Lâmina Azulada, de Luís Carlos Sousa e Rafael Dantas | Crítica

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SINOPSE: Euclides é um velho cangaceiro que, após sepultar seu último colega, o cão Curió, recebe a visita do barqueiro dos mortos, Severino. A entidade lhe oferece realizar seus desejos se Euclides ajudá-lo a tomar o reino do pós-vida, mas, cansado de pelejas, o ancião nega o convite. Tomado pelo ódio, Severino fecha seu barco ao cangaceiro: “Não morra nunca”. Consumido pela doença e pelo tempo, Euclides inicia uma jornada em busca da mítica Lâmina Azulada, artefato que poderá lhe ajudar a reclamar seu direito de morrer.

Foi no meio de uma forte crise de tendinite que o quadrinho Lâmina Azulada, de autoria de Luís Carlos Sousa e Rafael Dantas veio para minhas mãos machucadas, que não conseguiam empunhar nem uma escova de dentes direito. Passar as páginas era difícil, mesmo que a encadernação fosse leve e pequena, mas a hora em que permaneci lendo a história ali contada passou de repente, a ponto de eu não perceber a noite se aproximando. Ficção e realidade se misturaram naquele tempo que deixou de existir. Nem a dor era mais sentida.

Há como consertar o passado?

Lâmina Azulada é um quadrinho curto, de menos de cem páginas, que nos vai contar a história de Euclides em dois momentos distintos da sua vida: o primeiro é em sua velhice, ao enterrar seu animalzinho de estimação, Curió, e o outro em sua juventude, ali pelos seus vinte e poucos, indo a uma missão no mínimo duvidosa. Em dado ponto, essas realidades irão se encontrar, porque os erros do passado ainda interferem de maneira muito significativa na não-vida de Euclides. A grande questão é: isto é possível? Há muitos personagens importantes no quadrinho, como o enigmático Severino, a valente Diadorim, Curió e temos também uma participação especial de Iara, a mãe d’água. Para não revelar muitos detalhes aqui, porque a trama é muito bem amarrada, vou pular para o próximo tópico, já que existe algo muito importante na escolha de todos esses nomes.

O nosso quintal

Há uma corrente que diz que todas as histórias que precisavam ser contadas já o foram. Não discordo dos estudiosos que afirmam isto – e quem sou eu para falar o contrário! O que dá o brilho nessas temáticas que foram tão exploradas ao longo de séculos são nossas experiências pessoais, nossas vivências e nossas referências, esse complexo amontoado que escorre para nosso trabalho e fornece o tom único daquilo que queremos contar.
Se olharmos para Lâmina Azulada por um viés simplista, veremos temáticas comuns a muitas histórias: vingança, violência, sentimento de heroísmo, erros, remorso, afeto. Conhecemos esses tópicos intimamente porque eles nos são comuns, conversam com nossa humanidade. Mas é apenas a primeira camada. Como Luís Carlos Souza em seu apêndice disse, há um sincretismo claro dentro do seu roteiro. As referências daquilo que ele e Rafael Dantas consumiram estão ali, nítidas para quem olhar com atenção, desde as pinceladas de mitologia grega às aventuras arturianas.

A diferença, como ressaltou Daniel Brandão em seu texto de abertura da publicação, é essa: o nosso quintal. Lâmina Azulada tem como palco o Nordeste brasileiro, com cangaço, coronelismo, regionalismo nas falas (algo para o que muita gente por aí torce o nariz), problemas que são reais e palpáveis.

Outro ponto é a homenagem à literatura brasileira, o que não é ponto sem nó. Nenhum nome de personagem foi escolhido à toa, desde Euclides (referência a Euclides da Cunha, autor de Os Sertões) a Severino (Morte e Vida Severina, obra de João Cabral de Melo Neto), passando por Diadorim (Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa). Todos esses são clássicos da literatura brasileira que conversam com a narrativa de Sousa e Dantas e com todas as vivências dele. São o que floreiam o nosso quintal, cheio de mudas vindas de tantos outros cantos do mundo.

Uma arte que mexe

E, certamente, não podemos deixar de falar da magistral arte de Rafael Dantas, que dá a cara à história que nos é contada. De traço firme, pesado, conversa com a realidade árdua dos que vivem o sertão em sua forma mais selvagem, dos que enfrentam não só as intempéries da região, mas a crueldade dos homens – e, nesse caso, de monstros também.
Rafael é um artista de mão-cheia, com larga experiência e foi comparado por Daniel Brandão a nomes como Mike Mignola. Texto e imagem se casam perfeitamente aqui, encontrando o ponto certo para narrar eventos que, ainda que envolvam lobisomens e fantasmas, abordam principalmente o mais importante: a crueza de ser humano.

Onde achar

Para adquirir seu Lâmina Azulada, você pode comprar diretamente com os autores, através do link (www.luiscarlosos.com/shop) ou pelos nossos parceiros da Reboot Comics. Garantimos: você não se arrependerá!

Informações Técnicas: Lâmina Azulada

Tamanho: 148 x 210mm
92 páginas em PB
Capa cartonada com verniz localizado e lombada quadrada
ISBN: 978-65-87137-00-1