It’s Not Like That transforma luto e família em drama íntimo
A série Não é Bem Assim (It’s Not Like That, 2026), lançada pelo Prime Video, aposta em um formato cada vez mais raro dentro do streaming atual: o drama familiar centrado em personagens e conflitos cotidianos. Criada por Ian Deitchman e Kristin Rusk Robinson, a produção acompanha duas famílias marcadas por perdas recentes enquanto tentam reconstruir suas rotinas diante da pressão social, da criação dos filhos e das mudanças emocionais inevitáveis. Leia a nossa crítica.
No centro da trama está Malcolm, interpretado por Scott Foley, um pastor viúvo que tenta manter a estabilidade de seus três filhos enquanto enfrenta o vazio deixado pela morte da esposa. Ao seu lado surge Lori, personagem de Erinn Hayes, recém-divorciada e mãe de dois adolescentes. Amigos próximos antes da tragédia, os dois passam a desenvolver uma relação marcada por apoio mútuo, intimidade emocional e desconfiança pública.
O grande acerto de Não é Bem Assim está justamente em evitar soluções melodramáticas fáceis. A série entende que o luto raramente se manifesta em explosões constantes de emoção. Em vez disso, os episódios trabalham o desgaste silencioso de personagens que precisam continuar funcionando mesmo quando suas estruturas internas já desmoronaram. A cozinha, a igreja, a escola dos filhos e os corredores suburbanos tornam-se espaços de tensão permanente.
Scott Foley entrega uma das atuações mais contidas de sua carreira. Conhecido por papéis em séries de ritmo mais acelerado, o ator encontra aqui espaço para explorar vulnerabilidade e exaustão emocional sem recorrer a exageros. Malcolm carrega o peso de ser visto como referência moral para a comunidade enquanto sua vida pessoal permanece em estado de suspensão. Já Erinn Hayes constrói Lori como alguém dividido entre culpa, liberdade e medo do julgamento externo.

A química entre os protagonistas funciona porque a série evita transformar imediatamente a relação em romance convencional. Existe uma ambiguidade constante no modo como ambos se aproximam, e é justamente essa indefinição que sustenta boa parte da tensão dramática. O roteiro entende que relações humanas são frequentemente confusas, especialmente quando surgem em meio a processos de perda e reorganização familiar.
Outro ponto forte está no elenco de apoio. JR Ramirez interpreta David Soto, ex-marido de Lori, sem cair no arquétipo do antagonista ressentido. O personagem também enfrenta dificuldades para redefinir seu espaço dentro da família após o divórcio, o que amplia o senso de realismo da narrativa. Entre os jovens atores, destaque para Cary Christopher, que adiciona leveza aos momentos mais pesados da série.
Visualmente, Não é Bem Assim aposta em uma estética doméstica e acolhedora, utilizando ambientes comuns para reforçar a sensação de intimidade. A direção evita movimentos excessivos de câmera e privilegia diálogos longos, silêncios desconfortáveis e pequenas mudanças de comportamento. Isso contribui para a atmosfera contemplativa da produção, embora também torne o ritmo irregular em determinados episódios centrais.

Crítica da série: vale à pena maratonar Não é Bem Assim no Prime Video?
Esse talvez seja o principal problema da temporada. Com oito capítulos, a série demonstra dificuldade em sustentar o mesmo impacto emocional durante toda a narrativa. Alguns conflitos se repetem e certos episódios parecem prolongar situações que poderiam ser resolvidas com mais objetividade. Em um modelo de lançamento semanal, isso pode comprometer o engajamento de parte do público.
Ainda assim, Não é Bem Assim encontra força justamente em sua honestidade emocional. Ao tratar temas como luto, parentalidade, culpa e recomeços sem recorrer a fórmulas simplificadas, a série cria um retrato humano sobre famílias tentando sobreviver às mudanças da vida. Em tempos dominados por narrativas aceleradas e reviravoltas constantes, a produção aposta no desconforto silencioso das relações reais — e encontra aí sua principal identidade.