Inspirado no universo criado por Mary Shelley, o filme A Noiva! (2026) chega ao streaming da HBO Max depois de uma passagem comentada pelos cinemas. Dirigido e roteirizado por Maggie Gyllenhaal, o longa abandona qualquer tentativa de adaptação tradicional para apostar em uma mistura de terror, musical, romance criminal e fantasia metalinguística. O resultado é um filme que oscila entre a genialidade visual e o excesso narrativo. Confira a crítica do filme de terror.
Após a repercussão de A Filha Perdida, Gyllenhaal assume um projeto de escala maior e mergulha no imaginário de Frankenstein sem compromisso com linearidade. A trama acompanha o monstro vivido por Christian Bale, agora vivendo na Chicago dos anos 1930, tentando encontrar companhia após décadas de isolamento. Sua busca o leva até uma experiência científica que ressuscita Ida, personagem interpretada por Jessie Buckley, uma mulher assassinada pela máfia local e misteriosamente conectada ao espírito da própria Mary Shelley.
A partir dessa premissa, o filme mergulha em um universo onde fantasmas coexistem com personagens fictícios, números musicais surgem entre cenas violentas e referências ao cinema clássico aparecem o tempo todo. Gyllenhaal transforma a narrativa em uma colagem de influências que vai de A Noiva de Frankenstein até filmes de gângster dos anos 1930, passando por romances trágicos como Bonnie and Clyde.
O principal elemento que sustenta essa estrutura fragmentada é Jessie Buckley. A atriz assume diferentes versões da mesma personagem, alternando sotaques, comportamentos e estados emocionais em uma atuação que exige mudanças constantes de tom. Mesmo quando o roteiro parece perdido entre ideias conflitantes, Buckley mantém o interesse da narrativa. Christian Bale também entrega uma composição marcada pela solidão e pela melancolia, aproximando a criatura de Frankenstein de uma figura trágica e deslocada.

Ao mesmo tempo, A Noiva! frequentemente parece um filme em disputa consigo mesmo. Há momentos em que o terror gótico domina a tela, enquanto em outros a produção se transforma em um musical extravagante ou em uma sátira criminal. Algumas dessas mudanças funcionam justamente pelo absurdo da proposta, mas outras interrompem o fluxo dramático e enfraquecem a conexão emocional entre os personagens.
Visualmente, o longa encontra identidade própria. Maggie Gyllenhaal cria uma estética que mistura decadência urbana, glamour hollywoodiano e atmosfera expressionista. Os números musicais, embora deslocados em alguns momentos, ajudam a reforçar o caráter fantasioso da obra. Existe uma clara intenção de transformar o mito de Frankenstein em uma experiência pop contemporânea, aproximando horror clássico de discursos modernos sobre solidão, identidade e autonomia feminina.

Crítica do filme: vale à pena assistir A Noiva! na HBO Max?
O aspecto feminista da narrativa aparece de maneira explícita, principalmente na forma como a personagem de Buckley rejeita o papel passivo associado historicamente à “noiva” criada para satisfazer o monstro. O relacionamento entre as criaturas deixa de ser apenas uma extensão da obra original e passa a funcionar como uma discussão sobre liberdade e construção de identidade.
Mesmo excessivo e irregular, A Noiva! dificilmente passa despercebido. Maggie Gyllenhaal entrega um filme interessado em experimentar linguagens, desafiar convenções e revisitar um dos maiores ícones do terror sob uma perspectiva autoral. Nem todas as ideias encontram equilíbrio, mas o resultado possui personalidade suficiente para transformar o caos em parte da experiência.