Edipo Pereira

9 maio, 2021

Hqs e Livros

Editora Pipoca & Nanquim aposta no engajamento dos fãs para oferecer uma obra de pouco brilho, mas com importância histórica

Há uma discussão que ocorre em determinados nichos da internet a respeito do mercado editorial brasileiro, onde muitas editoras acabam apostando em obras com um requintado acabamento físico para assim poder ganhar algum dinheiro, visto as dificuldades de se manter uma empresa que depende de leitores (algo um tanto raro de se encontrar por aqui). O efeito disso é que, muitas vezes, compramos determinado livro ou quadrinho devido ao trabalho editorial extremamente requintado com direito à capa dura, verniz localizado, papel não sei o que lá e por aí vai. Dan Brand e Outros Clássicos, da editora Pipoca & Nanquim, me fez refletir um pouco sobre essa questão.

Mas primeiro. deixe-me explicar do que se trata esse quadrinho. Em meados de 1950, o ainda não renomado artista Frank Frazetta lançou, na já ilustre revista Durango Kid, algumas aventuras de Dan Brand (ou Índio Branco, como foram intituladas suas histórias), um homem da elite social e econômica dos EUA que tem a esposa assassinada por um asqueroso imbecil outrora rejeitado pela bela dama. No encalço do assassino e de sua vingança, Dan acaba atacado por um gigantesco urso que quase tira sua vida. O rapaz acorda e percebe que foi resgatado por um povo indígena, que propõe a ele ensinamentos da cultura local incluindo técnicas de sobrevivência e combate. O resultado disso é um herói destemido e infalível em suas ações.

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Vale a pena comprar um registro histórico, mesmo que ele seja fraco?

Nesse ponto, podemos resgatar a discussão inicial sobre o consumismo dentro do mercado editorial brasileiro. Porque eu realmente me questionei sobre essa compra, e não estou tirando os méritos da Pipoca & Nanquim (que sempre arrasa em seus lançamentos). Mas sim da qualidade dessas aventuras que atualmente podemos adquirir no site da Amazon por algumas dezenas de reais.

Eu poderia muito bem ter destinado esse investimento financeiro para algo mais útil, como obras de maior qualidade textual ou então outro tipo de produto qualquer. Porém, influenciado pela excelente propaganda do vídeo de pré-venda do Pipoca, fui convencido a comprar um item que, após a breve e pouco proveitosa leitura, irá compor alguma prateleira da minha casa na condição de enfeite. Afinal, trata-se de um importante registro histórico lançado num encadernado de luxo.

Essas histórias desenhadas por Frank Frazetta mostram o quanto chapa branca um artista poderia ser em sua época. De poucas páginas, o roteiro dessas aventuras se resumem a conflitos internos bobos dentro de um importante contexto histórico como a independência dos EUA. Nelas, acompanhamos Bran e seu sidekick Tipi, sempre do lado certo da história, como uma espécie de guardiões da paz e mediadores dos conflitos entre homem branco e indígenas. O problema é que na esmagadora maioria dos casos, os povos originários se resumem a pessoas amarguradas, violentas e inocentes ao ponto de serem controladas como se fossem animais, onde soldados da coroa britânica ou traidores da revolução os ludibriam com álcool (invocando o estereótipo do "índio cachaceiro") e artigos de importância doméstica.

Como ponto positivo, podemos colocar exatamente essa percepção (mesmo que um tanto torta) de que os indígenas não são selvagens sanguinários, mas sim comunidades que estão sendo afetadas pela massiva migração de pessoas do Velho Mundo. Se levarmos em conta produções da época que não possuíam o mesmo olhar, podemos afirmar que Dan Brand representou um certo progresso. Quanto à qualidade narrativa e ao  formato das histórias, não posso condenar sua mediocridade, pois os quadrinhos ainda não possuíam grandes referências para serem seguidas.

Ainda ressaltando o quanto as histórias possuíam caráter amigável com o governo, há diversas propagandas entre cada um dos capítulos onde temas como combate às drogas e financiamento de guerra são abordados. Nesse ponto, o registro histórico trazido com Dan Brand se destaca de modo positivo também.

A evolução artística do "pintor" do Conan

É interessante, ao mesmo tempo, acompanhar a evolução nos traços de Frazetta ao longo do período de publicação. Nenhum artista nasce sabendo, nem mesmo os mais geniais, e o que podemos notar são algumas indicações das extraordinárias e épicas capas (para ficar em poucos adjetivos) que o artista fez para a indústria cultural, seja nos quadrinhos, filmes e até mesmo nas músicas. Frazetta é responsável por diversas pinturas épicas do Conan, personagem mais notório de Robert E. Howard, incluindo a capa do filme clássico com Arnold Schwarzenegger.

As pinturas do artista são um deleite. É como se ele fotografasse o momento mais singular de uma grande batalha em seus desenhos, dando grande destaque aos corpos dos personagens em tela de um modo que se equilibre com toda a fúria do ambiente. Para conferir algumas dessas artes, você pode pesquisar no Google ou então olhar as capas dos livros do Conan e Bran Mak Morn lançados pela editora.

É por essa admiração e respeito que Dan Brand se torna alvo de interesse.

Por sua vez, Dan Brand e Outros Clássicos também é um marco histórico na própria Pipoca & Nanquim por se tratar do primeiro western da editora (no sentido mais puritano do gênero, pois anteriormente foi publicado a HQ Funny Creek que possui elementos de faroeste). Junto com Gatilho, outra obra recém lançada pela empresa de Alexandre Callari, Bruno Zago e Daniel Lopes, ter um nome de peso como Frank Frazetta em seu catálogo não é para qualquer um. Seja numa história mal envelhecida ou não.

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