Charles Luis Castro

3 maio, 2021

Filmes

Genérico e sem alma, Sem Remorso não consegue aproveitar o carisma de Michael B. Jordan

Os filmes de ação produzidos nos últimos anos parecem seguir uma mesma premissa: o cara, aparentemente, comum que, após um evento trágico envolvendo entes queridos, se revela um habilidoso e praticamente imparável combatente. Liam Neeson fez isso com sua franquia Busca Implacável, assim como Keanu Reeves e o rico universo de John Wick. Até Chris Hemsworth entrou nessa pelas mãos da Netflix. Em comum, os longas compartilham de uma história simples que é preenchida por cenas de tiroteios e lutas bem coreografadas. Pouco importam as motivações, o espetáculo visual é bem mais interessante. Sem Remorso, lançado pela Amazon Prime Video, bebe dessa fonte. Porém, sem o mesmo requinte de seus companheiros.

Baseado no livro homônimo de Tom Clancy, o filme acompanha o SEAL John Kelly (Michael B. Jordan) que é perseguido por militares russos após uma missão suspeita na Síria. Ao retornar aos EUA, seus companheiros de equipe e sua esposa grávida são mortos. Movido por vingança, ele irá enfrentar inimigos poderosos em busca da verdade. A premissa é extremamente clichê e sua execução beira o comodismo. Ao optar por mesclar uma trama de espionagem internacional com drama pessoal, o roteiro não trabalha bem com nenhuma dessas vertentes.

Em projetos desse tipo, onde uma história muito elaborada não costuma funcionar, é importante apoiar-se no carisma do protagonista. No entanto, o trabalho de escrita de Taylor Sheridan e Will Staples tira todo o peso de sua estrela. Michael B. Jordan não tem muito o que fazer com seu personagem unidimensional, uma encarnação vazia do ódio que constantemente toma decisões de inteligência questionável. As cenas de ação são satisfatórias, mas faltam momentos em que ele possa processar as perdas que sofreu. Um pouco de interação emocional com o público mudaria esse panorama.

Apesar de várias mudanças, Sem Remorso mantém a mesma discussão base do livro original sobre patriotismo e militarismo, além do pano de fundo da tensão entre EUA e Rússia. Essa revitalização da Guerra Fria poderia ganhar contornos muito mais interessantes caso os personagens secundários não fossem tão caricatos. Nomes como Jamie Bell e Guy Pearce são subaproveitados. Logo, toda a tensão geopolítica é diluída em arcos confusos de traição sem nenhuma criatividade. Sei que disse que a história não costuma importar muito em filmes assim, mas isso não é um precedente para entregar algo tão insosso.

Contudo, Sem Remorso entrega algumas boas sequências de ação. Destaque especial para uma que envolve um avião afundando, do tipo que te deixa sem fôlego. Ainda assim, nada que beire o inesquecível. A direção de Stefano Sollima carece de inventividade, especialmente se levarmos em conta que boa parte dos personagens são militares muito bem treinados. Nas mãos de um profissional mais competente, o filme certamente alcançaria outro patamar no meio de tantos exemplares de ação genéricos.

Durante o encerramento, Sem Remorso deixa clara a ideia de estabelecer um universo de filmes baseados nas obras de Tom Clancy  encabeçado por Michael B. Jordan. A própria Amazon investiu na nova série de Jack Ryan protagonizada por John Krasinski. Porém, numa realidade onde todos querem ter uma franquia própria, essa iniciativa começa da pior maneira possível.

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