens, o que resultou no primeiro volume de O Espadachim de Carvão.” O que é interessante no caso de Solano é que ele parece ter bem em mente quais histórias contar desse universo, sobretudo a partir de outro assunto comumente relacionado à discussão espacial em literatura, que é aquela relacionada a linhas temporais e cronologias, algo que discutiremos em detalhes na coluna do próximo mês.

Depois de vermos como esse trabalho de criação de mundos funciona em suas três vertentes mais comuns, que tal nos exercitar um pouco? Prontos para pegar o papel e a caneta?

EXERCÍCIO CRIATIVO 11:

ESCOLHA UMA DAS TRÊS VERTENTES DISCUTIDAS ACIMA – CENÁRIO REAL, CENÁRIO ALTERNATIVO OU CENÁRIO TOTALMENTE FICTÍCIO – E DETALHE EM UM PARÁGRAFO O UNIVERSO DA SUA HISTÓRIA. A IDEIA DESSE EXERCÍCIO É FAZER ALGO BEM AMPLO, COMO SE FOSSE UMA INTRODUÇÃO AO MUNDO DA HISTÓRIA.

Depois desse exercício, você pode ir mais longe e começar o detalhamento do seu cenário como achar melhor: crie um mural, inicie um caderno, organize em pastas – digitais ou físicas – ou qualquer outra ideia maluca que você tenha e que o/a divirta. Isso definido, comece a trabalhar nos mapas, diagramas, linhas do tempo, fichas, ilustrações, talvez criando post its para raças, cronologias, sistemas políticas e religiosos, economia e arte, e o que mais vier à sua cabeça. E por mais que esse sistema de criação seja comumente relacionado a mundos imaginários criados a partir do zero, o mesmo tipo de detalhamento vale para uma história que se passa na França no século XIX ou em São Paulo na década de 80 ou mesmo em sua própria cidade hoje. Ter esse detalhamento ajudará você a conhecer onde se passa sua história e como seus personagens vivem nesse mundo. E falando em personagens…

Conciliando o Mundo e seus Habitantes

No capítulo dedicado a Worldbuinding do seu Wonderbook, Jeff VanderMeer chama a atenção para a oposição entre “Worldview” e “Storyview”. Em tradução simples, seria o contraste entre aquilo que nosso cenário comunica e as necessidades da história que pretendemos contar nele. Por exemplo: o cenário vai acabar definindo – ou auxiliando a definir – o modo narrativo escolhido por você e este, por sua vez, afetará diretamente os seus personagens.

Por exemplo, uma história que se passa em Nova York na década de 1930, ou na mesma cidade no século XXVII ou então numa terra imaginária em que Nova York é o nome de uma Ilha em Saturno, certamente vai indicar possibilidades para a sua história que vão desde o drama existencial até a intriga palaciana, podendo até chegar numa discussão sobre manipulação genética. Para ilustrar isso, vamos pegar essas três artes do ilustrador e escritor Fábio Brust. Imagine que seu personagem seja jogado em cada um desses cenários: Cidade Retrofuturista, Cemitério Assombrado ou Mundo Medieval Fantástico. Como seu herói ou heroína serão afetados por esses mundos e suas regras internas?

Ilustrações sobre a obra de Fabio Brust
Fabio Brust e seus diferentes Mundos Fantásticos

A partir dessa resposta, podemos investigar outras questões decorrentes do impacto que o cenário terá sobre nosso personagem e seus conflitos:

  • Nosso personagem conhece o mundo em detalhes, e quando ele dialoga ou interage com o mundo e seus habitantes, isso fica claro.
  • Nosso herói ou heroína é um(a) explorador(a) que pouco sabe deste mundo, e suas descobertas são também as descobertas dos leitores.
  • Nosso personagem sente-se realizado e completo nesse cenário, ou ele sente-se sufocado e oprimido?
  • Nosso personagem deseja alterar esse mundo, revolucioná-lo ou destruí-lo? Indiferente da sua resposta, como você acha que ele ou ela fará isso?
  • De que modo o mundo que criamos e suas espécies, sua geografia e seus costumes, afetam diretamente o modo como nosso personagem fala, se veste ou pensa?

Para nos ajudar a perceber as possibilidades de todas essas questões sobre mundos e cenários no que concerne às nossas histórias e heróis, vamos ao próximo exercício de escrita.

EXERCÍCIO CRIATIVO 12:

AGORA QUE VOCÊ CRIOU O SEU MUNDO, PRODUZA UM PARÁGRAFO EXPLICANDO AO SEU LEITOR COMO O SEU PROTAGONISTA INTERAGE COM ESSE MUNDO E COMO SUA HISTÓRIA IRÁ ALTERAR ESSE CENÁRIO OU SER ALTERADA ELE.

Prontos para a reta final da nossa discussão sobre criação de mundos fantásticos? Então, sigamos para alguns conselhos finais e também para a apresentação do nosso protagonista bestial deste mês: o atraente lupino Frederico!  

Porque nem só de Florestas e Vítimas vive um Lobisomem!

Para encerrar nossa discussão deste mês, dois adendos importantes a vocês que estão começando a trabalhar em suas histórias. Em primeiro lugar, por mais que a criação de mundos seja um exercício criativo delicioso, saiba a hora de parar. A tendência lógica é primeiro criar o mundo, o cenário, a paisagem para depois se escrever a história. Eu acredito que as duas coisas devam acontecer ao mesmo tempo. Escrever sua história o ajudará a detalhar seu mundo e detalhar seu mundo lhe auxiliará a contar sua história. O perigo de se tratar dessas duas atividades uma depois da outra é perder o ímpeto inicial que o motivou a pensar em sua história, que pode se dispersar nos meandros da criação de mundo.

Além disso, caso sua história se passe na segunda guerra mundial, não tenha a ilusão de que você conseguirá ler todos os livros sobre o assunto antes de começar a escrevê-la. Se for um mundo imaginário, também desista de criar cada espécie, mapa, tratado político ou detalhe da arte e da religião do seu universo antes de começar a colocar no papel sua trama. A meu ver, criação de mundo e escrita devem ocorrer de forma concomitante, com as duas atividades fertilizando uma a outra.

Em segundo lugar, uma dica quanto à originalidade. Uma reclamação constante de editores e editoras quanto ao recebimento de originais é a pouca inventividade de alguns autores quanto aos cenários e às histórias, que não raro acompanham tendências literárias ou séries de sucesso. Hogwarts, Crepúsculo, Jogos Vorazes e Crônicas de Gelo e Fogo já foram inventados e por mais fascinantes que tais mundos possam ser, editores reconhecem padrões pouco inovadores e o mesmo serve para leitores. Assim, forçar a barra para definir qual é o diferencial da sua história e do seu cenário é fundamental ainda no início da escrita.

Quanto à criatividade e à originalidade na criação de mundos, Czekster adverte: “Um problema recorrente na criação de mundos ficcionais são as pessoas que mimetizam mundos já existentes ao invés de imaginar o seu como algo diferente daquele que outrora foi criado. Por exemplo, as dezenas de livros que se inspiram no mundo ficcional de Tolkien ou de George R. R. Martin para criar pastiches malfeitos nas suas obras.”

Talvez algo que ajude a ilustrar um caminho possível para a história que estamos criando é desalojar nossos heróis e heroínas de situações e lugares tidos como comuns. Lobisomens, por exemplo, são comumente tidos como “monstros”, que vivem no “meio do mato” e que vivem angustiados pela maldição que os transforma em cada lua cheia. A partir disso, por que não um lobisomem heroico e bem resolvido que depois da destruição da lua – por um asteroide! – ficou permanentemente condicionado à forma lupina?

Desenho de um lobrisomen no bar, arte de Jessica Lang para a coluna Bestiário Criativo
Nosso Investigador Lupino numa Balada Psicodélica no traço de Jéssica Lang

Frederico, nosso herói ou vilão – deixo com vocês – além de não ter tradicionais pendores morais quanto à sua natureza ou suas ações, não é exatamente o que podemos entender como um “amante da natureza”. Ao contrário: ele adora festas e não há muitas delas no meio da floresta. Em suas noites de balada, ele adora socorrer “mocinhas” ou “mocinhos” – por que não? – em perigo, enquanto toma um drink ou outro. Ah… e diferente dos que estão ao seu redor, ele não precisa usar máscaras!

Enéias Tavares, o autor desta coluna, é o criador de Brasiliana Steampunk (Editora LeYa) e coautor de Guanabara Real (Editora Avec), duas séries ambientadas em um Brasil retrofuturista. É um dos coordenadores do projeto Bestiário Criativo na UFSM, onde ensina Literatura Clássica. Nas poucas horas vagas, escreve, caminha e pesquisa a História da Literatura Fantástica no Brasil, junto de Bruno Matangrano, para o projeto Fantástico Brasileiro. A artista responsável pelo lobisomem deste mês e por outras criaturas deste bestiário é Jéssica Lang, designer, ilustradora e uma das criadoras da webcomic Metalmancer, ao lado de Andrio Santos. Enéias está pensando seriamente em recorrer aos serviços investigativos de Frederico, apesar de temer seu gosto peculiar por vodka e outras bebidas pouco usuais.

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