Poucos subgêneros do cinema de ação são tão duradouros quanto o dos “parceiros improváveis”. Popularizada por títulos como Máquina Mortífera, essa fórmula segue rendendo variações que combinam conflito pessoal, investigação criminal e humor pontuado por cenas de violência estilizada. Dupla Perigosa (The Wrecking Crew), nova aposta do Prime Video, dirigida por Angel Manuel Soto, se insere diretamente nessa tradição, mas busca atualizar o modelo ao incorporar elementos culturais, familiares e políticos ao seu enredo.
Estrelado por Dave Bautista e Jason Momoa, o filme acompanha dois meio-irmãos afastados há décadas. James Hale (Bautista) é um ex-SEAL da Marinha que construiu uma vida estável no Havaí, trabalhando como instrutor e vivendo com a esposa Leila (Roimata Fox) e os filhos. Já Jonny (Momoa) surge como seu oposto: impulsivo, alcoólatra, emocionalmente instável e vivendo à margem, em uma reserva indígena em Oklahoma. O reencontro ocorre após a morte do pai dos dois, Walter, um detetive particular envolvido em um caso obscuro que termina de forma violenta em Honolulu.
A partir desse ponto, Dupla Perigosa se estrutura como um thriller policial que mistura investigação, conspiração e confrontos físicos. O mistério central envolve especulação imobiliária, apropriação de terras e corrupção política, remetendo a narrativas clássicas do cinema noir. O governador fictício Peter Mahoe (Temuera Morrison) e o magnata Marcus Robichaux (Claes Bang) ocupam posições-chave nesse esquema, enquanto uma rede de capangas — que inclui o perturbador Nakamura, vivido por Miyavi — garante a escalada de tensão e ação.
O roteiro de Jonathan Tropper, conhecido por trabalhos como Banshee e Warrior, vai além do conflito externo e investe no passado traumático dos protagonistas. A relação entre os irmãos é marcada por abandono, violência doméstica implícita e perdas não resolvidas, elementos que ajudam a explicar seus comportamentos na vida adulta. Essa camada emocional ganha força em cenas mais contidas, especialmente nos momentos em que a ação dá lugar ao diálogo e à exposição de feridas antigas.
Embora utilize convenções já conhecidas do gênero, o filme se diferencia pelo cuidado em situar a história no contexto cultural havaiano contemporâneo. A ambientação não é apenas estética: o roteiro incorpora referências à gestão tradicional de terras, à música indígena e ao uso de expressões locais nos diálogos. Esse olhar atento também se reflete no elenco, que reúne atores havaianos e indígenas, reforçando a autenticidade da proposta.

Crítica do filme: vale à pena assistir Dupla Perigosa no Prime Video?
Na direção, Angel Manuel Soto demonstra domínio tanto das sequências de ação quanto dos momentos intimistas. Após Charm City Kings e Besouro Azul, o cineasta reafirma seu interesse por narrativas de gênero atravessadas por identidade e pertencimento. Em Dupla Perigosa, essa abordagem contribui para equilibrar humor, drama e crítica social, mesmo quando o tom oscila entre o cômico e o sentimental.
Dupla Perigosa não reinventa o cinema de ação com parceiros, mas entrega um exemplar competente e consciente de suas referências. Sustentado pela química entre Bautista e Momoa, o filme encontra seus melhores momentos quando desacelera e permite que os personagens revelem fragilidades. Ao olhar para o passado do gênero enquanto dialoga com questões atuais, a produção do Prime Video se posiciona como uma variação sólida dentro de uma fórmula já conhecida do público.