O especial de curta-duração “O Justiceiro: Uma Última Morte” (The Punisher: One Last Kill), já disponível no Disney+, marca um ponto interessante de Jon Bernthal no universo Marvel. Com menos de 50 minutos, o especial dirigido por Reinaldo Marcus Green (King Richard) é uma injeção concentrada de violência, angústia e tiroteios; exatamente o que os fãs do personagem esperam, mas talvez não o que eles precisavam para ver Frank Castle evoluir.
A trama se passa após os eventos de “Demolidor: Renascido“, mas a conexão é propositalmente vaga. Frank Castle está isolado em um apartamento sujo, cercado por recortes de jornais e consumido por alucinações de sua família morta e de companheiros de guerra, numa atmosfera inicial sufocante, mostrando que Frank está à beira do colapso mental.
Quando uma nova onda de violência toma conta das ruas de Nova York, com membros de gangues massacrando inocentes, incendiando viaturas e até matando um filhote de cachorro (um aceno claro a “John Wick”) — Frank encontra o estopim que precisava para vestir novamente o colete com a caveira.
O grande acerto do especial é sua economia narrativa. Diferente das longas temporadas da Netflix, onde o personagem passava episódios inteiros escondido em apartamentos ou bases secretas, aqui o ritmo é frenético. Os primeiros minutos são de introspecção dolorosa e, depois, o resto é uma cascata de violência ininterrupta. O especial se inspira em ótimos filmes de ação como “Operação Invasão” (The Raid) e na franquia “John Wick”. Frank se move por um complexo de apartamentos, troca de armas a cada esquina, saqueia os corpos dos inimigos caídos e avança implacável.

A antagonista é Ma Gnucci (Judith Light), a matriarca de uma família criminosa em decadência, confinada a uma cadeira de rodas. Em um flashback, vemos que Frank matou sua família, e ela agora busca vingança. Apesar do talento de Light, sua personagem é subutilizada; aparece em duas cenas, é ameaçadora, mas desaparece antes do clímax. O foco permanece inteiramente em Frank (o que não é ruim), e os coadjuvantes (incluindo o retorno de Jason R. Moore como Curtis Hoyle) existem apenas para ecoar os dilemas internos do protagonista.
O especial é, para todos os efeitos, um show de um homem só. Bernthal carrega o projeto nas costas com uma boa atuação, mas ele já vem fazendo isso com o personagem há uma década. Ele alterna entre a vulnerabilidade de um veterano com TEPT e a ferocidade de uma máquina de matar. A cena em que ele desaba no cemitério da família, é um ótimo momento do especial. É um lembrete de que, por trás da caveira do peito e a aura mística de ser um exército numa pessoa, há um homem dilacerado pela culpa.
No entanto, é fácil dizer que Jon Bernthal continua interpretando o mesmo Frank Castle de 2016, como já comentado acima. O personagem está há anos oscilando entre o desejo de se aposentar e a inevitabilidade de sua natureza violenta. O especial não avança sua jornada; apenas reafirma o que já sabemos. Para os fãs que amam essa versão, é um prato cheio. Para quem esperava uma evolução ou um novo ângulo, pode haver decepção.

O Justiceiro: Uma Última Morte tem um bom formato em sangue, suor e lágrimas, mas pouca novidade
É louco pensar que “O Justiceiro: Uma Última Morte” está no mesmo universo dos filmes do MCU – lembrando que o personagem também terá destaque no próximo filme do Homem-Aranha. Digo isso pelo fato do personagem, altamente violento, trucidar cerca de 50 pessoas em alguns minutos. A ação no especial é coreografada com precisão, a atuação do protagonista é boa e o formato curto impede que o ritmo caia. No entanto, é também um filme que recusa a evolução.
Se você ama ver o Justiceiro esmagando crânios e atirando em bandidos enquanto berra de dor, este especial é imperdível. Se você esperava uma reinvenção ou um desfecho definitivo para o personagem, prepare-se para sair com a mesma sensação de déjà vu.
Ao menos, a última imagem, Frank observando, a caveira estampada no peito, é um lembrete de que, no MCU, alguns heróis não buscam redenção. Eles buscam catarse. E nisso, “Uma Última Morte” acerta em cheio.