O Que Fica por Dizer (This, That, and Everything In Between), também conhecido pelo título original filipino Ganito, Ganyan, Ganoon, aposta em um drama familiar marcado por abandono, ressentimento e pela difícil possibilidade de perdão. Dirigido por Cholo Laurel e estrelado por Jodi Sta. Maria e Agot Isidro, o filme da Netflix acompanha uma relação entre mãe e filha que está longe de encontrar uma solução simples.
Na trama, Joanne (Jodi Sta. Maria) é uma roteirista em ascensão que está prestes a deixar as Filipinas para aproveitar uma oportunidade profissional em Nova York. O momento decisivo de sua carreira, porém, coincide com o inesperado retorno de Paz (Agot Isidro), sua mãe, que esteve ausente por 27 anos. O reencontro fica ainda mais complicado quando Joanne descobre a existência de Matti (Gabriel Lazaro), seu meio-irmão de 20 anos.
O principal mérito de O Que Fica por Dizer está justamente em não transformar essa situação em uma história convencional de reconciliação. Paz tomou decisões que provocaram consequências profundas, e o roteiro não exige que Joanne simplesmente esqueça o passado porque a mãe finalmente voltou. A frustração da protagonista é legítima, assim como sua dificuldade em aceitar alguém que desapareceu durante quase três décadas.
Jodi Sta. Maria sustenta esse conflito com uma atuação contida. Joanne não precisa transformar cada confronto em uma explosão emocional: muitas vezes, seus silêncios dizem mais do que qualquer discussão. A personagem também não é apresentada como alguém completamente curada de seus traumas apenas porque construiu uma carreira bem-sucedida ou buscou terapia.
Agot Isidro, por sua vez, encontra em Paz uma personagem difícil de classificar. Ela pode ser egoísta, cruel e frustrante, mas o filme evita reduzi-la a uma vilã. Aos poucos, suas motivações revelam uma mulher marcada por dores que não sabe expressar de outra maneira. Isso não justifica suas atitudes, mas ajuda a compreender sua complexidade.

Matti também ganha importância à medida que a história avança. Mais do que servir para aumentar o conflito entre mãe e filha, ele funciona como um espelho de Joanne, já que os dois carregam diferentes formas de vazio emocional. A relação entre os irmãos acrescenta uma camada interessante ao processo de transformação da protagonista.
O filme eventualmente acumula temas demais, entre abandono, luto, saúde mental, expectativas familiares e conflitos profissionais. Em alguns momentos, esse excesso aproxima a narrativa do melodrama. Ainda assim, o resultado funciona porque O Que Fica por Dizer entende que determinadas feridas não desaparecem simplesmente após uma conversa.
É justamente aí que está sua melhor escolha. O filme não oferece uma reconciliação fácil nem transforma perdão em obrigação. Joanne pode compreender melhor Paz sem apagar o que aconteceu, enquanto Paz não se transforma instantaneamente na mãe que a filha gostaria de ter.

Crítica do filme: vale a pena assistir O Que Fica por Dizer na Netflix?
Com 1h53 de duração, o drama filipino encontra força principalmente nas relações entre seus personagens e na maneira como transforma a escrita de Joanne em uma ferramenta para compreender a própria vida. O Que Fica por Dizer não é um drama familiar perfeito e, em determinados momentos, exagera na quantidade de conflitos, mas entrega uma reflexão consistente sobre amor, perda, ressentimento e a possibilidade de compreender alguém sem necessariamente perdoar tudo.
No fim, sua mensagem mais interessante é também a menos convencional: algumas relações não precisam ser completamente resolvidas para que as pessoas consigam seguir em frente.