Esdras Araujo da Silva

31 mar, 2021

Hqs e Livros

E hoje é dia de falar um pouco sobre o quadrinho Miss Davis - A Vida e as Lutas de Angela Davis, escrito pela francesa Sybille Titeux de la Croix e desenhado por Amazing Ameziane, também francês, publicado no Brasil pela editora Agir, numa edição caprichada, com texto de apresentação da filósofa Djamila Ribeiro e o desafio de resumir inúmeros fatos marcantes que perpassam desde a vida pessoal de Angela até suas conquistas coletivas. O quadrinho se inicia mostrando o texto presente no programa do Partido dos Panteras Negras e, logo após, a história da infância de Angela, narrada por sua amiga Cynthia, relatando o contexto e o dia a dia de quem morava no bairro Dynamite Hill (Colina de Dinamite), na cidade de Birmigham, estado do Alabama, fortemente marcado pela segregação racial, onde movimentos extremistas racistas, como a Ku Klux Klan, tinham atuação muito forte. O nome do bairro fazia alusão às constantes explosões de casas causadas por atentados atribuídos à vizinhança branca que não aceitava a comunidade negra no local.

 

Com os pais professores e filiados à Associação Nacional para o Progresso de Pessoas Negras (NAACP, na sigla em inglês), a militância de Angela se inicia ainda na infância, participando, por exemplo, de um boicote dentro de um ônibus com vagas separadas para negros e brancos, uma prática comum na época de segregação racial legalizada. Cynthia relembra vários momentos vividos com Angela que, aos 14 anos, se mudou para estudar em Nova York, mas continuou se comunicando por carta com as amigas. Neste período, o movimento pelos direitos civis de negros no EUA foi se avolumando e inúmeros ataques racistas eclodiram. No dia 15 de setembro de 1963, um mês após o famoso discurso “Eu Tenho um Sonho” (“I Have a Dream”) de Martin Luther King Jr., uma bomba explode pouco antes da missa de domingo na Igreja Batista de Birmingham, frequentada predominantemente por negros, com muitas vítimas fatais. Esta notícia é recebida com bastante pesar por Angela e a marca profundamente.

No decorrer de Miss Davis, já retratando a vida adulta de Angela, vemos surgir outra personagem, a repórter Seymour June, que auxilia a dar o tom realista que uma narrativa biográfica pede, ajudando a demonstrar uma forma de abordagem jornalística dos fatos, à medida que ocorrem. A arte do quadrinho consegue expressar os vários sentimentos que percorrem tantos acontecimentos vivenciados por Angela, fazendo inclusive uso de diferentes estilos de desenho, mas que conseguem manter a fluidez da história. É mostrada sua viagem à Cuba, os dilemas e as contradições em algumas organizações negras, o anseio por aproximação com os países africanos, sua filiação ao partido comunista, suas atividades como professora universitária e a perseguição por seu posicionamento político dentro da Universidade da Califórnia, onde lecionava, entre tantos outros acontecimentos, até culminar na suspeita totalmente injusta de seu envolvimento em atentados, quando o FBI a classifica como a criminosa mais perigosa do país, culminando com sua detenção em 1970 na prisão feminina de Nova York após vários meses de fuga, enfrentando um pesado, e também injusto, processo judicial, recheado de machismo, em busca de sua liberdade.

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Vale muito a pena ler uma obra tão representativa como Miss Davis num contexto ainda tão atual, infelizmente, dado ao racismo estrutural fortemente pulsante, que resulta também em violência policial, injustiças no sistema judiciário e desumanidade no sistema carcerário.

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