Resident Evil 2 – Remake (Capcom) | Crítica

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Resident Evil 2 – Remake mostra como dar um novo sopro de vida (ou morte) sem perder o charme de uma das mais famosas franquias dos games

O gênero survival horror está estabelecido no mundo dos games e Resident Evil é seu pai e criador. O jogo original, criado pela CAPCOM em 1996 para o PlayStation original, foi um completo marco nos jogos eletrônicos, mostrando que o clima de terror, suspense e morte não se limitava às telonas dos cinemas. Zumbis, cachorros-zumbis e outras atrocidades que habitavam cada corredor da enorme mansão dos Spencer deixavam todos os jogadores com o coração acelerado em expectativa cada vez que a câmera mudava de ângulo e a cada porta nova que se abria, em uma pequena cena de tirar o fôlego.

O estrondoso sucesso do primeiro jogo fez a empresa logo preparar seu sucessor e Resident Evil 2 (1998) não tardou em atingir o mesmo patamar de sucesso, alavancando a franquia para voos ainda mais altos e talvez colocando-se como um dos jogos que mais está no imaginário dos jogadores do fim dos anos 90 e início dos 2000. A partir daí Resident Evil estabeleceu-se como uma das mais famosas franquias de jogos com mais de uma dezena de títulos, desde a série principal (que hoje vai até o sétimo jogo) até spin-offs (como a série Outbreak, Revelations, entre outras).

21 anos depois do sucesso de Resident Evil 2, a CAPCOM lança um remake completo, algo que ela já havia feito com o primeiro jogo, lá em 2002 para o Game Cube, e relançando novamente em 2015 para o PlayStation 3 e Xbox 360 (e depois para o PS4 e Xbox One). No entanto, diferente do primeiro, esse remake seria completo, trazendo a mesma engine usada em Resident Evil 7, mas com a perspectiva em terceira pessoa (que também nasceu lá em Resident Evil 4). O resultado foi um jogo espetacular que, ao mesmo tempo em que é nostálgico para fãs de longa data da série, também é novo, fresco e desafiador.

Raccoon City 21 anos depois

A ambientação da Raccoon City dizimada pelo T-Virus e infestada de zumbis, apesar de não ser totalmente igual ao jogo original em termos de layout, possui a mesma sensação de pesadelo vivo que sentíamos. Todos os mapas do jogo original, desde a Delegacia de Polícia até os esgotos de Raccoon City, tiveram alterações sensíveis, isso foi algo deliberadamente feito para que os jogadores acostumados com o jogo original pudessem ter novas surpresas a cada área explorada e continuar num clima de tensão e expectativa, além também de alguns puzzles, localização de objetos, documentos, munição e itens em geral.

É perceptível o cuidado que os produtores tiveram em manter as coisas novas, mas ao mesmo tempo trazendo total nostalgia. O jogo não é repleto de fan-service, mas mantém o suficiente para que a criança de 1998 que habitava em mim pudesse se empolgar com cada lembrança que era sutilmente colocada em cada ambiente do jogo. Leon colocando sua clássica roupa de policial, por exemplo, é uma dessas cenas que arrepia.

Os zumbis do jogo talvez sejam os modelos de zumbis mais realistas que já vi, com claras inspirações em filmes como A Volta dos Mortos Vivos e The Evil Dead, os modelos impressionam especialmente nas sequências cinemáticas onde seus rostos podem ser vistos de perto. Dos narizes caídos as bocas em decomposição passando por olhos fora de suas cavidades, além de uma quantidade significativa de diferenças entre cada zumbi, tudo mostra um impressionante trabalho de caracterização feito pela CAPCOM. Obviamente, mais a frente no jogo você poderá perceber um ou outro modelo reutilizado, mas nada disso estraga sua experiência em estourar os miolos de cada um.

Dito isso, graficamente falando, o remake de Resident Evil 2 está a par com o que há de mais impressionante hoje em visuais e apresentação. Anda de mãos dadas com jogos como os mais recentes God of War e Red Dead Redemption 2, para dar uma pequena ideia, na sequência inicial, onde um caminhoneiro come um hambúrguer enquanto dirige por uma estrada, é possível ver ele limpando os dentes com a língua com a boca fechada, isso sem contar detalhes de cabelos, pele (é possível ver espinhas no rosto do jovem Leon), roupas e armas. Acredito que este seja um dos trabalhos de motion capture mais realistas dentro de um jogo eletrônico já feito por algum estúdio, um trabalho primoroso da CAPCOM graças a Rengine, que foi o motor de física e gráficos utilizado.

No jogo original, um dos maiores elementos de tensão se dava com os ângulos fixos de câmera, você não sabia o que te esperava ao dobrar o corredor, isso aliado ao som (especialmente sons de zumbis), criavam uma atmosfera ideal para o jogo. Com a visão sobre os ombros do personagem esse elemento de expectativa não existe desta maneira, porém os desenvolvedores conseguiram aliar a atmosfera ainda mais escura: diversos corredores sem iluminação com o personagem usando uma lanterna, diferente do que ocorria no original, obstáculos e fumaça em cada área, você ainda não consegue saber exatamente o que te espera a frente, aliando isso ao espetacular som em três dimensões desenvolvido pela CAPCOM, a atmosfera de terror e suspense que o remake traz continua extremamente fiel e ainda mais assustadora.

Leon e Claire, de volta ao pesadelo

Assim como no jogo original, você pode jogar nas campanhas de Leon e Claire (haverão DLCs gratuitos te colocando na pele de outros personagens, mas vamos nos ater aqui as campanhas principais), cada um dos personagens possuem diferenças significativas na história, porém os cenários serão cerca de 90% iguais em ambas campanhas.

Confesso que antes de pegar o jogo tinha certa expectativa que os cenários seriam completamente diferentes, com Leon iniciando dentro da Delegacia e Claire em um outro caminho, algo para fazer diferente do original porém não é bem assim. Após terminar a campanha de um dos personagens, você habilita o Cenário B do outro, é um cenário um pouco mais desafiador com um início um pouco diferente, mas ainda assim bem semelhante ao primeiro cenário. Outras diferenças nas campanhas são algumas armas – Leon possui o lança-chamas e sua icônica escopeta, enquanto Claire possui um arsenal mais vasto, com duas pistolas, sub-metralhadora e uma arma de choque, além do clássico lança-granadas.Fora isso o acesso a determinadas áreas do mapa é diferente, mas outros elementos permanecem os mesmos, ambos pegam os mesmos itens, derrotam os mesmos chefes e resolvem os mesmos quebra-cabeças para avançar determinadas partes da história.

Outro elemento do jogo que vale a pena mencionar é que em determinado ponto o monstro chamado Tyrant (ou, um pouco mais brega, Mr. X) passa a te perseguir. No começo a sensação de perseguição, a música que ecoa quando ele entra na mesma área que você, as passadas ficando cada vez maiores são bastante tensas e assustadoras, mas após um determinado tempo passam a ser, de verdade, um pouco chato e não tão tenso assim (ainda que abrir uma porta para dar de cara com o monstro e levar um belo soco na cara chega a ser engraçado).