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Netflix e Brasil: podemos ser premiados por nossa internet medíocre

Charles Luis Castro

4 nov, 2016

A Netflix passou por um processo de expansão territorial, marcando presença em mais de 180 países. Mas isso causou um choque de realidade nos executivos da gigante do streaming. E isso acabou amadurecendo uma ideia que parecia esquecida dentro da empresa.

Não é de hoje que os clientes pedem que o conteúdo da Netflix esteja disponível também offline. Ou seja, assim como o Spotify e a versão paga do Youtube, as pessoas poderiam assistir filmes e séries sem conexão com a internet. Basta fazer o download do conteúdo na própria plataforma e assistir quando quiser. Acontece que a companhia nunca viu isso com bons olhos, alegando que isso fugia de suas características e que o consumidor não tinha interesse nesse serviço.

É fácil entender o comportamento da Netflix, já que a empresa sempre esteve presente em países de primeiro mundo. Onde internet de qualidade é tão fácil de encontrar quanto água em mercantil. Mas essa recente expansão mostrou um cenário bastante adverso, tornando evidente as diferenças estruturais entre o primeiro e terceiro mundo. Assistir The Crown em Londres é mais fácil do que em terras tupiniquins, por exemplo.

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Claire Foy em cena de The Crown, a série mais cara da Netflix

Durante o evento de lançamento de The Crown, o chefe de conteúdo Ted Sarandos comentou sobre o assunto: "Falamos sobre isso por anos e acreditamos que banda larga e Wi-Fi se tornam mais presentes, disponíveis em cada vez mais lugares que você frequenta. Agora que chegamos à novos territórios, percebemos que eles tem conexões e velocidades diferentes, assim esses países desenvolvem um hábito de fazer mais downloads. Por isso, [disponibilizar conteúdo offline] se torna mais interessante nesses países."

Trocando em miúdos, a Netflix percebeu que não adianta fornecer o melhor conteúdo se a maioria não consegue aproveitá-lo da melhor forma. Também é uma forma de dizer que não é possível lutar contra os problemas de internet de todos os países, o máximo que pode ser feito é criar serviços como esse.

Por isso faz sentido que os países de terceiro mundo sejam os alvos em potencial dessa nova ferramenta, já que muitos assinantes seriam beneficiados e despertaria o interesse de quem ainda não foi fisgado pela praticidade da Netflix. Mas é impossível não sentir uma enorme indignação com tudo isso.

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Pessoas curtindo internet de qualidade em cena da terceira temporada de Black Mirror

Em junho desse ano a Netflix divulgou o resultado de uma pesquisa de qualidade da conexão nos países onde está presente. Nosso amado Brasil ficou entre os 10 piores da lista (não que seja novidade estarmos na lista de piores em alguma coisa). Para ter um noção do quanto isso é vergonhoso, ficamos na frente de países como Índia e Costa Rica, mas atrás de nossos vizinhos Uruguai e Chile.

No horário nobre, nossa super internet registrou uma média de 2,57 megas por segundo (embora os números não sejam os mesmos entre as principais operadoras). A Suíça, primeira colocada, tem uma média de 3,99 megas por segundo. Parece pouco, mas existe um abismo considerável entre esses índices.

Nós sabemos o quanto nossa internet é terrível, onde temos que escolher entre a menos lenta para viver a ilusão de uma conexão rápida. E pagando caro por um produto defeituoso. As causas desse problema estão escancaradas para quem quiser ver, mas é um sonho distante esperar que as coisas melhorem em algum momento.

Mas, para todos os efeitos, vamos ganhar um presente por nossa internet medíocre. Até nisso a Netflix é demais. Enquanto o serviço offline não chega, me preparo para assistir The Crown. Torcendo para que a chuva não apareça ¯\_(ツ)_/¯

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