Charles Luis Castro

5 out, 2020

Séries

Contando muito mais do que uma história de terror, A Maldição da Mansão Bly mostra o peso e o impacto de nossos próprios fantasmas.

O terror sempre foi um terreno fértil para o exercício da interpretação. Por muitas vezes o significado de algo nunca fica muito claro ou vai mudando de acordo com nossa imersão na história. Boas produções do gênero sabem muito bem como trabalhar esse aspecto, contando uma história com elementos que geralmente não estão destacados em primeiro plano. O susto puro e simples, ainda que eficiente, nem sempre é o melhor caminho. É possível afirmar então que, durante boa parte de seus episódios na Netflix, A Maldição da Mansão Bly é uma obra de interpretação. E seu resultado final certamente irá depender da disposição do público.

Baseada em clássicas histórias do autor Henry James, em especial A Volta do Parafuso, a trama acompanha a jovem Dani Clayton (Victoria Pedretti), recém chega a Londres que acaba sendo contratada pelo advogado Henry Wingrave (Henry Thomas) para cuidar de seus sobrinhos Flora (Amelie Bea Smith) e Miles (Benjamin Evan Ainsworth). Para isso, ela terá que morar em tempo integral na Mansão Bly, onde irá descobrir que certos segredos cobram um preço muito alto.

Dada sua origem em histórias de terror góticas, A Maldição da Mansão Bly procura construir seu impacto muito mais pela atmosfera do que pelas manifestações sobrenaturais em si. Embora não caibam muitas comparações, está um tom acima do que foi apresentado em A Maldição da Residência Hill, onde nossos olhos percorriam a tela em busca das projeções da casa maligna. Criador das duas séries, Mike Flanagan consegue resistir ao ímpeto de repetir a mesma assinatura aqui, o que despertaria a sensação de uma continuação espiritual.

O que se mantém, de maneira acertada, é a escolha de trabalhar novamente o psicológico e o desenvolvimento dos personagens em tela. O medo mais eficiente é justamente aquele que cerca nossas experiências de vida, ressoando como um lembrete constante de nossos equívocos. Ainda que o cenário tenha seu próprio mal incrustado, os demônios internos dos personagens funcionam como um amplificador. Dessa forma, a apoteose esperada vai sendo trabalhada ao longo de 90% da temporada, para que a recompensa seja finalmente entregue. Porém, os jump scares são severamente reduzidos, o que pode afastar quem busca mais emoção do que contemplação.

a maldição da mansão bly, da netflix

Divulgação: Netflix

Contudo, A Maldição da Mansão Bly acaba caindo nos erros dessa estratégia. Ao trabalhar diferentes personagens e núcleos, é necessário um equilíbrio para que a trama não pareça enfadonha ou inflada demais. Flanagan contorna essa situação no início, mas não consegue escapar nos dois últimos terços da temporada. A constante alternância entre rostos e linhas temporais custa a tornar-se orgânica. Dessa forma, muita energia é investida em situações que se perdem no final. Não é um problema de visão do criador, mas de execução. A duração dos episódios poderia ter sido melhor trabalhada para corrigir esse aspecto.

O elenco, formado por vários rostos conhecidos da Residência Hill, mostra novamente seu talento. Victoria Pedretti carrega muito bem o peso do protagonismo, entregando uma personagem com uma carga dramática elevada que precisa lidar com suas lembranças enquanto enfrenta os riscos de seu novo trabalho. Outra que brilha bastante é T'Nia Miller, com sua personagem destruída pelo tempo em que esteve em Bly. As crianças também merecem destaque, tirando de letra cenas extremamente desafiadoras em muitos momentos.

Nos aspectos técnicos, A Maldição da Mansão Bly é bastante eficiente. Trilha sonora, fotografia, figurinos e etc ajudam na hora de contar a história proposta. É sempre agradável quando uma produção de terror consegue fazer de seu cenário principal um personagem importante para a trama. Cada pequeno detalhe é devidamente pensado. O pecado acaba ficando por conta do CGI, que compromete em alguns momentos chave.

É uma história de terror, mas também é uma história de amor, de arrependimento, de sonhos, de erros. É impossível resumir tudo isso em apenas algo para assustar. Apesar dos problemas, é uma experiência enriquecedora para os fãs do gênero e mostra que precisamos fazer as pazes com nossos próprios monstros.

A Maldição da Mansão Bly estreia na Netflix no dia 9 de outubro.

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