Charles Luis Castro

27 set, 2021

Séries

Mais do que uma série de terror, esse é um estudo sobre religião, culpa, fé, amor e a natureza humana

Como um católico praticante, sempre me questionei o verdadeiro significado de ter fé. Qual o real sentido por trás dessa esperança de que, por mais que não pareça, as coisas irão se acertar no final? Um sentimento que nos faz levantar da cama mesmo quando tudo parece implorar para que não o façamos. Por isso, sempre me envolvi com obras que levantam o mesmo questionamento. Mike Flanagan foi responsável por criar algumas das que mais gosto, mesmo quando a fé não era o tema central. Mas, em Missa da Meia-Noite, novo lançamento de sua parceria com a Netflix, ele entrega um estudo profundo e angustiante sobre religião, perdão, culpa, amor e o que fazemos em nome da fé.

Para não entrar em spoilers, basta saber que a trama acompanha Riley Flynn (Zach Gilford), que retorna para a pequena ilha de Crockett após cumprir pena de quatro anos por matar uma pessoa enquanto dirigia alcoolizado. Sem perspectiva de futuro e carregando uma enorme culpa, ele agora precisa encarar rostos que não esperava ver nunca mais. Sua chegada coincide com a do padre Paul (Hamish Linklater), que substitui o octogenário monsenhor da comunidade. Tais eventos, até então isolados, trarão grande transformação para a ilha. Missa da Meia-Noite é uma evolução natural do que Flanagan apresentou em A Maldição da Residência Hill e A Maldição da Mansão Bly. Os questionamentos são semelhantes, mas por ser uma obra original, ele mergulha mais fundo em suas reflexões sobre a real natureza do ser humano.

Como esperado de uma produção que debate a religião, o texto é carregado de simbolismos. O retorno de Riley , por exemplo, é a versão moderna da parábola do Filho Pródigo. É interessante notar como o roteiro lida com o sobrenatural e os escritos sagrados. Existe um terror velado nas páginas da Bíblia que poderia virar tema de debate nas mãos de um criador capacitado. É justamente isso que ocorre aqui. O mal que permeia a ilha de Crockett é visto como uma benção pelos religiosos locais e vendido como salvação para os fiéis desavisados, que anseiam por algum tipo de conforto diante de dias ruins. Seria isso a deturpação da fé? Ou apenas mais uma de suas versões? Nesse meio tempo, os personagens debatem sobre vida, morte, passado, legado, ambição, raiva, medo.

Mas Missa da Meia-Noite ainda é uma história de terror e precisa entregar algo que reflita essa nomenclatura. No entanto, aviso que Flanagan adora trabalhar o medo de forma subjetiva. Quem busca momentos de arrepiar ou fantasmas escondidos nas cenas certamente irá se decepcionar. Particularmente, acho a revelação do elemento sobrenatural um tanto frustrante. Ainda assim, a maneira como ele é trabalhado condiz com as intenções do autor para a sua história. O fervor por trás dos milagres, assim como as atitudes de alguns personagens, são mais enervantes do que os momentos puros de horror. Essa é também uma das obras mais sangrentas do diretor e roteirista.

Para desenvolver seus temas, Missa da Meia-Noite investe em diálogos teatrais entre seus personagens. Mais do que a questão sobrenatural, essa pode ser a verdadeira polêmica da minissérie. Por não adaptar nenhuma obra, Flanagan está livre de amarras e despeja todos os seus questionamentos sobre a vida e o universo na tela. E sim, por algumas vezes o texto é prolixo e até autoindulgente. Se levarmos em conta a quantidade limitada de episódios, os diálogos e monólogos parecem roubar muito do tempo que poderia ser utilizado para trabalhar outros pontos da história. Mas cada discurso mais contido ou inflamado carrega um enorme significado, seja ele simplório ou extremamente filosófico. Como tudo aqui é subjetivo, isso pode agradar alguns e desagradar outros.

Outro elemento de destaque está nas atuações. O material escrito por Flanagan sempre privilegia os atores que trabalham em seus projetos, basta ver o que foi feito nas antologias A Maldição. Aqui não é diferente, ouso dizer que está até um nível acima. Zach Gilford quase faz seu personagem se curvar diante do peso da culpa, basta analisar a forma como ele encara sua família ou conhecidos durante a missa. Kate Siegel carrega uma melancolia hipnotizante, como uma mulher sofrida que busca algum tipo de paz. Samantha Sloyan, que vive a odiosa Bev Keane, é o mais próximo que temos de uma vilã. Seus comentários maldosos e preconceituosos, disfarçados por citações bíblicas, despertam um inevitável sentimento de indignação. Destaque também para Rahul Kohli, que vive um xerife mulçumano isolado em uma ilha de católicos.

Mas é graças ao trabalho de Hamish Linklater que a minissérie se sustenta. Não seria loucura apontar seu desempenho como o principal motivo para acompanhar todos os episódios. Ele funciona como um pregador apaixonado e carismático, mas que nunca nos deixa totalmente confortáveis durante suas homilias ou interações com outros personagens. É através dele que o texto questiona as diferenças entre devoção e uma fé cega que beira a insanidade.

Missa da Meia-Noite é o projeto mais ambicioso de Mike Flanagan. Não em termos de escala, mas justamente por se permitir explorar todos os questionamentos de seu criador. O terror é apenas uma ferramenta e não o foco de tudo. Alguns podem até apontar que esse é um exercício de ego, mas ninguém pode negar as mensagens presentes em cada episódio. E a mais importante talvez seja essa: é importante ter fé, mas também é essencial perceber que você é o autor de seu próprio caminho.

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