Edipo Pereira

18 ago, 2020

Filmes

Longa estrelado por Jamie Foxx traz conceitos interessantes mas peca na execução

Nada como uma boa edição de vídeo: o trailer de Power (Project Power, 2020), longa original da Netflix que acaba de chegar ao serviço, me deixou com uma considerável expectativa, dada a qualidade dos nomes no elenco, os bons efeitos especiais e os envolvidos nos bastidores da produção. Me decepcionei um pouco? Sim.

A trama se desenrola na cidade de New Orleans, após a chegada de uma misteriosa nova droga que confere habilidades especiais aos seus usuários. O problema é que esses super poderes variam de acordo com cada pessoa, não sendo possível saber previamente qual será. Isso gera um início de caos na cidade, com o número de viciados aumentando junto com o nível de crimes e deterioração urbana.

Nesse cenário, temos três personagens centrais que irão motivar a história. Robin (Dominique Fishback) é uma garota pobre que anda traficando a droga com o objetivo de juntar dinheiro para ajudar sua mãe doente e seguir seu sonho como cantora de rap. Às vezes junto dela está o policial Frank (Joseph Gordon-Levitt), um sujeito que se complicou com a corporação e busca proteger a cidade. Correndo por fora, temos o misterioso Art (Jamie Foxx), um ex-soldado que tenta rastrear a origem do tráfico desse novo entorpecente.

Além do supracitado trailer, outro motivo para o hype foi o fato de ser uma produção que envolve super poderes, que é um dos principais elementos narrativos usados dentro do mundo nerd e geek. Antes de nos interessarmos pelos dilemas adolescentes do Peter Parker, tínhamos como atrativo inicial o fato dele soltar teias e combater o crime por aí, numa fantasia bem chamativa estampando a capa da HQ. Obviamente, isso vale para outros personagens como Batman, Superman, Capitão América etc. Desse modo, essa era uma oportunidade da Netflix beber dessa rica fonte, a dos quadrinhos, ao mesmo tempo que apresentaria ao público personagens inéditos.

Super poderes de Project Power, da Netflix, vêm de acordo com características dos animais

Em Power, esses poderes vêm através da droga e de modo aleatório, como já dissemos. O detalhe é que seu conceito é baseado nas características dos animais, como a capacidade de camuflagem de um polvo, a auto regeneração de um réptil ou a velocidade de corrida de um felino. A verdadeira motivação por trás dessa droga é econômica, onde a população está sendo usada como cobaia para que a indústria farmacêutica lucre absurdamente após a sua estabilização. Isso tudo está ocorrendo com forças militares atuando junto.

Até aqui, tudo certo. O filme da Netflix consegue colocar suas cartas na mesa, e seus personagens possuem certo carisma. Mas aí os problemas começam, e o prazer de assistir ao longa vai indo embora.

Pra começo de conversa, o roteiro é uma bagunça. Mattson Tomlin não consegue escrever algo que una os personagens de forma genuína, deixando lacunas de desenvolvimento em todo canto. As piadas estão mal colocadas, a temática paterna proposta é pouco explorada e a qualidade do que poderíamos chamar de vilões é praticamente inexistente. Isso se reflete principalmente no brasileiro Rodrigo Santoro, relegado ao esteriótipo do latino traficante e excêntrico, que só serve para apresentar um pouco sobre a droga e é descartado como lixo pela trama (repare que ele parece um cosplay do Renan do Choque de Cultura). Isso até poderia passar caso houvesse um antagonismo maior vindo de outro lugar (seja na forma de um personagem ou algo mais abstrato como uma organização), o que não acontece.

Fica o alerta aqui: é esse cara que está assinando o roteiro de The Batman, próximo filme do Homem-Morcego que é dirigido por Matt Reeves.

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O brasileiro Rodrigo Santoro, numa espécie de Renan do Choque de Cultura dentro do longa da Netflix

Por falar em direção, a dupla Henry Joost e Ariel Schulman até consegue imprimir coisas interessantes, principalmente em relação a efeitos especiais. Os poderes são esteticamente bem trabalhados e não soam superficiais, salvo em passagens pontuais. A ação está dentro da cartilha do gênero, inclusive nos defeitos, quando temos abuso de recursos como câmera lenta. Vale um elogio para a montagem dos cenários, como na primeira sequência de ação envolvendo Art e o traficante Newt (Colson Baker) num cortiço.

As atuações não são das piores. A jovem Dominique Fishback, presente na excelente e injustiçada série The Deuce, é uma figura interessante junto com os medalhões que são Jopseh Gordon-Levitt e Jamie Foxx. Dos dois, o último é o que faz um papel que foge mais do seu habitual, mostrando um homem que busca sua filha a todo custo, mas sem perder uma pose de canastrão. Todos eles, no final das contas, acabam negligenciados pelo texto.

No final das contas, parece que Power careceu de um material base de qualidade para os produtores seguirem e entregarem algo de melhor qualidade. É interessante como a indústria dos quadrinhos acabou se reclusando a nichos, ao mesmo tempo que serve de balão de ensaio para produções mais caras como filmes e séries, inclusive na parte da validação com o público. The Old Guard, Resgate e Warrior Num que o diga.

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