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Tempo (Old), de M. Night Shyamalan, mostra que a vida é um sopro

A grosso modo, M. Night Shyamalan fez nome em Hollywood calcado em impactantes plot twists nos filmes que dirigiu, a começar pelo mais emblemático de todos, O Sexto Sentido (1999). Cerca de uma dezena de projetos depois, o cineasta trouxe Tempo (Old, 2021), um longa que dialoga, acima de tudo, com a época na qual veio ao mundo ao romper com o material original.

Adaptando a graphic novel Sandcastle, de Pierre Oscar Lévy e Frederik Peeters, a trama apresenta uma família que vai parar numa praia isolada, na qual o tempo passa de uma forma absurdamente acelerada. Conforme tentam escapar do local – e dessa situação inacreditável -, eles e as outras pessoas que lá se encontram terão que lidar com problemas pertinentes ao envelhecimento e as consequências de tentar escapar de um local que aparenta possuir vida própria.

Sua expectativa em Old pode atrapalhar a experiência

É irônico que, duas décadas depois de O Sexto Sentido, muitas pessoas ainda tenham esperanças de passar pelas mesmas emoções de outrora quando assistem a um filme de M. Night Shyamalan, mas podemos considerar até isso um mérito do diretor para lançar Tempo, uma vez que se esperam muito dele, é porque seu trabalho anterior de fato merece destaque. E não é da conta dele que os espectadores antecipem sentimentos antes de conferir uma obra.

Com isso em mente, vale ressaltar as interpretações mais óbvias ao acompanhar Old que é a de como deixamos de prestar atenção a experiências realmente importantes ao longo da vida, não percebendo que os anos se passam e deixamos de aproveitá-la, e quando nos damos conta disso já é tarde demais. O choque dos pais quando veem seus filhos crescidos simboliza bem esse sentimento.

No que tange ao suspense, temos uma clara inspiração em O Anjo Exterminador (1962, de Luis Buñuel), outro filme sobre um grupo de personagens que ficam presos em um local e incapazes de sair. O problema é que esse experimento social promovido por Shyamalan não consegue cativar. Ironicamente, o tempo acaba se tornando vilão no desenvolvimento do carisma da família formada por Prisca (Vicky Krieps), Guy (Gael García Bernal) e seus filhos, e os acontecimentos acabam se desenrolando rapidamente, de um modo que o diretor não consegue  despertar a preocupação genuína do público com a integridade física dos participantes deste reality show promovido por algum elemento desconhecido.

Outros personagens na trama acabam por conferir mais qualidade em alguns momentos, como o Rufus Sewell dando vida ao médico Charles e a esposa do personagem, Chrystal, vivida por Abbey Lee. O primeiro vai de um médico (logo, uma pessoa com prestígio social por seu cargo) para uma pessoa cheia de falhas e um tanto psicótica, enquanto a segunda cai no estereótipo da beleza estética atrelada à juventude.

O grande plot twist de Tempo e como M. Night Shyamalan conversa com os dias atuais

A grande sacada de Tempo acaba sendo a revelação de quem ou o que está por trás do ocorrido: trata-se, de fato, de um fenômeno da natureza restringido àquela região, e manter as pessoas ali é algo promovido por uma grande empresa da indústria farmacêutica, com o propósito de, a partir destes experimentos, descobrir a cura para diversas mazelas sociais. Se essas descobertas serão objeto de lucros exorbitantes do capitalismo ou apenas uma ação de bondade vinda da iniciativa privada, M. Night Shyamalan não entra na seara de modo contundente, pois o tempo (mais uma vez ele) de tela para este tema é bem curto. Mas “desconfio” que a primeira opção seria a sobressalente.

Old

No mundo real, este período acabou marcado por muitos debates envolvendo a área da saúde, com foco na pesquisa para uma vacina contra a COVID-19 e suas respectivas doses, com cada empresa oferecendo a sua solução para um mal que se alastrou pelo mundo inteiro.

Esse ponto do terceiro ato ocorre desgarrado da HQ que origina a história, o que não é necessariamente algo ruim. O problema é que, depois de elevar demais o suspense, pode ser um tanto frustrante ter as respostas de mão beijada como acontece. Igualmente frustrante é ver que a passagem acelerada do tempo acaba não sendo coerente com todos os personagens, mesmo levando a particularidade de cada perfil apresentado.

Tempo (Old) é um projeto em que claramente o diretor se divertiu bastante e adaptou uma obra interessante usando a devida liberdade na transição de uma mídia para outra. Em suma, Shyamalan acaba oferecendo um filme mediano que acrescenta pouco aos gêneros nos quais se encaixa – assim como à sua própria filmografia. Mas os temas levantados fazem valer a sessão.