O cinema de terror produzido na América do Sul vive um momento de reconhecimento internacional, e O Sussurro (El Sussurro), nova coprodução entre Uruguai e Argentina dirigida por Gustavo Hernández, surge como mais um exemplo dessa fase. Após circular por festivais como Sitges e conquistar prêmios importantes no circuito especializado, o longa estreia na HBO Max apostando em uma combinação de horror rural, suspense psicológico e elementos sobrenaturais.
A trama acompanha Lucía (Ana Clara Guanco) e seu irmão mais novo, Adrián (Marcelo Michinaux), que fogem de um pai violento e encontram abrigo em uma casa isolada. O que inicialmente parece ser apenas uma história sobre sobrevivência familiar rapidamente se transforma em algo muito maior. A descoberta de uma rede criminosa operando na região abre caminho para uma narrativa que se recusa a permanecer dentro de um único subgênero.
O principal diferencial de O Sussurro está justamente nessa constante transformação. O roteiro escrito por Hernández ao lado de Juma Fodde apresenta uma sucessão de revelações que ampliam o escopo da história a cada novo ato. O filme começa próximo do thriller criminal, mergulha no terror rural, flerta com o sobrenatural e ainda incorpora criaturas e mitologias que alteram completamente a percepção do espectador sobre os acontecimentos.
Essa estrutura oferece momentos de surpresa genuína, mas também gera alguns problemas. Em determinados trechos, a sensação é de que novas ideias surgem antes que as anteriores sejam plenamente desenvolvidas. A quantidade de reviravoltas e conceitos apresentados pode tornar a experiência irregular, especialmente para quem prefere narrativas mais concentradas.
Mesmo assim, Gustavo Hernández demonstra domínio técnico para conduzir esse universo em expansão. A direção aposta na construção gradual da tensão e utiliza os cenários rurais para criar uma atmosfera de isolamento permanente. A fotografia explora a escuridão dos ambientes e reforça a sensação de vulnerabilidade dos protagonistas, enquanto o desenho de som se torna uma ferramenta essencial para sustentar o desconforto que atravessa todo o filme.

Crítica do filme: vale à pena assistir O Sussurro na HBO Max?
As atuações também ajudam a manter o interesse do público. Ana Clara Guanco assume o centro emocional da narrativa e entrega uma protagonista que reage aos acontecimentos sem perder sua dimensão humana. Marcelo Michinaux contribui para fortalecer a relação entre os irmãos, elemento que funciona como âncora dramática em meio aos eventos cada vez mais estranhos.
Sem reinventar o gênero, O Sussurro confirma a força do terror produzido na América Latina. O longa encontra seu valor menos na originalidade absoluta de suas ideias e mais na forma como combina diferentes referências para criar uma experiência inquietante. Entre acertos e excessos, Gustavo Hernández entrega um filme que mantém o espectador em estado constante de expectativa, sem permitir que a história siga caminhos previsíveis.