Charles Luis Castro

6 jun, 2021

Séries

Marcada por inconstâncias, nova temporada de Lucifer prepara o terreno para o último ato da série

Dividir filmes e séries em partes não é algo novo na cultura pop. Para citar um exemplo clássico, o último longa de Harry Potter passou por isso. No entanto, ainda que seja amplamente utilizada, essa fórmula não é precisa. O que acontece na maioria dos casos é um desequilíbrio entre os dois lados da moeda, geralmente com o primeiro servindo apenas como algo introdutório, deixando a resolução para a segunda metade. A Netflix decidiu utilizar essa muleta com a quinta temporada de Lucifer. Agora é possível afirmar que essa ideia não foi das melhores.

Era visível que a Parte Um da temporada não podia avançar demais na trama, entregando episódios que pouco contribuíam para o futuro dos personagens, ainda que alguns tenham sido bastante divertidos. Tudo pensado para terminar justamente com a vinda de Deus (Dennis Haysbert) para a Terra e assim deixar um gancho para a futura Parte Dois. No entanto, esse encerramento acaba tendo que lidar com muitos núcleos secundários na medida em que precisa resolver a jornada de seu protagonista. Em resumo, o quinto ano da série sofre de uma crise de identidade.

O humor tão característico agora precisa dividir espaço com o drama, gerando uma inconstância ao longo dos episódios. A premissa absurda da aposentadoria de Deus desperta em Lucifer (Tom Ellis) o desejo de assumir o trono de seu pai. Contudo, ele deve convencer os demais anjos e arcanjos de que está apto para a função. Mas essa jornada resulta em consequências graves para as pessoas ao seu redor. É nesse aspecto que reside o principal problema da temporada de uma forma geral. Tendo em vista que 90% dos personagens secundários conhecem o segredo do protagonista, não existe motivo plausível para que a série ainda perca tempo com casos policiais da semana ao invés de mergulhar de vez em sua veia celestial.

Isso acaba esbarrando no eterno romance de Lucifer e Chloe (Lauren German), que mais uma vez funciona como pano de fundo para os principais acontecimentos da temporada. Lembro de ter dito no texto da Parte Um que os fãs da série gostam da dinâmica entre os personagens, mas é inegável o quanto isso limita o potencial da atração. Especialmente quando descobrimos os motivos por trás da gana do protagonista em vencer a disputa pelo posto de Deus. Ou você assume a galhofa e segue com essa pegada ou abraça o drama e coloca seus personagens em caminhos sombrios. Os dois pensamentos não podem coexistir no mesmo programa.

 

Apesar das reclamações, esse encerramento de temporada possui seus momentos de qualidade. Dennis Haysbert é uma ótima adição ao elenco, equilibrando com talento momentos de ternura e imponência. Queria ter visto mais de sua dinâmica com os filhos. Existe também uma musicalidade ao longo dos episódios que diverte bastante, além de dar espaço para Tom Ellis mostrar seu potencial artístico. Miguel finalmente funciona como vilão, embora os roteiristas insistam na ideia de tirá-lo de cena em algum momento apenas para retornar no final. Gosto também dos fechamentos de arcos de alguns personagens secundários, em especial Dan (Kevin Alejandro).

A segunda parte da quinta temporada de Lucifer ganha pontos por entregar alguns dos momentos mais emocionantes da série, atingindo especialmente os fãs de longa data. Mas fica claro que essa divisão foi uma péssima decisão criativa, ainda que influenciada pela pandemia. A sexta temporada será a última da aventura do Diabo na Terra e terá a missão de entregar um final digno aos espectadores. Curiosamente, irá contar com menos episódios que esse quinto ano. O fim está próximo e ainda não sei o que pensar sobre isso.

Deixe um comentário