O Legado de Orïsha: Filhos de Sangue e Osso, de Tomi Adeyemi

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O Legado de Orïsha: Filhos de Sangue e Osso, de Tomi Adeyemi

Cansado(a) de ler somente sobre mitologia nórdica? Ou sobre deuses idolatrados somente no ocidente branco? A série O Legado de Orïsha, iniciada em 2018, com o primeiro volume Filhos de Sangue e Osso, veio para quebrar esse padrão e nos apresentar uma fantasia renovada.

A história

Houve um tempo em que a magia era presente na vida de todos. Zélie Adebola se lembra disso. Mas, um dia, a magia os abandonou e o cruel monarca parte para uma aniquilação total dos que um dia foram abençoados por ela, deixando apenas as crianças vivas.

Marcada para sempre com os cabelos brancos das pessoas que um dia possuíram magia, Zélie vive com medo, dia após dia, até que o destino a faz esbarrar na princesa fugitiva, que traz consigo um artefato mágico e descobre que talvez ele possa trazer a magia de volta. Para isso, precisará correr contra o tempo e de seus inimigos reais, que buscam aniquilá-la antes que consiga trazer de volta o seu pior pesadelo: um meio do povo retribuir a crueldade cometida contra eles.

É bom?

A narrativa é dividida entre três arcos: Zélie, que tem que lutar para aprender a controlar a sua magia recém-descoberta e contra suas inseguranças e medos; Amari, a princesa fugida, que viveu uma vida de pavor e começa a aprender a força que tem e Inan, o irmão de Amari, que as persegue com o objetivo de erradicar de vez a magia.

A autora consegue, com sucesso, intercalar as histórias dos três personagens de maneira coerente e bem amarrada, construindo aos poucos seus conflitos e resolvendo-os de forma intrigante durante o andamento da narrativa.

Zélie é a típica protagonista encrenqueira, mas possui camadas bem trabalhadas, com motivações coerentes. Já Amari nos é apresentada como uma princesa passiva, que está sempre se deixando levar pela vontade alheia, mas que sonha em se libertar. Quando ela rouba um artefato mágico de seu pai e traz o gatilho para o resto da trama é até surpreendente, mas, aos poucos, vemos a princesa buscando a própria força e coragem, lutando com garra e determinação pelo que acha correto. Inan é o inimigo, mas sua trama é bem complexa, possuindo muitos questionamentos sobre certo e errado, seu medo de não ser o filho que seu pai espera, o dever como futuro governante, o medo palpável da magia.

O cuidado com a coerência dos personagens, a construção desse universo, a mitologia tão pouco explorada em outros livros… Tudo torna o livro um sopro de ar fresco em uma época em que as narrativas se tornaram repetitivas, seguindo praticamente à risca a ideia da jornada do herói. Não que Tomi Adeyemi não siga essa jornada, mas ela traz novos elementos para a trama e para a literatura YA em si.

Eu não consegui largar o primeiro livro dessa série até terminar, mergulhando nos conflitos avassaladores dos personagens e me perguntando como cada coisa iria terminar. O final, por exemplo, é surpreendente.

Conflitos que vão além da ficção

Por ser um livro escrito por uma mulher negra, com protagonismo negro e que conversa com a religião africana, a autora traz conflitos atuais, como a briga majoritária entre os kosidán e os maji, que são basicamente as pessoas com pele mais clara, membros da realeza, e as pessoas com pele mais escura e praticantes da magia. Esse conflito principal aborda o racismo e a divisão de classes, com um rei abusivo que acredita piamente em controlar as massas por meio da brutalidade e da escravidão, enquanto a protagonista busca liberdade desse sistema opressivo, mas quer que seus opressores sofram o que ela sofreu a vida inteira, enquanto Amari busca um equilíbrio.

E é isso que Filhos de Sangue e Osso fala: sobre como viemos do mesmo lugar, mas, ainda assim, o povo é oprimido por ideias sociais e raciais. E talvez eu esteja perdendo alguns pontos, pois esse tipo de narrativa só conversa em parte comigo por conta de meus privilégios.

Até então, o livro possui apenas o primeiro volume traduzido no Brasil, mas, para aqueles que leem em inglês, o segundo volume deverá estar disponível esse mês. Além disso, a autora já vendeu os direitos cinematográficos de sua obra e estamos no aguardo para mais informações.

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