O Clube dos Canibais | Crítica

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O Clube dos Canibais

Terror brasileiro diverte, assusta e atenta para problemas atuais

O terror e a comédia sempre foram gêneros que conversaram bastante e trouxeram bons filmes para nos divertir e assustar. E atualmente, tivemos as obras de Jordan Peele, Corra! e Nós, como bons exemplos que permeiam os dois gêneros. E o mais novo filme brasileiro, O Clube dos Canibais, acaba de entrar para a lista de “ótimos terror”.

Confira nossa crítica sem spoilers de O Clube dos Canibais.

O filme é o mais novo projeto do fortalezense Guto Parente (Inferninho). Nele, acompanhamos a vida de Otávio (Tavinho Teixeira) e Gilda (Ana Luiza Rios), dois representantes da alta sociedade de Fortaleza e que possuem um prazer em comum: comer a carne dos caseiros que trabalham para eles. Eles acabam se complicando quando descobrem podres de Borges (Pedro Domingues), líder do Clube dos Canibais do qual Otávio faz parte.

Elite comedora de carne humana

O filme é uma gostosa crítica e paródia da elite brasileira, extrapolando conceitos para mostrar que eles, literalmente, comem a carne dos pobres. Apesar de ter bastante gore, o longa é divertido de assistir, muitas vezes não levando nada a sério, mas trazendo uma boa tensão nas cenas com mais terror envolvido. Lógico que ele possui uma temática tensa, que mistura violência com sexo das formas mais bizarras possíveis, mas tudo isso é passado de uma forma jocosa. Parece que todos os atores estavam se divertindo no set.

Por falar nisso, temos ótimas atuações do casal principal e do principal “vilão” do filme. Tavinho traz uma atuação mais canastra, uma paródia do homem rico que não está nem aí para seus empregados. Nessa cenas o filme fica mais sério, pois esses pobres que trabalham para a elite vivem um terror real no dia a dia, tendo liberdades e prazeres cortados para “servir” a seus patrões. Já Ana Luiza faz a clássica socialite que não faz nada da vida e trai o marido. Fechando o arco temos Pedro Domingues, representando a elite brasileira demagoga e contraditória, que busca valores tradicionais, mas usa isso como uma máscara.

Os textos que colocam para esses atores são maravilhosos, tudo muito bem acentuado com o sotaque cearense, deixando tudo muito mais divertido. Em certos momentos, acaba ficando confuso se o longa estava querendo ser sério ou não, com diálogos tão esquisitos que o expectador precisa estar preparado para receber aquilo tudo como uma paródia.

Em muitos momentos nos divertimos, mas quando o filme quer ser tenso ele consegue. Nesse caso, temos um ponto positivo principalmente para a trilha sonora de Fernando Catatau, que traz uma mistura de jazz, blues e sintetizadores no melhor estilo John Carpenter para criar um clima de high society e terror ao mesmo tempo.

Conclusão

O Clube dos Canibais consegue ser muita coisa: sexy, violento, perturbador, político e, principalmente, divertido. Uma prova que o Brasil  (e principalmente o Nordeste) pode sim produzir filmes de terror sem cair para o trash. Temos sim muito gore e violência aqui, mas tudo muito bem produzido em um filme que sabe a hora de se levar a sério e quando ser zueiro. Lógico que essa confusão de narrativas acaba atrapalhando o ritmo e mensagem do longa, com cenas longas demais que não ajudam muito na narrativa e outras mais catárticas que poderiam ter sido melhor desenvolvidas.

Mas, apesar disso, O Clube dos Canibais consegue ser uma diversão escapista e crítica política, ambos de forma efetiva.