Márcio Bastos

23 out, 2021

Séries

Adaptação de obra de Ingmar Bergman para HBO coloca nas mãos de Oscar Isaac e Jessica Chastain uma faca para despedaçar nossos corações em mil pedaços

Independente dos motivos, o fim de um relacionamento sempre traz marcas muito duras para a vida de duas pessoas. No cinema e na TV, inúmeras obras já exploraram o tema, mas são poucas as que conseguiram se aproximar de forma verossímil desse recorte tão sufocante da história de um casal (ex, no caso). Candidata na disputa por um espaço na mesma prateleira, temos agora a postulante minissérie Scenes from a Marriage, da HBO.

Criada pelo israelense Hagai Levi (In Treatment; The Affair), a nova produção é adaptada da também minissérie homônima, de 1973, do diretor sueco Ingmar Bergman. Em comum, as duas obras carregam a mesma visão pessimista sobre a capacidade do ser humano de encontrar a felicidade. A crucial diferença é que, enquanto o trabalho de Bergman opta por revelar a deterioração de um relacionamento ocultando muita coisa para além do texto (no não dito), Levi deixa, em grande parte do tempo, as sutilezas de lado para nos metralhar com um arsenal incessante de diálogos.

Scenes from a Marriage começa com o casal de protagonistas, interpretados por Oscar Isaac (Star Wars: A Ascensão Skywalker; Duna) e Jessica Chastain (Interestelar; It – Capítulo 2), dando entrevista para uma estudante de psicologia que realiza uma pesquisa sobre a rotina de um casamento harmonioso – perceba a ironia no texto. O momento serve para apresentar os personagens Jonathan (Isaac) e Mira (Chastain), sublinhando-o como um indivíduo egocêntrico, enquanto ela se mostra alguém mais retraída e visivelmente desconfortável com a situação.

O desenrolar dos acontecimentos nos leva à revelação de que o desconforto de Mira está diretamente ligado ao seu esgotamento como esposa. Para ela, o casamento acabou faz algum tempo. Decidida a virar a página, a personagem revela a Jonathan que o está traindo com outra pessoa. Vale mencionar que na obra de 1973 quem comete adultério é o marido. A atualização subverte os papéis, colocando a mulher como “responsável” pelo rompimento. Mira é ainda retratada como uma mulher independente, mais bem-sucedida financeiramente, o que acrescenta alguns elementos interessantes à dinâmica da nova produção.

Bom, a partir daí, recomendo estar preparado. A experiência proposta na minissérie é de nos deixar verdadeiramente incomodados com as inúmeras farpas que são destiladas por duas pessoas intimamente ligadas que se perderam no caminho. Entre quatro paredes, em cinco momentos distintos – divididos em cinco episódios –, assistimos ofensas duras de vivenciar, mesmo que sejamos apenas espectadores.

Sim, temos também momentos que revelam o imenso amor do casal um pelo outro. Talvez por isso seja tão duro encarar toda a jornada. O amor está ali em algum lugar, mas embalado junto com enormes feridas que nunca vão cicatrizar. Como bem diz Jonathan em determinada cena, “é como uma fita adesiva que você arranca e tenta colar de volta. Pode grudar, mas nunca vai ser como na primeira vez”.

Um parêntese pode ser aberto para destacar as excepcionais performances de Isaac e Chastain. Amigos muito próximos longe das câmeras, os astros entregam uma química absurda, simplesmente desaparecendo em cena para dar vez aos quebrados Jonathan e Mira. Sem dúvida, um dos principais motivos de embarcar na inquietante jornada.

Existe ainda outro personagem que se impõe com muita força na adaptação: a casa (ou o que ela representa). Não à toa palco de todos os episódios, o roteiro nos conduz a reflexões sobre seu simbolismo na vida de um casal. Naquele espaço, onde um dia Jonathan e Mira dividiram sonhos e foram muito felizes, uma forte ideia de lar (ou pertencimento, como queira) foi construída. O medo de olhar para trás e ver que estamos perdendo de vista esse lugar é algo que provoca um sentimento bem real.

E tome DR entre essas paredes. Acompanhados de inúmeros planos-sequência – em consonância com a ideia de “invasão de privacidade” proposta pelo programa –, os diálogos para muitos soarão exaustivos. O que escancara que sim, essa não é uma experiência para todos. Assim como os protagonistas, seremos testados até o limite em nossa capacidade de encarar situações extremamente desconfortáveis.

Caberá também ao espectador pousar astutos olhos de águia sobre o verdadeiro desejo de cada um no desencadear dos acontecimentos. Com Jonathan na posição do traído – e aqui não quero tirar deste toda a dor sofrida em seu luto para tentar superar separação –, enxerguei por diversas vezes dissimulação no discurso. Mira também oferece, em meio aos conflitos entre ambos, espaço para questionamentos sobre o que a faz ainda tão apegada ao seu companheiro com quem teve uma filha e dividiu uma vida por tanto tempo.

Sem ambição de nos dar respostas (será que elas existem?) ou algum tipo de lição de moral, a minissérie da HBO entrega, em cinco generosas doses, uma experiência difícil de encarar, que, a seu modo, é bela e, indissociavelmente, triste. Uma provocativa ode ao lado cinza das interações humanas.

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