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O necessário boicote ao Globo de Ouro

Por que o boicote às premiações são tão importantes?

Filipe Vidal

10 jan, 2022

O boicote ao Globo de Ouro gerou uma premiação diferente daquelas vistas em outros anos, no último domingo (09/01). O evento deixou grande parte da sua estrutura de lado e fez um evento pequeno, sem tapete, sem celebridades e sem a alta transmissão pela TV. O motivo? Pandemia de COVID-19 e protestos.

Marc Malkin, editor de cultura e eventos da revista Variety, disse que, neste exato momento, grande parte de Hollywood não está nem ligando para o Globo de Ouro. O evento que antes marcava o começo de uma grande corrida ao Oscar e servia como divulgação, agora conta com fama manchada e uma urgente necessidade de um balanço interno. 

Os protestos começaram bem antes do Globo de Ouro de 2021. O Los Angeles Times publicou uma reportagem criticando a falta de diversidade e revelou um júri de 80 jornalistas culturais, sem qualquer presença de uma pessoa negra. 

Semelhantemente, em abril de 2021, o presidente Phil Berk foi expulso após se referir ao Black Lives Matter, movimento que campanha contra a violência direcionada às pessoas negras, como um ato de ódio racista. Coincidência?

Seguindo essa mesma onda, a Variety publicou uma nota dizendo que alguns integrantes do júri recebiam presentes em troca das indicações. Entre elas, a queridíssima Emily in Paris, que recebeu duas indicações duvidáveis para a seção de comédia. 

As indicações de 2022 contrabalancearam a de 2021

Para quem sempre está atento às premiações e capas de revistas, deve ter notado que os vencedores batem na mesma tecla padrão de sempre. As indicações não apresentam qualquer mudança. Vivem no mesmo círculo de exaltação de brancos, cis, héteros e estadunidenses. 

É aí que começa o desenrolar de um boicote necessário ao Globo de Ouro. Mas de que adianta o boicote e por quê?

Ao longo de todos os anos, séries incríveis são lançadas. Inclusive séries que batem recordes, remodelam a maneira de contar histórias e deixam sua marca para que outras possam se inspirar e atingir o mesmo patamar. Em muitas dessas, o protagonismo branco é deixado de lado e dá espaço para que atores, diretores e produtores negros(as), latinos(as), asiáticos(as) e LGBTQIA+. 

Porém, mesmo com grandes produções dando voz a esses grupos e delineando o sucesso estrondoso em volta de Hollywood, algumas premiações relutam para não enxergar a programação da sua TV.

Assim, o modismo de ignorar esse tipo de trabalho faz com que nos questionemos sobre o que está sendo colocado em pauta aqui. O talento que dá voz a grupos minoritários é o mesmo, então por que a falta de indicação? 

Subindo apenas um andar (ou vários, no caso) aqui nesta nossa conversa, vemos que esse padrão já se repetiu no Oscar. Em 2016, #OscarSoWhite tomou conta dos trends como forma de protesto. Em um ano de Creed (Michael B. Jordan), Beasts of No Nation (Idris Elba) e Sicario (Benicio Del Toro), dos 20 nomeados nas categorias de atuação, todos eram brancos. 

Artistas brancos indicados Globo de Ouro 2021

Nesse sentido, depois de todo boicote e repercussão, a Academia do Oscar prometeu mudar e alguns avanços foram tomados de lá para cá. Como resultado, saímos com o acerto de Parasita e Nomadland, ambos dirigidos e produzidos por pessoas asiáticas, como destaques da premiação. 

O grande ponto do boicote vai muito além da busca pela validação do termômetro de ouro das estatuetas. Em outras palavras, não é apenas a chance de ser reconhecido por um grupo de críticos que vão endossar seu trabalho ou não. As premiações são reflexos convictos, sejam sociais e políticos, do país naquele momento. 

Por exemplo, em 2017, quando Trump publicou um decreto vetando a entrada de muçulmanos no país, os indicados do filme iraniano "O apartamento" deixaram de ir ao Oscar. Outro exemplo é Time´s up em 2018, em que as atrizes foram de preto no Globo de Ouro para chamar atenção aos abusos sexuais em Hollywood. 

Times'up

É nítido notar que dependemos da cultura para representar o que somos e como agimos como sociedade. As vozes das telas já não seguem o padrão há algum tempo, então as premiações devem reconhecer os protagonista da diversidade no cenário. 

Estamos em 2022 e é querer se fazer de cego para não notar que atores, diretores e produtores negros(as), latinos(as), asiáticos(as) e LGBTQIA+  dominam o cenário mundial com excelência. Os boicotes acontecem para que a postura de críticos mudem e também para que a sociedade não abra parênteses para consumir cultura. 

Ainda, o velho argumento “se não foi indicado é porque não merecia” não consegue encontrar corrimão para se segurar numa escada íngreme e desfalcada. Esse mesmo argumento só exalta, mais uma vez, a inviabilidade de quem não consegue enxergar o mundo à sua volta. O mundo não é mesmo faz um bom tempo e as programações tomaram rumos que reforçam a necessidade de mais vozes nas telinhas e nas telonas. 

Viola Davis, Zendaya, Hunter Schafer, Dominique Jackson, Mj Rodriguez, Lupita Nyong’o, Zoë Kravitz, Chloé Zhao, Bong Joon-ho, Daniel Kaluuya, Laverne C0x, Michaela Coen, Youn Yuh-Jung, Ryan Murphy e Oh Yeong-su são só alguns dos principais nomes que trago para te deixar ligado no que precisa vir por aí.

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