Nem todo filme de lobisomem está interessado em mostrar uma criatura perseguindo vítimas durante a lua cheia. Em A Fera Interior (The Beast Within, 2024), o diretor Alexander J. Farrell utiliza o terror sobrenatural como uma metáfora para discutir violência doméstica, abuso e os efeitos que um ambiente familiar instável pode provocar em uma criança. O resultado é um filme mais próximo do drama psicológico do que do terror tradicional.
A história acompanha Willow (Caoilinn Springall), uma menina de 10 anos que vive no interior da Inglaterra com os pais, Imogen (Ashleigh Cummings) e Noah (Kit Harington), e o avô (James Cosmo). Apesar da aparente tranquilidade da família, Willow percebe que, uma vez por mês, sua mãe leva o pai para um local isolado e o deixa lá durante a noite. Curiosa e desconfiada, ela decide descobrir o motivo e testemunha algo que muda completamente sua percepção sobre o pai.
O principal mérito de A Fera Interior está justamente em não transformar Noah simplesmente em um monstro. Farrell constrói momentos de afeto entre pai e filha para estabelecer que existe amor naquela relação, tornando mais dolorosa a descoberta da violência. A criatura funciona como uma representação literal da “fera interior” de alguém incapaz de controlar seu comportamento agressivo.
Essa abordagem também explica por que o filme pode frustrar quem procura um terror de lobisomem convencional. Há poucas sequências dedicadas à criatura e praticamente nenhuma preocupação em transformar Noah em uma máquina de destruição. O ritmo é deliberadamente lento, priorizando a tensão familiar e o ponto de vista de Willow. Em alguns momentos, porém, essa escolha pesa contra o filme, fazendo com que seus 97 minutos pareçam mais longos.

Caoilinn Springall é o grande destaque do elenco. A atriz consegue transmitir medo, confusão, carinho e desconfiança sem exageros, sustentando boa parte da carga emocional da produção. Kit Harington, por sua vez, aproveita a ambiguidade de Noah para construir um personagem cuja relação com a família é tão importante quanto seu lado ameaçador.
Crítica do filme: vale a pena assistir A Fera Interior?
O desfecho reforça a leitura metafórica da história e sugere que a fantasia do lobisomem pode ser a maneira encontrada por Willow para compreender uma realidade muito mais dolorosa. É uma escolha que reorganiza várias cenas anteriores e transforma o terror sobrenatural em uma representação do trauma infantil.
Disponível atualmente no Prime Video e Netflix (no final de agosto), A Fera Interior não é indicado para quem espera um novo Cães de Caça (2002). É um terror contido, lento e focado nas relações familiares. Embora pudesse explorar melhor seu conceito e oferecer momentos mais intensos de horror, Alexander J. Farrell entrega uma experiência emocionalmente desconfortável, na qual o verdadeiro monstro não está necessariamente escondido sob a pele de um lobisomem.