A cinebiografia Michael, dirigida por Antoine Fuqua e estrelada por Jaafar Jackson, chega ao Prime Video após boa campanha nos cinemas com a missão de retratar a trajetória de um dos artistas mais influentes da história da música. Com figurinos caprichados, recriação cuidadosa de diferentes épocas e sequências embaladas por sucessos do Rei do Pop, o filme oferece um espetáculo audiovisual competente. O problema é que, ao tentar preservar a imagem de seu protagonista, a produção entrega uma narrativa superficial, que evita justamente os aspectos mais complexos de sua história.
A trama acompanha Michael Jackson desde os primeiros anos com os irmãos, ainda sob a rígida autoridade do pai, Joe Jackson, até a consolidação de sua carreira solo, passando por momentos decisivos de sua ascensão ao estrelato. A estrutura cronológica permite revisitar episódios conhecidos, mas a pressa em percorrer tantos acontecimentos prejudica o desenvolvimento dos personagens e impede que as experiências do cantor recebam a atenção necessária.
Jaafar Jackson é o destaque de Michael
Um dos principais acertos do filme está na atuação de Jaafar Jackson, sobrinho de Michael. O ator demonstra habilidade para reproduzir os movimentos, a postura e a presença de palco do tio, aproximando as cenas musicais de performances reais. Seu trabalho também apresenta momentos de sensibilidade, especialmente quando a narrativa aborda a relação conturbada do cantor com o pai e sua busca por figuras paternas em outros ambientes.
Colman Domingo, por sua vez, interpreta Joe Jackson como uma figura autoritária e abusiva. Embora o ator tenha competência para transmitir a dureza do personagem, o roteiro o transforma em um antagonista excessivamente unidimensional. O mesmo problema afeta os demais integrantes da família, que recebem pouco espaço para desenvolver relações próprias com Michael.
A direção de Antoine Fuqua também demonstra qualidades na reconstrução das décadas de 1960, 1970 e 1980. Cenários, figurinos, fotografia e ambientação ajudam a estabelecer o contexto histórico, enquanto a trilha sonora reúne canções que continuam sendo parte fundamental do legado do artista.
O espetáculo musical não compensa as falhas do roteiro
A música é, sem dúvida, o maior atrativo de Michael. As apresentações permitem revisitar diferentes fases da carreira do cantor, mas a execução nem sempre acompanha a força das composições. Em alguns momentos, movimentos de câmera excessivos prejudicam a fluidez das coreografias e diminuem o impacto visual das performances.
Mais grave, porém, é a maneira como o roteiro transforma a trajetória do protagonista em uma sucessão de acontecimentos, sem explorar suficientemente suas consequências emocionais. A produção apresenta os abusos sofridos na infância e outros episódios difíceis, mas raramente aprofunda as marcas deixadas por essas experiências.
O filme também deixa de lado aspectos importantes da carreira e da vida pessoal de Michael Jackson. Sua relação com a indústria musical, os conflitos profissionais, a influência de músicos que contribuíram para seus álbuns e amizades marcantes recebem pouca ou nenhuma atenção. Além disso, a história termina em uma fase anterior aos períodos mais controversos de sua vida, limitando o retrato apresentado ao público.
Essa escolha torna a cinebiografia excessivamente controlada. Michael aparece principalmente como uma vítima das circunstâncias, sem que suas contradições, decisões e complexidades sejam examinadas com a mesma dedicação reservada à sua imagem de artista.

Vale a pena assistir a Michael (2026)?
Michael funciona melhor como homenagem musical do que como cinebiografia. Jaafar Jackson oferece uma interpretação convincente, e a produção demonstra cuidado técnico na recriação de uma época decisiva para a música pop. Entretanto, a narrativa evita aprofundar questões essenciais para compreender a personalidade e o legado de seu protagonista.
Para quem deseja rever performances e ouvir grandes sucessos do Rei do Pop, o filme pode proporcionar uma experiência envolvente no Prime Video. Já quem espera um retrato abrangente, crítico e emocionalmente complexo encontrará uma obra limitada por suas próprias escolhas.
Michael entrega um espetáculo audiovisual competente, sustentado pela música e pela atuação de Jaafar Jackson, mas deixa a desejar como investigação da vida de um artista cuja história vai muito além dos palcos.