Adaptar um fenômeno nascido na internet para os cinemas nunca é uma tarefa simples. Em Backrooms: Um Não-Lugar, o diretor Kane Parsons assume esse desafio e entrega uma produção que vai além da simples reprodução de uma creepypasta popular. Distribuído pela A24, o longa transforma o conceito viral dos “Backrooms” em uma experiência cinematográfica marcada pela atmosfera, pela inquietação constante e por reflexões sobre memória, fracasso e isolamento. Leia a crítica do filme de terror.
A trama acompanha Clark, interpretado por Chiwetel Ejiofor, um arquiteto que viu sua carreira desmoronar e agora sobrevive administrando uma loja de móveis em dificuldades na Califórnia dos anos 1990. Separado da esposa e incapaz de encontrar propósito na própria rotina, ele passa seus dias entre sessões de terapia com Mary (Renate Reinsve) e os corredores vazios de seu estabelecimento. Tudo muda quando descobre uma passagem escondida que leva a um espaço impossível composto por salas, corredores e ambientes que parecem existir à margem da realidade.
A partir dessa premissa, o roteiro de Will Soodik evita seguir o caminho mais previsível do terror contemporâneo. Em vez de depender exclusivamente de sustos repentinos, o filme investe na sensação de desconforto causada pela própria existência dos Backrooms. Cada novo ambiente visitado por Clark transmite a impressão de algo familiar, mas ao mesmo tempo incorreto, como uma lembrança reconstruída de maneira imperfeita.
O maior trunfo da produção está justamente na construção desse universo. Kane Parsons demonstra compreender o potencial visual do material que o tornou conhecido no YouTube. Os cenários criados por Danny Vermette combinam espaços físicos e efeitos digitais de forma integrada, criando um labirinto que parece não possuir começo nem fim. A fotografia de Jeremy Cox reforça essa sensação através de corredores iluminados por luzes fluorescentes amareladas que transformam ambientes comuns em locais ameaçadores.

O trabalho sonoro merece destaque especial. O zumbido constante das lâmpadas, os ecos distantes e a trilha composta por Parsons e Edo Van Breemen ajudam a criar uma experiência imersiva. Muitas das cenas mais tensas funcionam justamente porque o filme entende que o silêncio e a expectativa podem ser mais eficientes do que qualquer aparição repentina de monstros.
As atuações também sustentam a proposta. Chiwetel Ejiofor constrói um protagonista marcado pela frustração e pelo ressentimento, enquanto Renate Reinsve oferece humanidade a uma personagem que funciona como contraponto emocional da narrativa. Ambos evitam exageros e tornam crível uma situação que poderia facilmente descambar para o absurdo.

Nem tudo funciona com a mesma eficiência. Em determinados momentos, Backrooms: Um Não-Lugar parece excessivamente preocupado em explicar sua própria mitologia. Parte do fascínio do conceito original está justamente no mistério, e algumas explicações reduzem o impacto de elementos que seriam mais eficazes permanecendo ambíguos.
Crítica do filme: vale à pena assistir Backrooms no cinema?
Ainda assim, o resultado final impressiona. Kane Parsons demonstra domínio visual, senso de atmosfera e capacidade de transformar um conceito abstrato em uma experiência cinematográfica envolvente. Mais do que uma adaptação de uma lenda da internet, Backrooms: Um Não-Lugar surge como a apresentação de um diretor que parece disposto a explorar novos caminhos para o terror nos próximos anos.
Ao final, o filme não entrega todas as respostas que o público procura. E talvez seja exatamente por isso que ele permanece na memória depois que as luzes da sala se acendem.