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Chupando drops de anis: a experiência de ir ao cinema

Quando lembramos da sala tradicional de cinema, lembramos imediatamente de um elemento: a imagem. A tela de grandes dimensões, como um titã responsável por um espetáculo projetado na parede, é o grande atrativo para muitos que procuram um ingresso para esse momento. O som é visto como um complemento, mas isso não faz jus à sua importância. Quem assiste a um filme com grave estourado, seja pelo péssimo equipamento ou pelo trabalho mal feito de equalização, não sairá do cinema satisfeito.

Porém, o que poucos se detêm a analisar são os detalhes mais sutis que envolvem todos os sentidos. Quando as luzes apagam, muito se tem a experienciar além da visão e da audição. A textura das cadeiras, assim como seu conforto, é imediatamente associada à experiência do cinema, e se cobra por isso. Salas mais confortáveis nos cinemas comerciais custam mais caro, e nem todos podem pagar, assim como muitas outras coisas relacionadas ao universo do entretenimento.

O paladar também é um clássico evocado nesses momentos. A pipoca, internacionalmente conhecida como a comida do cinema, marca tanto pelo seu cheiro forte de manteiga, por seu jeito característico de ser comida aos montes, quanto pelo seu estalo sonoro que acompanha o filme por toda a sessão. Mas essa não é a única comida: uma infinidade de snacks está disponível na bomboniere para quem quer incrementar sua experiência.

Muitos cinemas não permitem o consumo de comida em seu interior. Para o bem e para o mal, essa norma visa manter a integridade nesses espaços, seja na sua própria estrutura, seja na experiência de todos. Mas isso não impede o estímulo do paladar entre as sessões, sendo permitidas refeições ou até mesmo um estimulante cafezinho. Também é preciso destacar que todo cinema, independentemente da comida, possui um cheiro característico; alguns utilizam até aromatizantes. Sempre há o “cheiro de sala de cinema”.

Todos esses fatores fazem do cinema um lugar onde esquecemos os problemas externos e ficamos imersos no filme projetado. Com as imagens se sucedendo naquele ambiente seguro e confortável, entramos quase que em um estado onírico, onde, como em um sonho, ativamos o imaginário de maneira ilimitada, mesmo que ainda despertos. Não há limites na janela (tela branca) do cinema.

Com isso, onde quero chegar é que o espaço do cinema não é transitório. Não é um espaço onde compramos um ingresso, passamos e depositamos o conteúdo de um filme dentro de nossa cabeça e logo após vamos para casa. O cinema é um lugar cheio de afetividades e significados para o público. Para quem tem o costume de ir com frequência, isso se intensifica: o cinema é uma extensão de nossas vidas e está ligado aos nossos hábitos, à nossa socialização e ao nosso consumo.

Mesmo tendo o costume de frequentar cinemas sozinho, faço o exercício de imaginar como isso acontece em grupos. Encontro de amigos, comemoração de datas importantes, discussões acaloradas após a sessão. O cinema também é espaço de reuniões e encontros. Também é um espaço para romances, espaço ao qual considero enfaticamente o melhor para essa finalidade.

Na era dos streamings, muito se alardeou sobre o fim do cinema. A pandemia foi o momento mais extremo, em que não podíamos assistir a nada que não estivesse nos catálogos oferecidos pelas empresas em nosso cárcere forçado. Mas dois fatores julgo importantes para que o cinema não tenha acabado e continue a se perpetuar: o primeiro é que ele fornece uma plataforma para que a indústria bilionária lucre e sem a qual — ainda — não existe perspectiva de continuidade. O segundo é que o cinema é um templo artístico, uma instituição secular, que representa o espírito da sociedade desde a modernidade. Assim como o teatro, que diminuiu de escala, mas não de importância, o cinema não morrerá. E tenho segurança em afirmar isso.

Pois quem não quer estar no “escurinho do cinema chupando drops de anis”, como diz a canção de Rita Lee? A sala do cinema é muito mais que um entretenimento mercantil: é uma experiência de conexão profunda entre o espectador, um espaço e um lugar. E digo que continuarei indo ao cinema, mesmo no mais aterrador dos cenários, pois faz parte de quem eu sou, da minha identidade. E para você, que não é cinéfilo, ou nem mesmo um consumidor casual, saiba que também faz parte da sua. Mas esse é um assunto para outro debate, em um próximo texto.

Por Hélio Mesquita.