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Fantástico Brasileiro: Entrevista com Bruno Matangrano e Enéias Tavares

Edipo Pereira

25 jul, 2017

Na última semana, o CosmoNerd entrevistou Enéias Tavares e Bruno Anselmi Matangrano, os idealizadores da exposição "Fantástico Brasileiro: O Insólito Literário do Romantismo à Contemporaneidade", que já comentamos aqui sobre as origens do projeto, o exaustivo - e divertido - trabalho de pesquisa envolvido nele e os planos futuros para a exposição.

CosmoNerd: Foi necessária muita pesquisa prévia para começar o projeto ou vocês já tinham plena convicção de que havia um elemento fantástico na literatura nacional?

Bruno Anselmi Matangrano: Na verdade, ambas as respostas são sim! Já tínhamos plena convicção do papel das diversas vertentes da literatura fantástica no Brasil; ainda assim, a pesquisa foi essencial. O primeiro passo já havia sido dado em 2013, quando publiquei no número inaugural da extinta revista Bang! Brasil, da Editora Saída de Emergência Brasil, o artigo “O Fantástico no Brasil: As Origens”. Nele, tracei um panorama dos primórdios do fantástico nacional ao longo do século XIX, resultado de uma pesquisa que já vinha fazendo. A este texto, seguiram-se outros dois em que avancei a pesquisa para o século XX: “O Fantástico no Brasil - Parte II: A Consolidação do Gênero” – publicado no número seguinte da Revista Bang! Brasil, em 2014 – e “Breve panorama da presença da Fantasia na Literatura Brasileira”  – publicado no Jornal Cândido, periódico da Biblioteca Pública do Paraná, em 2016. Por fim, a pesquisa alcançou a contemporaneidade, com alguns outros textos, como “A Hora do Steampunk”, “Dois livros de músicas e cores: Rani e o Sino da Divisão de Jim Anotsu e Exorcismos, Amores e uma dose de blues de Eric Novello” e “O Efêmero e o perene em Literatura - homenagem a Max Mallmann”, publicados em 2016, no Jornal O Extra. Neste mesmo ano, saiu o artigo “O olhar contemporâneo na releitura do moderno: A lição de anatomia do temível Dr. Louison”, publicado pela Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, da Universidade de Brasília. Foi quando eu já estava redigindo este texto, em 2015, que conheci o Enéias.  

Enéias Tavares: É engraçada essa sincronia de interesses. Eu sempre tive uma frustração, como a valorização que a literatura realista tem na escola, saindo do ensino médio não apenas desgostando da nossa tradição nacional como também com a impressão – errônea – de que ela era sem graça, pouco inventiva, nada fantástica. No final de 2013, eu estava imerso na minha tentativa de reverter essa situação com Brasiliana Steampunk, série que tinha por meta realocar os nossos heróis canônicos em situações e contextos fantásticos. Ao fazer minha pesquisa sobre o que eu poderia usar do século XIX para compor o mosaico literário que se tornaria Lição de Anatomia, esbarrei nos dois textos do Bruno. Na época, imaginava um senhor bem experiente e de certa idade, pela clareza do texto, pela precisão das informações e também pelo teor enciclopédico dos dois textos. Anotei o nome dele, como sempre fazemos, para posterior contato, o que quase nunca acontece. Quase dois anos depois, quando Lição de Anatomia já tinha sido publicado, sou surpreendido por este cara super jovem e entusiasmado que veio pedir meu autógrafo. Isso aconteceu na Odisseia de Literatura Fantástica de 2015. Depois de cinco minutos, descobrimos uma paixão comum, Anne Rice, o que é uma ótima forma de iniciar uma conversa e uma amizade. Depois disso, me dei conta de que estava falando justamente com o autor dos dois textos da Bang! que tanto tinha me impressionado. Ou seja, mesmo que indiretamente, Bruno esteve presente na criação de Brasiliana Steampunk. Desde então, nossa amizade e essa pesquisa compartilhada, pois ambos somos acadêmicos de letras e estudos literários na universidade, eu na UFSM e ele na USP, apenas se fortaleceram, culminando na exposição que agora trazemos ao público.

CosmoNerd: O quão trabalhosas foram as pesquisas?

Bruno Anselmi Matangrano: Talvez uma das questões mais trabalhosas ao se fazer um levantamento de publicações antigas, seja, justamente, encontrá-las. Nisso, as bibliotecas digitais têm colaborado muito, mas nem sempre resolvem a questão. Exemplifica isso o livro Signos, do simbolista Nestor Vítor, uma obra publicada em 1897, nunca reeditada ou digitalizada. Antes mesmo de escrever o primeiro artigo da Bang!, tentei encontrar de todas as formas algum exemplar deste livro e acabei encontrando somente um, na Biblioteca de Obras Raras da Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. No entanto, a obra não estava disponível ao público. Após muitas trocas de e-mails, ligações e uma visita ao Rio de Janeiro, consegui comprar uma cópia em microfilme (um recurso bastante moderno!), somente após provar que o material seria importante para meu então futuro projeto de doutorado dedicado aos simbolistas. Finalmente, em posse deste material, consegui lê-lo, com a ajuda de leitores de microfilme da Universidade de São Paulo (USP). E, de fato, valeu a pena o esforço.

Enéias Tavares: Quando começamos a trabalhar no projeto do Fantástico Brasileiro, ainda não havia a exposição em vista, e sim a ideia de um livro que iria ser o nosso “História Concisa da Literatura Fantástica no Brasil” – numa alusão ao clássico estudo de Alfredo Bosi. Ficamos um ano apenas conversando sobre isso, esboçando o projeto dessa pesquisa para registrarmos na UFSM e definindo quem iria trabalhar com qual autor. Mas o projeto não avançou. Foi apenas quando propus aos colegas do Departamento de Difusão Cultural da UFRGS um evento em parceria com outro que estava organizando para na UFSM é que a ideia da exposição surgiu. Como eles tem no hall da reitoria um espaço para exposições, propus a ideia. Confesso: foi uma loucura, pois isso aconteceu em janeiro de 2017 e como disse, não tínhamos avançado muito. Mas Bruno é como eu, um tanto obsessivo e determinado e como todo acadêmico e escritor, sabe que algo fundamental para fazer qualquer projeto deslanchar é o prazo. Então foram três meses bem intensos, partindo do que Bruno já tinha pronto dos artigos que publicara na Bang! e correndo atrás do resto – de informações e imagens. Felizmente, tivemos a adição da designer Jessica Lang, que compreendeu o prazo apertado e a importância dessa exposição. Também registro aqui meu agradecimento aos parceiros do DDC/UFRGS, Claudia Boettcher, Sinara Robin e Rafael Derois Santos: sem eles, a exposição não teria se realizado.

CosmoNerd: Gostaríamos de saber sobre as motivações particulares de vocês nesse projeto. Haveria uma preocupação em fortalecer a literatura fantástica de forma institucional na educação brasileira?

Bruno Anselmi Matangrano: Sem dúvida, essa preocupação existe, e ela não é apenas nossa. E tampouco começou conosco. Além disso, ele vem em duas frentes: na educação escolar e na universitária. De um lado, vemos cada vez mais autores conquistando espaço junto a escolas em todo o Brasil, para falar de literatura fantástica. Felipe Castilho, Christopher Kastensmidt, Simone Saueressig, Christian David, e, é claro, o próprio Enéias, são exemplos deste esforço. Do outro lado, na academia, temos visto surgir por todo o país núcleos de estudo e centros de pesquisa dedicados às vertentes do fantástico. Destaco, por exemplo, o grupo da UERJ, que organiza anualmente o congresso Vertentes do Insólito Ficcional, publica regularmente livros teóricos dedicados ao assunto e edita a revista temática Abusões. O mesmo tem acontecido em universidades como UNESP, USP, UFPE, dentre outras. A UFSM também se destaca nesse sentido, graças aos esforços do Enéias, que, além de orientar teses e dissertações voltadas a autores e obras fantásticas, organizou em 2016 e 2017 o encontro acadêmico dedicado à literatura fantástica, mercado editorial e formação de leitores. Como ele disse, foi este evento que acabou resultando na primeira temporada da exposição O Fantástico Brasileiro: o insólito literário do romantismo à contemporaneidade.

Enéias Tavares: Eu cresci com a ideia de que literatura fantástica, assim com quadrinhos e histórias de aventura e horror, não são coisas sérias. Quando entrei no curso de Letras, essa ideia foi reforçada, especialmente pela centralidade – compreensível mas hoje mais e mais revista – dada à literatura canônica ou clássica. Quando Brasiliana Steampunk foi publicado eu tinha medo de estar mexendo num vespeiro: “Como assim literatura fantástica com heróis canônicos da nossa tradição?!” Mas para a minha surpresa, a reação foi e tem sido diferente. Todos nós, professores e educadores, estamos preocupados com a formação de jovens leitores e com a valorização da literatura. Então, os velhos preconceitos estão pouco a pouco morrendo de inanição, uma vez que todos percebem que, no caso de jovens leitores, “proibir livros populares” e “obrigar livros clássicos”, é igualmente prejudicial e nocivo, senão inútil. Jovens não querem ler os livros que lhe são indicados. Jovens, assim como todos nós, não?, desejam ler os livros que bem quiserem! E esta valorização da literatura fantástica na universidade e na escola hoje parte, na minha opinião, dessa compreensão. Outro desafio similar é aquele voltado à tecnologia. Não cabe ao professor contemporâneo proibir celulares e computadores. Cabe a este professor descobrir como potencializar essa ferramenta para o ensino e a aprendizagem. Acredito que a exposição possa cumprir um papel bem importante neste sentido, comunicando a professores uma série de obras fantásticas que podem ser sugeridas em sala de aula. 

CosmoNerd: Além das cidades já anunciadas, há intenção de visitar mais algumas (por favor, venham pra Fortaleza!)?

Bruno Anselmi Matangrano: Por enquanto ainda não sabemos. Estamos negociando parcerias com algumas universidades e recebemos alguns convites também que podem resultar em ações bem legais. Tudo depende da possibilidade de encontrarmos instituições parceiras e patrocínio. Ainda não podemos divulgar muita coisa, mas posso adiantar que a exposição ainda vai visitar muitos lugares, antes de, enfim, voltar para sua terra natal e ser instalada permanentemente no Centro de Documentação e Memória da UFSM, projeto idealizado pelo Laboratório Corpus e apoiado pelo Centro de Artes e Letras da universidade de lá. Mais alguma novidade sobre isso, Enéias?

Enéias Tavares: Nosso sonho é levar a exposição para outras capitais, como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, para depois a instalarmos na UFSM. Eu prevejo – e aqui falo por mim, uma vez que ainda não discuti isso com o Bruno – um portal virtual super bacana e lúdico com todo o conteúdo da exposição, podendo ser acessado por qualquer leitor, professor ou interessado em qualquer parte do Brasil. Mas é claro, as exposições presenciais dão uma visibilidade muito especial, além de convidarem os visitantes a uma experiência diferente de leitura e reflexão, uma experiência mais pública e coletiva, ao invés da privada e solitária que comumente associamos ao texto literário. Quanto a Fortaleza, faremos o máximo. Eu prometo, especialmente com o apoio dos grandes amigos do CosmoNerd. Assim que tivermos notícias mais concretas, vamos anunciar em nossa página no Facebook: https://www.facebook.com/fantasticobrasileiro/ 

CosmoNerd: Há previsão dessa exposição ganhar um catálogo? Vocês mencionaram em algum momento que a ideia original para este projeto era um livro. Ele ainda está nos planos?

Bruno Anselmi Matangrano: Sim, e estamos muito felizes com isso, sobretudo porque para a exposição havia uma limitação física: cada painel compreendia apenas 1000 palavras, de modo que muitas obras e autores tiveram de ficar de fora. Eu particularmente tive bastante dificuldade de seguir esse limite... Mas foi necessário. A boa notícia é que boa parte deste material, que já está pronto, inclusive, deverá integrar o catálogo da exposição, previsto para o ano que vem.

Enéias Tavares: O que temos de concreto é o interesse do DDC/UFRGS de produzir o catálogo junto conosco e uma editora interessada. De qualquer modo, prevemos seu lançamento para o próximo ano, o que comemoraria um ano do lançamento da exposição na UFRGS. Sendo o catálogo uma extensão da exposição, sua natureza será também mais informativa do que crítica. Esta dimensão é a que teríamos em um eventual livro. Mas por hora não temos nada de concreto nesse sentido, uma vez que a exposição e o catálogo dela nos tomará bastante tempo. Mas indiferente de quanto tempo continuarmos dedicando a este belo projeto, estaremos em excelente companhia: dos heróis e heroínas, reais ou ficcionais, que formam o nosso Fantástico Brasileiro!

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