Charles Luis Castro

27 set, 2021

Séries

Animação antológica explora os lugares mais improváveis da galáxia

Sempre achei que o melhor de Star Wars estava longe de seus personagens principais. Um pensamento audacioso, eu sei. E por mais que Luke, Leia, Han Solo e tantos outros estejam gravados no imaginário popular de várias gerações de fãs, me questiono o que poderia estar acontecendo nos lugares mais remotos da galáxia. Longe de toda confusão familiar do sobrenome Skywalker, que é capaz de estragar toda uma leva de filmes.  E sei também o quanto é difícil fugir das amarras do cânone da franquia, especialmente depois que saiu das mãos de seu criador. Fiz essa introdução para justificar minha empolgação com Star Wars: Visions, novo lançamento do Disney+. A animação antológica que, por alguns episódios, nos permite explorar mais desse vasto universo.

Óbvio que animações de Star Wars não são uma novidade, basta ver a recente The Bad Batch. O trunfo aqui está na liberdade de não precisar respeitar questões narrativas. O espectador não precisa decorar nomes de personagens e linhas temporais. A essência da obra máxima de George Lucas está presente, mas de uma forma orgânica. Assim como a Força está em todos os lugares, os conceitos da saga também estão aqui. Para fins de comparação, é o que a Marvel ainda não conseguiu fazer com seu What If...?

O intercâmbio cultural é um fator crucial em Star Wars: Visions. Se George Lucas se inspirou no clássico A Fortaleza Escondida de Akira Kurosawa para conceber Uma Nova Esperança, agora é a vez da saga ser revisitada pelos orientais. Para isso, sete grandes estúdios de animação japoneses foram escolhidos para lançar um novo olhar sobre as aventuras nessa galáxia distante. E poucas coisas conversam mais com a nova geração do que os animes. Os traços distintos e estilizados combinam com a ideia de episódios únicos dentro da temporada, ao mesmo tempo em que mesclam a tecnologia com a tradição da cultura japonesa.

Como não poderia deixar de ser, Star Wars: Visions está repleta de referências. Por exemplo, o estilo preto e branco de O Duelo homenageia novamente o mestre Kurosawa. Já TO-B1 é uma versão singela e Jedi do Astro Boy, clássico de Osamu Tezuka. Mas nem só de homenagens vivem os episódios, já que é possível identificar animações mais atuais, presentes em animes de sucesso. Existe uma sensibilidade temática em cada seguimento que vai além de seu estilo gráfico. Os diretores e roteiristas exploram noções tidas como sagradas para fãs antiquados da saga, como os Jedi e os Sith. E como a Força pode ser sentida e explorada até pelo ser mais simples da galáxia, sem que ele precise de um sobrenome famoso para isso.

De fato, Star Wars: Visions pode não agradar os fãs mais tradicionais. Pelo menos aqueles que não se permitirem embarcar na ideia. Mas é inegável o apelo que a série animada tem com a nova geração de pessoas que começou a conhecer esse mundo agora e até mesmo com quem cresceu com a trilogia clássica. Separados, os episódios não são perfeitos. Mas no contexto geral, estamos diante de algo especial.

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