A Netflix volta a investir em adaptações literárias voltadas para dramas humanos intimistas com Criaturas Extraordinariamente Brilhantes, longa dirigido por Olivia Newman e inspirado no best-seller de Shelby Van Pelt. Depois de adaptar Um Lugar Bem Longe Daqui, Newman retorna ao universo das histórias melancólicas centradas em personagens solitários, desta vez apostando em uma trama que mistura luto, envelhecimento e afeto improvável através da amizade entre uma mulher idosa e um polvo em um aquário. Leia a nossa crítica do filme.
No centro da narrativa está Tova, personagem interpretada por Sally Field. Funcionária responsável pela limpeza de um aquário, ela vive presa a uma rotina silenciosa enquanto tenta lidar com perdas acumuladas ao longo da vida. O cotidiano muda quando sua conexão com Marcellus, um polvo gigante que habita o local, passa a ocupar espaço emocional cada vez maior em sua rotina. Ao mesmo tempo, Cameron, vivido por Lewis Pullman, surge na cidade tentando reorganizar a própria vida enquanto busca respostas sobre o pai que nunca conheceu.
A estrutura do filme trabalha constantemente com o tema da solidão. Cada personagem principal carrega um vazio específico: Tova enfrenta o envelhecimento e o isolamento, Cameron tenta entender o próprio passado e Marcellus demonstra um desejo constante de retornar ao oceano. A conexão entre os três sustenta o desenvolvimento emocional da história, criando um drama que aposta menos em grandes reviravoltas e mais em pequenas interações humanas.
O roteiro adapta parte significativa do livro original, embora escolha acelerar acontecimentos e simplificar alguns conflitos presentes na obra literária. Ainda assim, Olivia Newman preserva o principal elemento do material de origem: a sensação de acolhimento construída através de personagens fragilizados tentando encontrar algum tipo de pertencimento. O resultado é um filme que frequentemente parece funcionar como uma metáfora sobre como pessoas marcadas pela perda conseguem criar novas formas de afeto.

Grande parte dessa força emocional depende da atuação de Sally Field. A atriz sustenta a narrativa com uma interpretação contida, evitando exageros sentimentais mesmo quando o roteiro se aproxima do melodrama. Sua dinâmica com Marcellus funciona justamente porque o filme trata a relação entre os dois com naturalidade, sem transformar a premissa em fantasia exagerada. Mesmo interagindo quase sempre com efeitos digitais, Field consegue transmitir intimidade genuína.
Outro destaque é o trabalho vocal de Alfred Molina como Marcellus. O polvo narra parte da história através de comentários internos carregados de ironia e observações sobre os humanos ao seu redor. Molina dá personalidade ao personagem sem transformá-lo em um elemento cômico artificial, permitindo que a criatura funcione tanto como alívio emocional quanto como peça importante da trama.

Lewis Pullman entrega um Cameron funcional dentro da proposta do filme, embora o personagem pareça menos complexo do que sua contraparte literária. Ainda assim, sua relação gradual com Tova ajuda a estabelecer a dinâmica familiar improvisada que o roteiro deseja construir. O elenco de apoio, incluindo Joan Chen e Colm Meaney, contribui para reforçar a atmosfera acolhedora da pequena cidade onde a história acontece.
Crítica do filme: vale à pena assistir Criaturas Extraordinariamente Brilhantes na Netflix?
Visualmente, o longa utiliza fotografia iluminada e efeitos discretos para criar um ambiente confortável, reforçando a ideia de que se trata de uma obra voltada para emoção e contemplação. O CGI de Marcellus funciona melhor do que o esperado para uma produção de streaming, especialmente nos momentos em que o filme aposta em closes e interações físicas com os personagens.
Sem reinventar o drama contemporâneo, Criaturas Extraordinariamente Brilhantes encontra força na simplicidade. Olivia Newman entrega uma adaptação que entende o apelo emocional do livro e utiliza seus personagens para discutir luto, envelhecimento e pertencimento sem perder leveza. É um filme sobre pessoas tentando encontrar espaço umas nas outras quando o restante da vida parece já ter seguido em frente.