Tudo bem não ser normal – 1ª Temporada (Netflix) | Crítica

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Dorama exclusivo da Netflix, “Tudo bem não ser normal” explora pessoas com transtornos mentais de modo delicado, o que faz essa série uma rica fonte de conteúdo para um tema mal discutido no Brasil – e tabu na Coréia

Em “Tudo bem não ser normal”, Moon Kang Tae (Kim Soo Hyun) é um cuidador de pessoas com transtornos mentais, e cuida do seu irmão mais velho, Moon Sang Tae (Oh Jung Se), que é autista. A vida deles gira em torno de Kang Tae trabalhar em hospitais e abandoná-los em menos de um ano, pois toda primavera precisam se mudar por causa das misteriosas borboletas que assombram seu irmão, que viu o assassinato da mãe de ambos e alega que foi morta pela borboleta. Em uma dessas andanças, eles conhecem a escritora de livros infantis Ko Moon Young (Seo Ye Ji), que decide que vai ter Moon Kang Tae e vai fazer de tudo para isso. O que acontece, a partir de então, é uma sucessão de eventos que eles nunca esperaram passar por.

A princípio, você precisa entender que, se no Brasil, transtornos mentais mal se é discutido, na Coreia do Sul é tabu, sendo um dos países com maior índice de suicídio do mundo. Dito isso, o tema central deste dorama exclusivo da Netflix é justamente transtornos mentais, a começar pela personagem Ko Moon Young, que é diagnosticada com transtorno de personalidade antissocial (pessoas com esse transtorno ignoram normas de comportamento e convívio social e tomam atitudes impulsivas e irresponsáveis. Muitas vezes também cometem atos ilegais. Esse diagnóstico só pode ser feito por meio clínico, então, por favor, não tentem se diagnosticar, é só para vocês saberem o que é), e isso faz com que ela seja no mínimo peculiar. Mas já já chegaremos aí.

A história entra em temas profundos e complexos de maneira muito orgânica e leve, misturando a vida dos personagens de forma que tudo fique muito natural. Moon Kang Tae claramente é uma pessoa infeliz e possui um passado conturbado, e leva o peso de cuidar do irmão mais velho, tratando-o muitas vezes como criança. No hospital psiquiátrico no qual passa a trabalhar, ele é gentil com todos os pacientes, e todos gostam dele sem saber que tipo de pessoa ele é, pois é muito fechado. Seu contato com Ko Moon Young é que o obriga a encarar a própria vida e admitir os problemas, a carga que ele carrega.

Por causa do seu transtorno, Moon Young não tem papas na língua, e nem mesmo controla muito dos seus impulsos, não se importando com o que vão pensar, até conhecer Moon Kang Tae. Inclusive, boa parte das cenas iniciais com os dois é muito engraçada, porque ela não tem medo de constranger o pobre rapaz em público, comportamento totalmente contrário do que costumamos ver em doramas, em que as mulheres, por mais fortes que sejam, são mais contidas.

E a série faz algo que achei incrível. Ela é recheada de bons personagens secundários, como os pacientes do hospital psiquiátrico e seus funcionários, a dona da casa em que os irmãos vão morar e sua filha, além do editor da Moon Young e sua assistente. Nenhum deles fica sem receber atenção, mostrando um pouco da complexidade de cada ser humano que rodeia o trio principal.

A trilha sonora de “Tudo bem não ser normal” cabe perfeitamente em cada cena, e são músicas que não me deixaram enjoada de tanto ouvir repetidamente. A fotografia é simplesmente incrível, com vários planos abertos, e variando entre as cores vivas dos ambientes externos, as cores escuras e o tom sóbrio da casa de infância de Moon Young e os tons pastéis do hospital psiquiátrico. Cada local é uma sensação diferente, uma estética completamente distinto um do outro.

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A história trata de forma delicada sobre transtornos mentais, a importância de se encarar os seus medos, seus problemas, de lutar por si, pois é algo que somente você pode fazer. “Tudo bem não ser normal” é, para mim, muito importante no trato de transtornos mentais, mostrando que não são aquela coisa impossível de ser tratada, que dá sim para se ter uma vida funcional, que há esperança, por pior que pareça. E o melhor: não é o amor que cura, e sim a troca de experiências, o apoio, o cuidado, se abrir com profissionais. Ele é bem responsável no trato da saúde mental.

A série exclusiva da Netflix tem 16 episódios, e como todo dorama, cada um tem a duração de 40 minutos a 1 hora, que você mal sente passar, tão imerso fica enquanto assiste. Então pegue seu lencinho, sente bem aconchegado e vá assistir.