Coringa, Stanley Kubrick e a eterna discussão sobre os limites da arte no cinema

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Joaquin Phoenix como Coringa

“Você faz as mesmas perguntas todos os dias: ‘Como vai seu trabalho? Está tendo pensamentos negativos?’ Só o que eu tenho são pensamentos negativos.” – Arthur

Assisti Coringa alguns dias atrás. Depois de vê-lo, passei a ler diversos textos – com opiniões divididas – sobre o filme. Mesmo sem a necessidade de escrever sobre ele, algo me inquietava. Bem, pois assim como Arthur Fleck gradativamente alimentou-se da repulsa da sociedade de Gotham para dar vida à persona do Palhaço do Crime, nasce agora um texto fortalecido pela leitura de diferentes outros textos que, mesmo reconhecendo o valor da obra de Todd Phillips (Se Beber, Não Case; Cães de Guerra), reduziram seu brilho ao destacar uma propensa incitação à violência.

Como todos sabemos, o longa de Phillips traz o icônico personagem dos quadrinhos para as telas de forma nunca vista antes. A ideia do diretor era fazer um estudo de personagem mostrando todas as nuances que contribuíram na transformação desse “ser humano comum” em um símbolo do caos. Mas veja bem, antes de mais nada é bom que fique claro: Arthur não é um ser humano comum (vide as aspas). Ele é um sociopata. O filme apenas manipula nossas mentes para que tenhamos empatia pelo personagem, retratado como um infeliz, dependente de remédios para problemas mentais, que é massacrado diariamente pela sociedade – lembrando que toda a história parte de seu ponto de vista.

Outro filme que faz isso de forma brilhante é Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick. Lembram? O ultraviolento Alex DeLarge (Malcolm McDowell) narra suas cenas estabelecendo uma dinâmica de cumplicidade com o espectador. Esse artifício fragiliza nossas defesas, confundindo-nos, e abrindo caminho para que em silêncio torçamos por um final feliz para o repugnante personagem. O longa, que na época também foi acusado de incitar a violência – fazendo com que o próprio diretor pedisse para a Warner Bros. que o tirasse de exibição na Inglaterra – é hoje reconhecido como um dos grandes clássicos do cinema.

Kubrick acreditava que em essência a arte cinematográfica deveria ser acima de tudo provocativa. O diretor sempre buscava por temas que mexessem com o público e, por isso mesmo, só lhe interessavam assuntos mais polêmicos. Retratados também de forma a incomodar. Ou seja, para ele o papel do cinema seria fazer o espectador questionar sua realidade.

Por que estou dizendo isso? Simplesmente por que a arte – e isso inclui nosso apaixonante cinema – é um espelho da sociedade. Ela retrata o que enxerga do outro lado (o nosso), podendo se tornar uma poderosa fonte de discussão e, sobretudo, reflexão. Se filmes como Laranja Mecânica e Coringa tornam-se gatilhos para pessoas imaturas psicologicamente – fragilizadas em seus superegos –, isso não deve nunca (ou não deveria) reduzir o alcance da obra, que traz em sua essência propósitos bem mais grandiosos.

Arthur vira o Coringa

Assim como Kubrick, Todd Phillips em seu filme também ambiciona cutucar vespeiros, abrindo a tampa do lixo e jogando na nossa cara várias mazelas dos “tempos modernos”. Descaso do poder público, desigualdade de classes em uma escala abissal, falta de solidariedade com a dor do outro, tudo isso funcionando como uma fábrica de construção de insanidades. Você tem todo direito de entender que o filme glorifica os atos do Coringa e, consequentemente, a violência – lembrando mais uma vez que ele parte do ponto de vista do protagonista, que pode manipular a história como bem entender –, mas deve abrir-se também para outras leituras, levando em consideração que seu verdadeiro propósito não é legitimar tal violência e sim combatê-la, revelando sua face no espelho.

Polêmicas à parte, Phillips dá vida a uma experiência que há muito não se via nos cinemas. Um gigantesco deleite para apreciadores da sétima arte com a sanidade em dia, que traz uma atuação arrebatadora que marcará para sempre a carreira do ator Joaquin Phoenix (Ela; Você Nunca Esteve Realmente Aqui). Um filme tão bom quanto incômodo, responsável por provocar sensações inquietantes como a boa arte deve ser. Para Coringa (2019), quer você goste ou não, o destino é ingressar sorridente na galeria dos grandes.

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