Edipo Pereira

16 abr, 2020

Séries

Série de Álex Pina testa sua fórmula mais uma vez

Sempre fui um entusiasta do sucesso que La Casa de Papel conquistou perante o fiel público do serviço da Netflix. Afinal, são personagens dotados de carisma e tantos outros atributos, numa série não estadunidense que conta a história de ladrões que são uma espécie de Robin Hood, cada um à sua maneira.

Claro que isso não veio sem um preço: o hype gerado irritou muitas pessoas, que não aguentavam mais ouvir a fatídica pergunta "e aí, assistiu La Casa de Papel?" Já outros simplesmente não conseguiram engolir os absurdos roteirísticos do programa, que sempre dava um jeito de safar o Professor de uma enrascada. Isso sem contar a abordagem melodramática dada aos personagens e sua dinâmica ao longo do assalto.

Atualmente, a série acaba de estrear sua Parte 4, onde o Professor (Álvaro Morte) acredita que Lisboa (Itziar Ituño) foi executada, enquanto o plano de assalto ao Banco Nacional da Espanha está indo muito mal, devido à tensão interna entre a equipe (principalmente por conta da rebeldia de Palermo, vivido por Rodrigo De la Serna) e pelo tiro que Nairóbi (Alba Flores) levou, quando usaram seu filho para distraí-la, o que a deixou em estado de saúde gravíssimo.

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Como (não) contar uma história

De um modo geral, esta 4ª temporada mantém a fórmula que a série de Álex Pina usou para se consagrar, lançando mão do supracitado carisma, sacadas mirabolantes de roteiro e muitas cenas expositivas. Se você não estava gostando do show até aqui, é provável que esse sentimento continue.

O risco maior, e acredito que foi o que aconteceu comigo, é a tal fórmula entrar num desgaste acentuado perante à suspensão de descrença. A cafonice que outrora dava um toque especial agora dá lugar a diálogos e subtramas desnecessárias (será que já não era assim antes?), como Denver (Jaime Lorente) extremamente descontrolado e um forçado Arturo (Enrique Arce), o personagem mais detestável de La Casa de Papel, mostrando que está ali para absolutamente nada de produtivo.

Em resumo, o que mais prejudica essa 4ª temporada é o roteiro. Na intenção de oferecer um espetáculo cada vez mais intenso, a coerência vai sendo deixada de lado e você que lute para torcer ou não o nariz para os absurdos que assiste.

Não se trata, porém, de criticar o caráter ficcional da obra. Por mim, é aceitável eles roubarem qualquer lugar, promoverem o assalto que for. O desafio é fazer isso mantendo uma trama equilibrada emocionalmente, com um texto que faça sentido dentro desta ficção. E essa nova temporada não se saiu tão bem quanto as outras nesse sentido.

A insistência em personagens insuportáveis (não estou falando do Arturo dessa vez) também não ajuda em nada. Manter Berlin (Pedro Alonso) na história só serve para confundir o espectador frente ao seu trágico fim na 2ª temporada. Isso porque o colocam como um planejador póstumo do assalto em curso na 3ª e 4ª temporada, sendo que na verdade desistiram daquele plano para o da 1ª temporada. Qual a necessidade disso?

La Casa de Papel resistirá?

Ainda há elementos positivos em La Casa de Papel. A força dos personagens continua e, mesmo que de maneira bizarra, o defeituoso roteiro tenta imprimir algumas pautas progressistas em meio a esse caos todo, como falar em prol de pessoas trans e trazer esse assunto para dentro do âmbito do que é uma família.

Sem contar os ganchos para a sequência, que podem servir para manter o interesse na trama. Mas será que darão o fôlego que o programa precisa para encerrar esse novo assalto?

Tenho minhas dúvidas.

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