Censor, longa-metragem de estreia da diretora Prano Bailey-Bond, é um terror psicológico que utiliza um dos períodos mais controversos da história do cinema britânico para construir uma narrativa sobre trauma, culpa e a relação entre violência fictícia e realidade. Disponível no Prime Video, o filme evita os sustos tradicionais e aposta em uma atmosfera inquietante, marcada por ambiguidades e pela deterioração mental de sua protagonista.
Ambientado durante a onda de pânico moral provocada pelos chamados Video Nasties nos anos 1980, o longa acompanha Enid (Niamh Algar), uma funcionária responsável por censurar filmes violentos antes de sua distribuição. Em meio ao rigor das classificações, ela leva uma rotina metódica e isolada, até que um novo filme desperta lembranças do desaparecimento de sua irmã Nina, ocorrido na infância. Convencida de que existe uma ligação entre a atriz da produção e a irmã desaparecida, Enid inicia uma investigação que rapidamente se transforma em uma obsessão.
A interpretação de Niamh Algar é o principal destaque de Censor. A atriz transmite a crescente instabilidade emocional da personagem com pequenas mudanças de expressão e comportamento, tornando crível sua lenta ruptura com a realidade. O roteiro, escrito por Bailey-Bond e Anthony Fletcher, nunca entrega respostas fáceis, preferindo conduzir o espectador por um caminho de dúvidas sobre o que é memória, delírio ou influência das imagens violentas que Enid assiste diariamente.
Visualmente, o filme também chama atenção. A fotografia de Annika Summerson utiliza tons frios e ambientes fechados para reforçar a sensação de aprisionamento da protagonista. Quando a narrativa mergulha em suas alucinações, a estética muda radicalmente, incorporando cores vibrantes, formatos de tela diferentes e referências aos filmes de terror em VHS que dominaram a cultura britânica da época. A mudança de linguagem acompanha o colapso psicológico de Enid, aproximando o espectador de sua percepção distorcida.
Ao mesmo tempo, Censor discute a polêmica em torno da censura sem transformar o tema em um discurso simplista. O filme questiona tanto a paranoia criada pelo conservadorismo da era Thatcher quanto a possibilidade de que obras violentas possam impactar pessoas emocionalmente vulneráveis. Em vez de defender um lado específico, a produção explora as contradições desse debate, tornando a discussão mais interessante do que definitiva.

Crítica do filme: vale a pena assistir Censor no Prime Video?
Essa proposta, porém, também torna o longa divisivo. Seu ritmo deliberadamente lento, a narrativa altamente simbólica e o desfecho surreal podem frustrar quem espera um thriller convencional ou respostas objetivas. Nos minutos finais, a história abandona quase completamente a lógica realista para mergulhar em um pesadelo cinematográfico que mistura realidade e ficção de maneira cada vez mais caótica.
Com apenas 84 minutos, Censor apresenta uma duração eficiente e evita excessos narrativos. Embora nem todas as suas ideias alcancem o impacto desejado, Prano Bailey-Bond entrega um terror autoral que utiliza o contexto histórico dos Video Nasties para discutir memória, trauma e o poder das imagens. É uma experiência estilizada, provocativa e aberta a interpretações, indicada principalmente para quem aprecia filmes psicológicos que priorizam atmosfera e simbolismo em vez de respostas fáceis.