Emilson Rodrigues

25 fev, 2021

Filmes

O monstruoso e imenso erro em querer mexer com as emoções trocando o básico de construção de roteiro por alguns bons efeitos especiais e a braveza exacerbada de Milla Jovovich

Criaturas gigantes de outro mundo sendo derrotadas por uma bela militar com espadas energizadas parece ser a sinopse perfeita para um filme de ação. Para o grande público que não sabe a origem de Monster Hunter, uma série de jogos digitais de fantasia da Capcom, é provável que a divulgação do filme que tem o mesmo título agrade. Por outro lado, quem conhece o histórico de poucos sucessos de adaptações de games para o cinema não deve se animar com um pôster bem produzido e um trailer empolgante. E a situação piora quando se descobre que o diretor é Paul W. S. Anderson, o mesmo da criticada franquia Resident Evil, adaptada também de um game de sucesso.

A história de Monster Hunter começa com um grupo de soldados indo em busca de uma equipe de aliados desaparecida numa região inóspita. Após uma tempestade misteriosa, a tenente Natalie Artemis (Milla Jovovich) e seus amigos são transportados para o “novo mundo”, um lugar intimidador com bichos perigosos, criando, assim, a necessidade de se lutar pela sobrevivência.

É inteiramente possível que por trás da percepção dos nossos sentidos, novos mundos estejam escondidos dos quais são totalmente desconhecidos”. É com esta frase, sem citar autor e filosófica demais para o vem a seguir, que Monster Hunter começa, trazendo assim uma das muitas perguntas sem respostas, antes mesmo da primeira cena. Existem dois momentos em que Artemis representa bem o espectador mais curioso. Ao se deparar com situações inusitadas, a protagonista pede para Hunter, um caçador do mundo paralelo, uma explicação para o que presencia e o personagem, por não falar a sua língua, não responde nada e fica por isso mesmo. E é desta maneira preguiçosa que o filme lida com seu universo. Só resta aceitar que barcos navegam em dunas e raios coloridos saem delongas espadas. É um mundo de fantasia em que as características não são estabelecidas, deixando assim brecha para qualquer interpretação.

Por mais que não haja tempo para criar interesse pela tripulação de Admiral (Ron Pealman) e nem pelos os companheiros de Artemis, logo nos primeiros minutos existem duas cenas introdutórias que buscam empolgar com situações de perigo. No entanto, pela grande quantidade de personagens apresentados, fica a sensação de que é cedo demais para tanto barulho. Praticamente todo o elenco é desperdiçado, restando a atenção apenas para a evolução da relação entre Artemis e Hunter, que, no fim, não serve para grandes coisas. É até difícil entender como conseguiram tantos nomes para colocar em destaque nos créditos finais, já que não existe a história de quase nenhum personagem. A atriz brasileira Nanda Costa não tem sequer 30 segundos em cena e Ron Pealman é quase uma mera participação especial. Milla Jovovich é a que tem melhor material para trabalhar, o que não significa que não tenha problemas.

Não é nada sutil como empurram Artemis para a posição de protagonista.Um exemplo disto é quando Admiral não leva em consideração os poucos dias em que ela está naquela região e oferece ajuda para levá-la para casa, mas em troca ele espera que Artemis, uma turista desinformada que caiu ali sem pára-quedas, batalhe contra um monstro quase impossível de matar. Esse tipo de incongruência se estende por todo o filme e tem alguns erros bobos, como o chocolate bem durinho que resistiu a horas no deserto dentro do bolso da Artemis.

Apesar de ser uma personagem simpática, Artemis não é crível quando passa por cima de seus medos e traumas com tanta facilidade e parte para cima de monstros que parecem Titãs da mitologia grega como se fosse lutar com uma legião de galinhas. Artemis ainda é um ser humano e o roteiro ignora isso ao transformá-la em uma superguerreira, fazendo-a estar com fôlego para batalhar sempre que for preciso. Se o “novo mundo” é capaz de criar superconfiança e força em humanos comuns, isso é só mais uma das perguntas sem respostas. A única justificativa que não pode ser é treinamento militar dos Estados Unidos.

É um entretenimento visualmente agradável pelo menos. Apesar de pouca diversidade nas locações, os cenários são selvagens o suficiente para combinar com a proposta de ser um lugar em que caça e caçador coexistem. A maioria dos efeitos especiais atingem a expectativa. Diaboulus é interessante, mas o grande destaque fica para Rathalos, um dragão gigantesco cheio de detalhes impressionantes e que tem uma sequência admirável, que bem provável será recortada, editada para o YouTube e causará euforia excessiva em quem não viu o filme inteiro e sente falta dos dragões de Game of Thrones. No entanto, o gato Palico não teve a mesma sorte que os outros personagens e ficou com um visual com gosto bem duvidoso.

A trama é tão simples que é difícil reclamar que algum spoiler foi capaz de estragar alguma surpresa do filme. A única coisa que pode despertar algum sentimento são os jump scares, ou seja, um medo passageiro. Nem mesmo quando o vilão final aparece existe uma tensão ou torcida para Artemis vencê-lo, pois logo se percebe que é só um animal sendo atacado e querendo se defender. Falta razões para sustentar o clímax e o que se vê é uma sequência de obviedades, apesar do impacto visual.

Monster Hunter tem todos os elementos para um bom filme, mas se perde na escassez de boas ideias, acreditando que apenas monstros ferozes serão capazes de garantir seu lugar entre as gigantes franquias do cinema. Apostando em clichês como ter uma única chance para acertar algo em um lugar específico e conseguir com uma mira perfeita, o filme acaba com uma trilha sonora épica, mas emoção zero. Tem final surpresa logo no início dos créditos finais, mas acredito que vai dar tempo da maioria sair do cinema antes. A armadilha era fácil de identificar, mas agora é tarde para qualquer arrependimento.

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