Charles Luis Castro

9 jan, 2021

Séries

Com um protagonista carismático e uma trama envolvente, Lupin é bastante divertida

Obras com temáticas de assalto caem facilmente nas graças do público. Bastar tomar como exemplo o estrondoso sucesso de La Casa de Papel, um dos produtos mais celebrados da cultura pop nos últimos anos. Entre alguns fatores que podem explicar esse movimento, estão os planos elaborados, os personagens cativantes, os momentos de ação. Uma combinação praticamente infalível e interminável. Portanto, não é surpresa nenhuma que Lupin seja tão envolvente. A nova série original da Netflix bebe dessa fonte e ainda encontra espaço para inserir novos elementos.

Baseada no clássico personagem Arsène Lupin, criado pelo escritor francês Maurice Leblanc, a trama acompanha Assane Diop (Omar Sy) que busca vingança contra uma tradicional família francesa que anos atrás causou uma enorme tragédia em sua vida. Tendo em mãos os livros do Ladrão de Casaca, Diop aprende seus métodos para cometer crimes e assim alcançar seu principal objetivo. Em seus cinco primeiros episódios, a produção entrega uma enérgica mistura de Sherlock Holmes, Onze Homens e Um Segredo, Truque de Mestre e tantos outros.

Os roteiros não entregam todas as respostas logo de cara, mas estabelecem um curioso e atrativo caminho para o público. Com uma emaranhada teia de conexões, todas as peças são postas no tabuleiro até que o panorama geral fique claro. A utilização de flashbacks é crucial para contextualizar as ações de Diop assim como para situar o espectador em sua conturbada vida. Logo, quando finalmente entendemos quem o protagonista realmente é, a sensação de recompensa é bastante palpável.

Ainda que a primeira parte da temporada seja focada em um grande roubo, Lupin pincela outras histórias do personagem literário. Como pequenas referências que acrescentam um dinamismo aos episódios sem comprometer o desenvolvimento da trama principal. Outro elemento interessante consiste na decisão de fazer do protagonista um fã de Arsène Lupin e não o próprio criminoso transportado das páginas para a tela. Esse toque de realidade, na medida do possível, não exige muito da suspensão de descrença do espectador. Além de acrescentar certa fragilidade a Diop.

Ao ambientarem Lupin nos tempos modernos, os criadores George Kay e François Uzan abrem espaço para tratar de temas importantes. Muito além dos disfarces, Diop utiliza do racismo como principal elemento furtivo. A sociedade o vê, mas não o enxerga por completo. Não faltam exemplos ao longo dos episódios, retratos de cenas que infelizmente se repetem diariamente ao redor do mundo. Omar Sy desempenha muito bem esse papel, até utilizando do preconceito como uma arma nos momentos de necessidade.

Por falar no ator, parece que ele nasceu para interpretar o ladrão cavalheiro. Sua altura e força intimidam no primeiro olhar, mas o toque suave e gentil de Omar quebram essa primeira impressão. Os protagonistas de histórias desse tipo geralmente são cínicos, mas aqui é justamente o oposto. Sua inteligência e a fala macia cativam as vítimas e até mesmo o espectador. É bastante divertido acompanhar suas engenhosidades na hora de executar os planos.

Infelizmente, a série não tem o mesmo trato com os demais personagens que acabam ofuscados e sem muito o que dizer. E o principal vilão da trama, apesar de odiável, não possui muitas camadas além do homem rico e sem escrúpulos. No contexto geral, Lupin é uma série bastante instigante e divertida. Inteligente, sem parecer presunçosa, e que trabalha bem com os clichês da temática. 2021 começa de uma forma interessante.

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