Márcio Bastos

19 jun, 2021

Séries

Drama investigativo da HBO nos envolve com um roteiro brilhante, trazendo Kate Winslet em seu melhor momento da carreira

Fãs de dramas investigativos talvez tenham uma atração peculiar pelo desconforto. Querem ser provocados com situações inquietantes e, quando isso lhes é dado, dentro de um roteiro com presas afiadas, bem desenvolvido e que respeita seus personagens, tal produto facilmente ganha as prateleiras do entretenimento como algo que transcende o puramente descartável. Depois dessa breve introdução, lanço (sem nenhum pudor) minha previsão: 2021 ficará marcado nas telas, entre outras coisas, pela brilhante minissérie Mare of Easttown, da HBO.

O que ela tem de especial? Primeiro, Kate Winslet. A atriz vencedora do Oscar 2009 por O Leitor – e que durante muito tempo ficou estigmatizada por seu papel em Titanic – sempre gostou de personagens desafiadoras e mostra em Mare que está no auge, entregando a melhor performance de sua carreira até hoje. O que Winslet faz aqui é algo absurdo.

A atriz interpreta Marianne Sheehan (a “Mare” do título), detetive da pequena cidade de Easttown, na costa leste dos Estados Unidos. A personagem carrega um caminhão de dramas nas costas, tendo perdido o filho (que tirou a própria vida), o casamento e, ainda, correndo o risco de perder o neto (sim, ela já é avó) para a nora que reaparece disposta a brigar pela criança na justiça.

Numa tentativa de subverter a seu modo o gênero desse tipo de narrativa, Mare of Easttown troca o protagonismo masculino por um drama vivido de forma palpável por uma detetive cheia de rugas, olheiras e, igualmente, conflitos, que permite a Winslet entregar uma interpretação sutil e inspirada, muitas vezes pautada apenas por gestos e olhares.

Mascarando suas dores, sem se permitir viver o luto pela perda do filho, Mare mergulha no trabalho, sendo uma profissional extremamente dedicada e competente que sofre por não ter conseguido desvendar o mistério do desaparecimento, há mais de um ano, da filha de amiga Dawn Bailey (Enid Graham), que, diante da não solução do caso, se voltou contra ela. Como se já não bastassem ares tão pesados, a trama passa a se movimentar rumo à investigação do assassinato de outra jovem, que pode ou não estar ligado ao sumiço da filha da amargurada amiga.

Dentro desse tabuleiro, o criador e roteirista do programa Brad Ingelsby (Tudo por Justiça; O Caminho de Volta) tem a perspicácia de fazer um verdadeiro estudo de personagens, costurando a figura de Mare a outros indivíduos que também vivem dramas particulares que não fugirão ao olhar atento do roteiro – cada um carrega sua própria cruz. Com isso, passamos a conhecer um pouco mais o detetive Colin Zabel (novo parceiro de trabalho da protagonista, interpretado por Evan Peters, de WandaVision), Helen e Siobhan (mãe e filha de Mare, interpretadas respectivamente por Jean Smart e Angourie Rice), Lori (a melhor amiga, interpretada por Julianne Nicholson), o professor Richard Ryan (Guy Pearce) e diversos outros membros da comunidade que ganham arcos narrativos que são incorporados espertamente à trama.

A bela sacada se deve a dois motivos. O primeiro, tornar cada um desses personagens mais intimamente identificável com o público, distanciando Easttown das cidades comumente vistas nas produções estadunidenses e buscando aproximar a minissérie o máximo possível da vida real. A segunda sacada está no roteiro, com seu apreço pelo cotidiano, plantar personagens dignos da nossa listinha de suspeitos, que podem estar ali apenas como bombas de fumaça para ofuscar nossos olhos. O segredo é ficar atento a cada detalhe e, ainda assim, corremos um sério risco de levantar suspeitas completamente equivocadas.

Mare of Easttown não inventa a roda, mas pela forma como é concebida, lançando um olhar muito particular na vida de seus personagens em meio a uma investigação que mexe com a vida de todos na cidadezinha do título, temos algo que se destaca entre os lançamentos televisivos de 2021. Com uma trama opressiva e carregada, que traz pontualmente algum respiro – e até mesmo toques de humor, assim como é a vida –, a minissérie acena para os grandes do gênero, dando aos ávidos fãs desse tipo de produção uma poderosa experiência que certamente será ainda muito lembrada no futuro.

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