Roberta Filizola

27 set, 2021

Séries

Uma história (infelizmente) muito recorrente, contada de forma única, por meio do jeito engraçado, forte e sensível que Michaela Coel.

I May Destroy you, que fez de Michaela Coel a primeira mulher negra a ganhar o Emmy de melhor roteiro, trata de um assunto muito mais comum do que gostaríamos. Enquanto assistia à série, também dirigida e estrelada por Coel e baseada na sua própria experiência como vítima de estupro, uma situação muito semelhante tomava os noticiários e trending topics do Twitter: em um reality show, um homem se aproveitou de uma mulher em estado vulnerável para ter relações sexuais, em uma situação em que a consciência e o consentimento dela estavam comprometidos.

Arabella, a protagonista interpretada por Michaela, não é a única a sofrer assédio na série. Seu amigo Kwame (Paapa Essiedu, indicado ao Emmy de melhor ator coadjuvante) também passa por essa experiência quando conhece um homem por aplicativo que o força a fazer sexo com ele. E pior, no decorrer da história, Arabella não passa por isso apenas uma vez. Enquanto ainda tenta se recuperar do primeiro abuso, tenta se relacionar intimamente com outro homem, tentando superar o trauma, e então vivencia novamente uma situação que, a depender da legislação do país, pode variar de estupro à situação análoga.

Mas, para além de se tratar de um tema grave e importante, a série possui um potencial artístico imenso, embora não seja fácil apreciar. Por vezes, I May Destroy you nos expõe situações pesadas, principalmente para quem vivenciou algo parecido. Em outros momentos, tentamos captar o senso de humor esquisito e refinado de Michaela, além de discursos nada dispostos a seguir a corrente. Coel sai do lugar comum do ativismo e até nos faz rir quando Arabella, por exemplo, fica viciada em militar nas redes como feminista, para depois nos mostrar a profunda transformação que essa personagem atravessa. Nessa estranheza sofisticada, somos apresentados a uma forma única de contar histórias, muito marcada pela posição social de Coel — uma mulher negra — e, ao mesmo tempo, ligada a sua experiência íntima e à singularidade de sua voz. Arabella, assim, torna-se mais do que uma vítima e, ao tentar seguir com a vida, com todos os sentimentos que tem que engolir e atropelar, também deixa mais difícil a vida das pessoas que a amam e que querem permanecer como um suporte emocional.

Arabella, após a repercussão de seus tuítes e o sucesso de sua primeira obra "Chronicles of a Fed-Up Millennial" (Crônicas de uma millennial cansada), é contratada por uma editora grande para escrever seu segundo livro. Com apenas mais uma noite para entregar o rascunho dentro do prazo, resolve dar uma saída rápida, para espairecer e voltar para escrever pelo resto da noite. Quando amanhece, além de uma ressaca horrível, aparece machucada na reunião com seus agentes e com alguns escritos que não os convence. Ao chegar em casa, um flash, que parece vir da memória de outra pessoa: a visão de um homem lhe violentando. A partir de então, começa sua busca por entender o que lhe aconteceu na noite anterior e entender-se enquanto vítima de violência sexual.

Felizmente, teve a coragem necessária para relatar o ocorrido à polícia, onde é atendida por mulheres e, pelo que é mostrado no programa, as autoridades de Londres parecem estar um pouco mais preparadas para lidar com esse tipo de crime do que em locais como o Brasil. Ainda assim, enfrenta frustrações com o andar das investigação, do modo que aconteceu, não seria simples encontrar e responsabilizar o culpado. A situação é ainda pior para seu amigo Kwame que, ao buscar ajuda, ouviu que o sexo forçado por qual passou não configurava um crime. Ainda é difícil compreender que um homem gay com a vida sexual ativa, ao encontrar alguém por aplicativo, pode sim ser vítima de estupro a partir do momento em que diz não e sua vontade é desrespeitada.

Se já estava difícil para Arabella escrever, depois do abuso que sofre fica ainda pior. E não adianta esperar muita compreensão do mercado editorial, por mais que pareça um ramo descolado e diferente do resto. Talvez o maior mérito de Coel tenha sido desenvolver uma história em que a investigação sobre o culpado caminha lado a lado com sua recuperação e com a escrita de seu livro. Assim como os avanços da investigação criminal levam meses para acontecer, esse mesmo intervalo de tempo pode se passar entre um episódio e outro. Em outras vezes, a sucessão cronológica não é linear e nenhuma informação é entregada de bandeja. Quando esperamos que o mistério levantado no final de um capítulo seja resolvido no seguinte, Michaela resolve voltar atrás para contextualizar. Nessas idas e vindas, vamos entendendo as contradições dos personagens, a maioria millenial como Arabella, que tentam se adaptar às mudanças culturais de um mundo que insiste em sustentar os problemas mais antigos.

Como dito, é preciso respirar entre um episódio e outro, pois, apesar de durarem cerca de 30 minutos, a impressão é de que são maiores, por conta de tudo que passa Arabella. Mas fica o recado para quem começou e por algum motivo não conseguiu continuar: o final muito bem orquestrado faz tudo valer a pena. Aliás, os finais. Como uma escritora de não ficção, a personagem de Coel (assim como ela) não poderia deixar de falar sobre sua própria experiência, e então a história ganha camadas de metalinguagem.

O final que queremos, o final realista e o final que, por mais que pareça loucura, pode assombrar a mente da vítima. Michaela os abraça e compartilha todos eles com a gente. E o ponto final que dá à assombração do estuprador, dá também ao seu livro, o qual, tenho pra mim, deve ser uma obra-prima, tal como é I May Destroy you.

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