Netflix troca adolescentes por aposentados em série de ficção científica liderada por Alfred Molina
A Netflix aposta novamente na ficção científica com The Boroughs, série criada por Jeffrey Addiss e Will Matthews, com produção executiva dos Matt Duffer e Ross Duffer. A produção chega inevitavelmente cercada por comparações com Stranger Things, mas encontra sua própria identidade ao trocar adolescentes em bicicletas por moradores de uma comunidade de aposentados no deserto do Novo México.
A premissa acompanha Sam Cooper, personagem de Alfred Molina, um viúvo que se muda contra a vontade para The Boroughs, condomínio planejado para pessoas acima dos 55 anos. O local, aparentemente tranquilo, rapidamente revela acontecimentos estranhos envolvendo desaparecimentos, criaturas misteriosas e uma administração corporativa cercada de segredos.
Embora a estrutura lembre produções como The Twilight Zone, The Boroughs encontra força no drama humano. O roteiro utiliza o envelhecimento, o luto e o isolamento como motores da narrativa. Sam encara a mudança como uma “sala de espera de Deus”, enquanto tenta lidar com a morte recente da esposa. A partir desse conflito, a série constrói relações entre vizinhos que também carregam frustrações, perdas e desejos de continuar vivendo intensamente.
O grande diferencial da produção está justamente no elenco. Além de Molina, a série reúne nomes como Geena Davis, Alfre Woodard, Bill Pullman, Clarke Peters e Denis O’Hare. A dinâmica entre os personagens funciona desde os primeiros episódios, especialmente quando a trama desacelera para explorar conversas, memórias e vínculos dentro da comunidade.
Alfred Molina conduz a série com naturalidade. Sua atuação alterna sarcasmo, fragilidade e melancolia sem transformar Sam em um protagonista excessivamente amargo. Já Alfre Woodard entrega alguns dos momentos mais fortes da temporada, principalmente quando a série aborda perdas pessoais e medo da solidão. Denis O’Hare também se destaca ao equilibrar humor e emoção em cenas que ajudam a aliviar a tensão constante da narrativa.

A estética da produção mistura referências de Cocoon, Doctor Who e até ecos de As Esposas de Stepford. Ao mesmo tempo, a série incorpora temas contemporâneos ligados à vigilância tecnológica, inteligência artificial, exploração corporativa e uso seletivo de avanços médicos. Isso impede que The Boroughs dependa apenas da nostalgia que marcou parte das produções recentes da Netflix.
Nem tudo funciona perfeitamente. Os efeitos visuais das criaturas oscilam bastante e, em alguns momentos, o CGI lembra séries de orçamento intermediário da televisão. Ainda assim, a direção evita exagerar na exposição dos monstros. Sombras, ruídos e reações dos personagens ajudam mais na construção do suspense do que a aparência das criaturas em si.

Crítica da série: vale à pena maratonar The Boroughs na Netflix?
O primeiro episódio deixa clara a intenção da série: o foco não está apenas no mistério sobrenatural, mas principalmente na construção das amizades entre pessoas que acreditavam já ter vivido tudo o que tinham para viver. Essa escolha torna The Boroughs menos acelerada que outras produções do gênero, mas também mais interessada em seus personagens.
No fim, The Boroughs surge como uma das apostas mais interessantes da Netflix em ficção científica nos últimos anos. A série entende suas limitações técnicas, valoriza o elenco experiente e constrói uma narrativa que mistura monstros, conspirações e discussões sobre envelhecimento sem perder o equilíbrio. Mais do que repetir a fórmula de Stranger Things, a produção tenta expandi-la para outro momento da vida — e encontra bons resultados nesse caminho.