Becky C.

13 out, 2021

Hqs e Livros

Prepare-se para os pequenos heróis "made in quebrada"

Depois de sofrer um acidente na mais tradicional corrida de carrinho de rolimã da vila, Angela, Leno, Karlos, Rosa e o intrépido vira-latas Caramelo descobrem um universo fantástico onde porcos são donos de fábricas, velhos dinossauros governam uma cidade e uma matilha de cães milicianos toma de assalto uma pequena vila. Uma parada tão surreal que quase lembra o Brasil, né?

Para encontrar o caminho de volta para casa, as crianças terão que ir em busca do Jabuti da Montanha, uma entidade lendária detentora de todas as respostas do mundo, inclusive as que não estão no Google. E é nesta jornada cheia de desventuras que eles, eu, você e cada um de nós vai descobrir que muito mais do que trajes maneiros e superpoderes. Heróis e heroínas são feitos de uma substância poderosa, indestrutível e presente em todos os seres
humanos: coragem. Coragem para lutar, transformar e fazer aquilo que precisa ser feito.

Biribinhas é bom?

Spoiler: SIM!

Em uma época saturada de super-heróis, embora nem tanto de super-heroínas, trazer algo inovador não é fácil, principalmente na área de HQs - mercado que é basicamente sobre essas temáticas. E Biribinhas, de John Symon, traz essa novidade, esses refrescos deliciosos que precisávamos, como a quebra da ideia do(a) escolhido(a) e, ao invés, temos uma turma que cai acidentalmente em uma aventura. Inclusive, durante a leitura, vemos várias sátiras dessas temáticas, principalmente em diálogo bem construídos.

Aqui temos um grupo de crianças que vem da quebrada, formando uma equipe inusitada e criativa que se autodenominam de Biribinhas, em que cada um possui, obviamente, uma habilidade em específica e sabe explorá-la muito bem, pois não parecem ter sido reprimidas e sim estimuladas ao máximo, resultando nas chamadas gambiarras. A narrativa é contada em "dialetos", sem a preocupação do português formal, trazendo gírias, regionalismos e vícios de linguagem predominantes no dia a dia de, bem, todo mundo.

Em uma pegada bem Monty Phyton, Biribinhas satiriza tudo, até mesmo a realidade brasileira, com um vilão que é um porco e se chama sr. Piguedes. As crianças vão parar em um local em que os adultos negligenciam suas crianças para trabalharem arduamente em um sistema capitalista, que suga tanto essas pessoas, que elas acabam se tornando "cria" dos seus contratantes. Ou seja, porcos.

Também vemos referências óbvias a Mágico de Oz e outras obras populares.

biribinhas vol. 1

Uma das melhores sacadas do autor foi manter a infância intocada, com diálogos, resoluções, tramoias... Tudo bem a cara da criança mesmo, sem serem atitudes adultizadas - como costuma acontecer. Ou seja, é uma história escrita do ponto de vista das crianças e não dos adultos, então o mundo é um local mais simples, e as soluções necessitam de trabalho de equipe, de confiança e, sem terem sido corrompidas ainda pela sociedade, parece mais fácil para elas resolverem os problemas.

Angela, Leno, Karlos, Rosa também trazem representatividade, mais um ponto em que sentimos aquele ar de coisa gostosa, pois não temos protagonistas brancos, ricos, com poderes ou aparatos que são engenhocas ricas. A história é deliciosa. Os desenhos são divertidos, com quadros coloridos e chamativos. Ou, como diria o próprio autor, a estética da malandragem, com quadros muito bem calculados para serem provocantes, em uma atmosfera primordialmente infantil que nos evoca a própria infância - SE você foi uma criança que brincou na rua. 

Então, pegue o seu carrinho de rolimã, sua fantasia improvisada, o seu aparato feito em casa com sucata e parta para essa aventura! Você pode conseguir a HQ facilmente no site da turma: https://biribinhas.cargo.site/

Deixe um comentário