Charles Luis Castro

29 jun, 2022

Séries

Roteiro irregular acaba sufocando as principais virtudes dos anos anteriores

"Muito mais madura, divertida e exótica, The Umbrella Academy finalmente rompe seu casulo e desponta como uma das adaptações mais interessantes de HQs do momento".

Foi assim que encerrei meu texto sobre a segunda temporada de The Umbrella Academy, levemente tomado por um pico de empolgação. E mantive esse pensamento por algum tempo. Pois bem, alguns anos e uma pandemia depois, é triste perceber que o novo ano da série conseguiu jogar todo esse desenvolvimento através de um buraco negro que suga a realidade. Outrora uma das atrações mais envolventes da Netflix, a produção se perde em seus próprios demônios na terceira temporada.

Após salvar o mundo, novamente, a disfuncional família Hargreeves voltou no tempo apenas para descobrir que Reginald Hargreeves (Colm Feore) havia adotado outras crianças em seus lugares. Dessa forma, a Umbrella Academy nunca existiu e em seu lugar temos a Sparrow Academy. Além disso, Ben (Justin H. Min) está vivo e faz parte da nova equipe. A presença dos protagonistas nessa realidade desperta não apenas a rivalidade entre as famílias, mas também uma nova ameaça ao universo. Sim, o conceito é exatamente o mesmo dos anos anteriores. Os protagonistas iniciam o fim de tudo e precisam resolver o problema em alguns dias. No entanto, todo o charme que cerca essa dinâmica não funciona aqui.

O trunfo da série nunca esteve em seus elementos de ficção científica e brincadeiras de super-heróis, mas na relação entre os protagonistas. Os Hargreeves são atormentados pelo passado, o que reflete no presente de cada um. Por muitas vezes a missão principal nem é salvar o mundo e sim conseguir conviver no mesmo ambiente sem começar uma guerra. De uma forma pouco convencional, eles demonstravam amor e compreensão. A terceira temporada falha justamente por se afastar desse aspecto. Se os personagens não funcionam, todas as irregularidades ao redor deles se tornam mais evidentes. Falta equilíbrio no roteiro entre aprofundar a personalidade dos membros da Umbrella Academy e conduzir a história ao mesmo tempo. Sabe uma produção que não peca nesse quesito? Patrulha do Destino.

Não digo que tudo deveria ser uma sessão de terapia de 10 horas com super-heróis, mas Steve Blackman e Jeremy Slater não conseguem reposicionar suas peças no tabuleiro. Em mais da metade da temporada, os membros da Umbrella e da Sparrow (muitos com funções narrativas irrelevantes) correm atrás do próprio rabo. Conte quantas vezes as trocas de ameaças e reuniões entre as famílias ocorrem. O carismático elenco principal parece completamente fora do tom, como se o roteiro entregasse novos personagens em suas mãos. Quando nem o charme de Klaus (Robert Sheehan) e Cinco (Aidan Gallagher) funciona, o sinal de alerta do apocalipse precisa ser acionado.

Claro que existe trigo no meio de tanto joio. Começando pelo assunto que certamente despertou curiosidade entre os fãs nos últimos meses. A transição de gênero de Elliot Page é tratada com extrema delicadeza e naturalidade, sendo uma questão particular ao personagem e não uma muleta para desenvolver algum tipo de drama fora do tom. O início da temporada dedica um tempo essencial para que o espectador comum compreenda essa mudança. As sequências no Hotel Oblivion são divertidas, misturando terror e ficção científica. O plano de salvação é bem mais elaborado do que nos anos anteriores, porém, sinto que poderia ter sido melhor abordado durante a temporada. A pressa para resolver tudo e preparar o terreno para outro cliffhanger faz a ideia parecer complexa, quando na verdade é apenas mal arquitetada pelo roteiro.

Por falar em gancho, The Umbrella Academy carrega a péssima mania de apostar tudo em uma situação nova para fisgar o público. Mas todo o caminho até esse momento precisa ser construído de maneira satisfatória. No atual cenário da cultura pop, onde diversos serviços e produções surgem diariamente, a briga por se manter relevante nunca foi tão brutal. Caso seja renovada, a série terá que abraçar seu lado mais estranho para entregar algum diferencial. Ou então vai virar aquele churrasco de família que você conta as horas para acabar.

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