Dia 8 de março: O que as mulheres realmente querem? PARTE 2

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Observamos, ao longo dos séculos, a pilhagem, a redução do espaço e o esmagamento da natureza instintiva feminina. (…) As terras espirituais da Mulher Selvagem, durante o curso da História, foram saqueadas ou queimadas, com seus refúgios destruídos e seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar aos outros.(Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés)

A maioria dos antropólogos afirmam que o ser humano habita neste planeta há mais ou menos 2 milhões de anos, e passou mais de três quartos nas culturas de coleta e caça aos pequenos animais. A princípio, como não havia a necessidade de força física, a mulher tinha um papel central. Ela significava fertilidade, possuindo o privilégio dado pelos deuses e deusas de reproduzir a espécie. Os homens sentiam-se marginalizados, invejavam essa habilidade. Porém, ao contrário da mulher, ele foi desenvolvendo o “poder cultural”. Antes disso, nos grupos matricêntricos, havia igualdade e liberdade, e não havia guerra pois não tinha pressão para se conquistar novos territórios.

A harmonia acaba quando há a necessidade de se caçar bichos maiores e a força bruta masculina se sobressai, havendo guerras e brigas. Os homens se tornam heróis. Com o passar dos séculos e a criação de cidades, impérios e o que fosse, a sociedade já era patriarcal. A lei do mais forte predomina, a mulher torna-se propriedade e objeto, perdendo sua capacidade de decisão pública, e, às vezes, até privada, originando sua dependência financeira e, ao passar das gerações a submissão psicológica que tanto conhecemos.

A luta pelo fim da submissão feminina

Durante muito tempo, houve a renovação da ideia de que a mulher é inferior ao homem. A partir da Revolução Industrial, com a necessidade das mulheres na área de trabalho, e sua suposta ascensão no mercado trabalhista, elas já recebiam menos do que os homens – algo que ainda acontece, principalmente com a ideia de que mulher quer casar, engravidar e vai sempre precisar se ausentar do trabalho, trazendo prejuízo para a empresa. Além do fato de que o homem é o provedor do lar, e o fato de a esposa trabalhar e receber menos é para a manutenção da ideia machista de que ela só serve para completar a renda, mas não serve para o sustento do lar. Ademais, criou-se a ideia distorcida de profissões exclusivamente femininas, tais como enfermeira, ensino infantil, empregada doméstica, ao mesmo tempo em que a função de dona de casa nunca foi reconhecida como um emprego, assim como criar as crianças, sendo considerado como algo natural e predestinado ao gênero feminino. Todo esse quadro reforça o que já dissemos acima, sobre a submissão financeira e psicológica da esposa, e levando, muitas vezes, à violência doméstica.

Poucas conquistas femininas foram alcanças até a Revolução Francesa (1789–1799), sendo, a partir dessa época, que começaram a surgir questionamentos acerca do papel da mulher na sociedade – mas, claro, à princípio, essa luta era exclusiva das classes que tinham acesso à educação. “De acordo com Cristina Vieira (2002), até ao final do século XIX,  os argumentos apresentados, para justificar a necessidade de educar as mulheres, estavam intimamente ligados ao respectivo sucesso no desempenho dos seus papéis de esposa e mãe, relegando para segundo plano o argumento do seu direito ao desenvolvimento pessoal e social, que seria conseguido em grande medida através da educação.” (SER E TORNAR-SE MULHER: GERAÇÃO, EDUCAÇÃO E IDENTIDADE(S) FEMININA(S), Sofia Marisa Alves Bergano)  As professoras eram modelos de feminilidade, que deveriam transmitir os valores associados ao feminino, sendo a educação das mulheres voltadas para o fato de que elas deveriam se tornar boas esposas.

Reprodução da charge de um jornal estadunidense

Até então, os cidadãos considerados eram homens brancos, cis, héteros e majoritariamente ricos. A eles cabia o direito de voto, da escolha, de decidir como as coisas seriam feitas. Segundo Geneviéve Fraisse e Michelle Perrot, na obra “História das mulheres no Ocidente”, os movimentos feministas do século XIX e início do século XX buscavam a transformação da condição da mulher na sociedade através da luta pela participação na cena eleitoral. No Brasil, em 1827, surge a primeira legislação que autoriza a abertura de escolas públicas femininas, mas somente a partir da década de 1830 é que se inicia a luta pelo direito à educação global. As primeiras mulheres a terem essa educação tomaram para si a tarefa de estender esses benefícios a todas, abrindo escolas, publicando livros, enfrentando a opinião geral que insistia em dizer que mulher não necessitava aprender a ler e muito menos escrever. Afinal, que bem traria a uma mulher saber de tais coisas inúteis, não é mesmo?

Ainda demoraram 40 anos até que as mulheres começassem a exigir também o ensino superior, “fundam jornais e revistas de feição nitidamente feministas que, além dos textos literários, traziam matérias jornalísticas que denunciavam “o regime de escravidão que muitas mulheres viviam”; defendiam com mais ênfase o direito ao estudo e à profissionalização e, consequentemente, ao trabalho remunerado; assim como lançaram veementes apelos a favor do voto(CARMEN DOLORES E A LUTA PELOS DIREITOS DA MULHER: FEMINISMO OU NÃO?, Risolete Maria Hellmann). Desde essa época, a luta feminista é vista com escárnio e chacota, mas, em vias do tratamento em relação às mulheres, até mesmo no exercício da profissão – por exemplo, de professora, esta deveria assinar um documento alegando nunca casar-se, pois o ofício de ensinar é sagrado e deve ser a sua única função. Quando criança, li o livro “Uma professora muito maluquinha“, de Ziraldo, e nunca entendi porquê ela precisou fugir para casar. Hoje, já sabemos que era a sua única saída para realizar o seu matrimônio.

O outro lado da moeda

Agora, gostaria de fazer um grande parênteses em toda essa história, pois recortes precisam ser feitos. O privilégio dessas manifestações era exclusivo de mulheres brancas, que sempre viveram em uma realidade TOTALMENTE diferente das mulheres negras, indígenas e amarelas. E, se formos sinceros, ainda é assim. Sojourner Truth, ex-escrava que se tornou oradora, fez, em 1851, seu famoso discurso intitulado “E eu não sou uma mulher?” na Convenção dos Direitos das Mulheres em Ohio:

Aquele homem ali diz que é preciso ajudar as mulheres a subir numa carruagem, que é preciso carregá-las quando atravessam um lamaçal e que elas devem ocupar sempre os melhores lugares. Nunca ninguém me ajuda a subir numa carruagem, a passar por cima da lama ou me cede o melhor lugar! E não sou uma mulher? Olhem para mim! Olhem para meu braço! Eu capinei, eu plantei, juntei palha nos celeiros e homem nenhum conseguiu me superar! E não sou uma mulher? Eu consegui trabalhar e comer tanto quanto um homem – quando tinha o que comer – e também aguentei as chicotadas! E não sou uma mulher? Pari cinco filhos e a maioria deles foi vendida como escravos. Quando manifestei minha dor de mãe, ninguém, a não ser Jesus, me ouviu! E não sou uma mulher?

  (Reprodução)

Enquanto eu, como mulher branca, peço pelo direito de ir e vir, de ser respeitada, de ser ouvida, uma mulher negra ou indígena ainda luta pelo direito de ser vista como humana.  No Brasil, o movimento negro feminista começou a ganhar força apenas em 1980. “Além de colocar a mulher negra no centro do debate, Lélia vê a hierarquização de saberes como produto da classificação racial da população, uma vez que o modelo valorizado e universal é branco. Segundo a autora, o racismo se constituiu “como a ‘ciência’ da superioridade eurocristã (branca e patriarcal), na medida em que se estruturava o modelo ariano de explicação.(FEMINISMO NEGRO PARA UM NOVO MARCO CIVILIZATÓRIO, Djamila Ribeiro). Problemas e dilemas específicos de donas de casa brancas da classe privilegiada eram e são preocupações reais e válidas, mas, se pararmos para analisar, não são preocupações políticas urgentes da maioria das mulheres, mais preocupadas com a sobrevivência econômica, a discriminação étnica e racial etc.

As mulheres brancas que dominam o discurso feminista – as quais, na maior parte, fazem e formulam a teoria feminista – têm pouca ou nenhuma compreensão da supremacia branca como estratégia, do impacto psicológico da classe, de sua condição política dentro de um Estado racista, sexista e capitalista. (Mulheres negras: moldando a teoria feminista, Bell Hooks) E, novamente, essa mesma primazia do feminismo branco também exclui as mulheres indígenas.

Nas décadas de 1970 e 1980 as questões de gênero no meio indígena brasileiro eram tratadas quase que exclusivamente por lideranças femininas. Mulheres que, por caminhos vários, acabavam se destacando e sendo acolhidas nas campanhas por direitos humanos na qualidade de vozes das comunidades e povos indígenas do País.” (Mulheres Indígenas, Direitos e Políticas Públicas, Ricardo Verdum) Nos dias atuais, é muito comum ouvir de mulheres indígenas que elas odeiam o feminismo, que não são feministas e nem pretendem, pois este é um movimento social que nunca as contemplou, cabendo às próprias indígenas – assim como às mulheres negras – lutarem sozinhas. Qualquer pessoa que estudou história sabe que, desde a invasão e a dominação europeia das suas terras, os povos indígenas foram e são os mais massacrados.

As mulheres são as principais vítimas das violências praticadas contra as comunidades indígenas no mundo, de acordo com relatório da ONU.Os dados da organização mostram que mais de 1 em cada mulheres indígenas são estupradas ao longo da vida – e a violência faz parte de uma estratégia para desmoralizar a comunidade ou como “limpeza étnica”.” (fonte: https://racismoambiental.net.br/2016/12/06/a-complexa-luta-das-mulheres-indigenas-contra-o-estupro/)

E aqui ressalto que essa luta é contínua e atual.

Os direitos das mulheres

Se você tiver percebido, boa parte dessas lutas são recentes. Outras nem acabaram.

A primeira médica da história, até onde sabemos, foi Elizabeth Blackwell, em 1849, e foi um completo escândalo. E antes de conseguir, ela foi rejeitada pelo menos dez vezes. No Brasil, a primeira médica graduada no país foi apenas em 1887, pois somente em 1827 as garotas (brancas) puderam estudar em escolas e, em 1879, em universidades.

Influenciadas pela luta das mulheres nos EUA e na Europa, em 1932 as mulheres brasileiras conseguiram o direito ao voto. Em 1962, elas não precisavam mais da autorização do marido/tutor para trabalhar, passando a ter direito sobre a herança (que, até então, era exclusiva dos homens) e, no mesmo ano, a pílula anticoncepcional chegou, levantando novas questões e novas lutas.

Até 1974, as mulheres que quisessem ter uma conta no banco ou um cartão de crédito, precisavam da autorização e a assinatura do seu tutor legal (pai, marido, irmão…). Foi esse o ano em que elas conquistaram o direito de cuidar das próprias finanças.

Em 1977, a lei do divórcio é finalmente aprovada e as mulheres receberam o aval legal para não se manterem em relacionamentos falidos, abusivos etc. Infelizmente, até os dias atuais, mulheres divorciadas ainda são tão mal-vistas, que muitas ainda preferem ficar presas ao matrimônio infeliz a ter que admitir que “fracassou”.

Em 1985, foi criada a primeira delegacia da mulher e, teoricamente, servem para a proteção das mulheres. Mas, com as histórias que eu já ouvi, não tenho certeza se elas têm cumprido totalmente o seu propósito….

A partir de 1988, a Constituição passou a considerar a mulher, legalmente, igual ao homem. Na teoria, deveriam ter os mesmos direitos, receber os mesmos salários, ter as mesmas oportunidades, mas sabemos que isso tá bem longe de ser verdade, infelizmente.

E você acha que é por aí que acaba? A Lei Maria da Penha foi conquistada a duras penas em 2006. E quando digo duras penas, é isso: Maria da Penha, a farmacêutica que deu seu nome à lei, precisou ser vítima de duas tentativas de homicídio e lutar por quase 20 anos para que, finalmente, conseguisse colocar seu ex-marido criminoso atrás das grades. Mas, se você jogar no google sobre feminicídio, você descobre que somente uma lei não muda muita coisa.

E, para fechar as conquistas mais “importantes”, em 2018 criou-se uma lei contra o assédio que as mulheres sofrem. Seja em ônibus, seja na rua, no lugar que seja. É crime. Mas é um crime que poucas ainda têm coragem de denunciar.

E, então, o que as mulheres querem?

Esse foi o título dessa postagem e da outra. Mas essa pergunta não sou eu quem vai responder. É você. Depois de saber de tudo isso, de toda essa luta, de toda a opressão, me responda se no dia 8 de março o que queremos é flores. Se queremos parabenização. Se queremos um beijo e um abraço. Em pleno 2021, o que você, caro(a) leitor(a), acha que nós mulheres queremos?