David Bowie nunca se permitiu ser rotulado. Nunca gostou de permanecer em um mesmo lugar comum por muito tempo. A alcunha de camaleão do rock servia, mesmo que superficialmente, para exemplificar isso. Até mesmo limitar seu estilo apenas ao rock é não reconhecer sua contribuição para todas as ramificações da música.

Ator de inigualável qualidade nas horas vagas, David Bowie emprestou sua diversidade para o cinema. Não foi apenas um cantor que brincou de atuar. Cada personagem era uma extensão da maneira como ele enxergava as coisas e que nunca fez questão de nos explicar. Não era preciso. Letras, diálogos e atitudes eram sempre renovados. E como um homem do espaço, ele roubava a cena sempre que aparecia. Pena que não foram tantas assim.

Bowie nunca escondeu seu fascínio pelo mar de estrelas que passeia sobre nossas cabeças. E como os discos voadores que despertam as partes mais profundas do nosso subconsciente, seus álbuns despertaram sensações distintas e até mesmo inéditas em quem os ouvia. Blackstar não fugiu dessa regra. O último grande disco de David, lançado dias antes de seu retorno ao espaço, é a união de tudo que ele viu e viveu em todos esses anos. Diante de toda a perfeição das faixas, existia algo a mais. E agora sabemos o que era.

David Bowie queria nos passar uma mensagem. O disco foi produzido durante os 18 meses em que ele lutou para continuar nesse mundo. Sua família e amigos sabiam de sua condição e estiveram ao seu lado até o último instante. E nós? Vivíamos cada dia sem saber que tudo isso estava acontecendo. Mas Bowie estava disposto a contar e cantar para quem o admirava. Agora sei que Blackstar é a síntese disso.

De todas as faixas, Lazarus chamou logo a atenção. Era Bowie dando sua visão sobre vida e morte. Dirigido por Johan Renck (Breaking Bad, The Walking Dead), o vídeo é estrelado pelo novo e último personagem de David, o Button Eyes (olhos de botão). Criatividade surgindo da cabeça de quem sempre a usou da melhor forma possível.

Enquanto escrevo esse texto, Blackstar embala essas palavras. É estranho ouvir essas músicas agora que ele não está mais aqui. Mas deve ser uma das sensações que ele buscava despertar em cada um de nós. Pena que não me preparei melhor para esse momento.

“Você sabe, eu serei livre. Assim como aquele pássaro azul. Isso não é a minha cara?” diz ele em um trecho de Lazarus. Ser genial, livre, criativo e todos os elogios que me fogem agora. Isso era bem a sua cara David Bowie. Sua nave o levou de volta ao espaço. E quer saber, ele parece bem mais completo agora.