Edipo Pereira

7 maio, 2022

Séries

Após seis episódios de altos e baixos, tivemos o desfecho da primeira temporada de Cavaleiro da Lua no Disney+. Como comentei anteriormente, este era o primeiro grande desafio da Marvel Studios dentro do serviço de streaming, visto que a série estrelada por Oscar Isaac foi a primeira a apresentar um personagem do zero no MCU, diferente das anteriores que sempre tiveram o lastro no cinema.

Essencialmente, isso não significa nada, uma vez que uma novidade bem apresentada pode ter muito mais empatia com o público do que algo consagrado sem muito carisma (como foi o caso da série Gavião Arqueiro). Sendo assim, tudo é questão de qualidade e um fan service bem dosado. Então vamos para a crítica (com alguns spoilers).

A história de Cavaleiro da Lua acompanha Steven Grant (Oscar Isaac), um homem gentil, educado e aparentemente normal, que descobre ter uma dupla identidade, dividindo sua personalidade com a do mercenário Marc Spector. Ao mesmo tempo, Steven se descobre no meio de uma busca por parte de um ambicioso homem que busca despertar uma poderosíssima divindade egípcia.

Os méritos de Cavaleiro da Lua

Essa produção da Marvel Studios se sustenta em alguns pilares, como a mescla de gêneros, representatividade e a força do seu elenco.

Bem mais sutil que o recém-lançado Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, temos aqui o uso de elementos do terror para embalar a produção juntamente com toda a ação e aventura que o público dos super-heróis demanda. Além de criaturas da noite, múmias e violação de cadáver, a dinâmica entre as personalidades do protagonista (junto com os pitacos do deus Khonshu, que sempre os acompanha) oferece uma dinâmica de terror psicológico que carrega bem a série na maior parte do tempo. Não sei dizer, no entanto, se do ponto de vista clínico tudo aquilo possui boa dose de plausibilidade, mas eu me convenci.

O próprio diretor de Cavaleiro da Lua, Mohammed Diab, deixou claro em entrevistas sua intenção de dar maior representatividade ao Egito na produção para o Disney+ (incluindo nesse balaio algumas críticas a Adão Negro pela falta de representatividade) e a forma como ele faz isso não soa forçada, explorando bem atores, artefatos e localizações condizentes com a trama.

Soma-se a esse terror e essa representatividade a ação aventuresca à la "Indiana Jones" e a conta fecha. Temos um novo herói da Marvel em live-action.

A força do elenco reside quase toda em Oscar Isaac. Por mais que os recursos cênicos para diferenciar uma personalidade da outra sejam um tanto manjados (o sotaque e a postura de Steven Grant diferem em muito de Marc Spector), é preciso ter café no bule para colocar tudo isso em prática de um modo que convença e ofereça carisma. Há um episódio, inclusive, que apenas a interação Steven/Marc bastam para reter toda a atenção do espectador de um modo fantástico.

Khonshu, heroína indiana e Ammit

Ainda no elenco, vale destacar  que agora a Marvel Studios também conta com um heroína egípcia: a Escaravelho Escarlate, vivida por May Calamawy, que interpreta Layla - par romântico de Marc Spector (e Steven Grant). A situação inusitada de lidar com dois interesses amorosos no mesmo corpo rende momentos interessantes (e cômicos). Sua condição como super-heroína ainda não é certa devido à falta de informações sobre a continuação da série, mas trata-se de uma personagem criada exclusivamente para o programa e que conta com grande potencial.

Também me agradou bastante a retratação de Khonshu, o deus da vingança, e que conta com a imponente voz original (junto com alguns enfeites da edição) do ator F. Muray Abraham. O personagem possui uma participação singular, uma vez que brinca muito com as aparências por necessitar de um avatar humano para pôr suas ambições em prática, e a revelação de Jake Lockley como mais uma das personalidades de Marc Spector, dessa vez totalmente a seu serviço, indica que suas tramoias vão além do que imaginamos.

Ethan Hawke, por sua vez, parece bastante à vontade como o vilão Harrow, um devoto da deusa Ammit que busca punir as almas que não serão boas no futuro, numa espécie de Minority Report divino. Hawke também protagoniza um inusitado cosplay de Stan Lee nos últimos episódios da série.

Cavaleiro da Lua escaravelho escarlate layla

Os problemas de Cavaleiro da Lua

Infelizmente, Cavaleiro da Lua acaba sofrendo pelo ritmo narrativo mal adequado a uma série. A proposta da Marvel Studios de trazer conteúdo com a qualidade dos filmes para o streaming ainda não encontrou um equilíbrio satisfatório, sendo um programa difícil para se acompanhar semanalmente. Talvez o ideal fosse injetar um pouco mais de dinheiro no orçamento e ter lançado o projeto direto para o cinema.

Conclusão

Me surpreendeu um pouco a notícia de que talvez não tenhamos uma segunda temporada. Afinal, por que deixar a trama tão aberta, com direito a cena pós-créditos, se você não pretende explorar mais esses personagens e esse universo? Uma resposta seria a participação do herói em outras produções, mas dado o contexto de múltiplas personalidades, considero um tanto complicado colocar Marc Spector/Steven Grant/Jake Lockley em outra produção - indo além de um alívio cômico.

De todo modo, Cavaleiro da Lua é um ótimo começo não apenas de um novo herói ao MCU, mas também de toda uma mitologia.

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