Coisa Mais Linda – 2ª Temporada (Netflix) | Crítica com spoilers

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Crédito: Aline Arruda / Netflix

2ª temporada de Coisa Mais Linda traz na Netflix episódios carregados de emoção e a lembrança de como não é fácil ser mulher, seja atualmente ou nos anos 60

Após assistir aos primeiros quatro episódios da segunda temporada de Coisa Mais Linda, constatamos que a série brasileira original da Netflix havia mantido sua qualidade. Agora, que assistimos aos capítulos restantes, é o momento de uma análise mais detalhada e faremos isso através desta crítica com alguns spoilers desse e do ano anterior.

Havíamos parado no ponto onde Malu (Maria Casadevall) e Lígia (Fernanda Vasconcellos) são alvejadas por Augusto (Gustavo Vaz) em pleno Ano Novo, e a história é retomada a partir do momento em que a protagonista acorda após longo período inconsciente devido ao ferimento, e logo ficamos sabendo o destino trágico de Lígia.

É um começo de temporada bastante triste. Lidar com tragédias é sempre algo complicado, e isso não era diferente por volta de 1960. Temos aqui uma ambientação do Rio de Janeiro na época, onde a população era embalada pelo samba e pela bossa nova. Junto a isso, também haviam conceitos que hoje não cabem na sociedade, principalmente os concernentes ao modo como as mulheres deveriam se comportar.

Crédito: Aline Arruda / Netflix

A volta dos que não foram

Também vale destacar a estreia de um personagem oculto ao longo da primeira temporada, mas que teve significativa participação na trama: Pedro (Kiko Bertholini). O marido de Malú a abandonou, deixando a mulher à própria sorte para cuidar do restaurante que mais pra frente viria a se tornar o clube de música Coisa Mais Linda. Ao saber do sucesso do empreendimento (e motivado por outros fracassos pessoais), o picareta volta para tomar o que é seu do ponto de vista jurídico, uma vez que o estabelecimento está registrado em seu nome. Particularidade da época que Malú e sua sócia Adélia (Pathy Dejesus) precisam lidar para continuar com o negócio.

É nesse ponto e nos potenciais romances de Malú que a série da Netflix consegue ser mais leve, mesclando momentos de descontração e até experimentando passagens de humor que acabam funcionando bem. Roberto (Gustavo Machado) é um personagem que transita nessa parte da estrutura emocional, sendo aquele cara que muitas vezes parece ser incrível, mas ao mesmo tempo é ambicioso e potencialmente mesquinho, como a maioria dos homens de negócio. Ao mesmo tempo, há o nítido interesse romântico entre a protagonista e Chico (Leandro Lima).

Por falar em estrutura emocional, vale ressaltar que essa série é bastante emotiva. Cada subtrama é carregada de momentos de provação e dificuldades que as mulheres passam de um modo geral. E constatar que muitos desses problemas persistem até hoje na sociedade é algo assombroso.

Geralmente eu gosto muito de séries com temporadas curtas, mas dessa vez preciso reconhecer que faltou um tempo a mais para a narrativa da segunda temporada de Coisa Mais Linda encaixar melhor seus dramas no enredo. Isso porque alguns desses dramas, como a doença de Adélia e o julgamento de Augusto, passam muito rápido e não há tanto tempo para a devida absorção de todas as emoções jogadas para o espectador. Pode ser que o orçamento não tenha permitido oito episódios ao invés dos seis que foram lançados.

Além do supracitado Pedro, uma personagem que ganhou mais destaque foi Ivone (Larissa Nunes), irmã de Adélia, que é dotada de uma linda voz. Malú enxerga potencial nela e tenta ajuda-la a construir uma carreira, mas ela acaba cometendo alguns erros dentro dessa nobre motivação. Ainda de luto por Lígia (que também era cantora), ela joga muita responsabilidade em Ivone, ocasionando em alguns tropeços no sonho de ser uma grande artista. Nesse ponto é que o roteiro mais se destaca, fazendo alguma justiça com Lígia, uma vez que seu assassino acaba escapando de uma pena severa.

coisa-mais-linda-2a-temporada-netflix (Ivone, vivida por Larissa Nunes)
Crédito: Aline Arruda / Netflix

Como figura totalmente inédita no elenco temos Alejandro Claveaux, que interpreta o radialista Wagner Pessanha. É um personagem que faz dupla com Thereza (Mel Lisboa), rendendo mais alguns bons momentos. Thereza se encontra num dilema entre ser uma pessoa mais voltada para a família ou investir na sua carreira profissional, algo que a enche de prazer e satisfação.

Ao final, tempos mais um grande gancho para a temporada seguinte: quem matou Augusto? É muito satisfatório ver um verme como ele se ferrar, mas fica o lamento por esse processo não ter sido mais doloroso. Ou será que foi? Só os novos episódios poderão responder. Coisa Mais Linda é uma produção de alto nível na Netflix, que consegue unir pautas atuais e relevantes numa narrativa minimamente envolvente.