Charles Luis Castro

14 abr, 2021

Filmes

Com poucos floreios, Fuja é um suspense bastante eficiente e objetivo

Parece ser uma opinião comum que filmes de suspense devem ser extremamente elaborados para causar o impacto pretendido no público. Um roteiro recheado de reviravoltas, resultando em um plot twist inesperado no final. Claro que vários filmes aclamados seguem essa cartilha, mas é sempre possível fugir do tradicional na hora de contar uma história dentro desse gênero. Fuja, longa que está fazendo sucesso na Netflix, se permite ir por outros caminhos. E mesmo que não seja inovador, é bastante consciente de sua premissa.

Lançado em 2020 pelo Hulu, o longa acompanha a jovem Chloe Sherman (Kiera Allen) uma garota que, devido complicações no nascimento, sofre com paralisia, asma, diabetes, arritmia cardíaca e outros problemas. Vivendo ao lado de sua mãe Diane (Sarah Paulson), ela sempre esteve cercada de cuidados extremos, o que nunca a impediu de sonhar com um futuro promissor. Quando um novo medicamento desperta suas suspeitas, ela passa a questionar as atitudes de sua protetora.

O principal mérito de Fuja está na objetividade na hora de contar a história. Sem muito espaço para floreios, o longa estabelece em poucos minutos a convivência entre mãe e filha e introduz a problemática da trama. Ao abrir mão da necessidade de plantar dúvidas na mente do espectador, a direção de Aneesh Chaganty opta por trabalhar em cima das obviedades. Isso resulta numa melhor exploração do ambiente - uma casa isolada - e um foco maior nas adversidades físicas e psicológicas enfrentadas pela protagonista.

Assim como em Buscando..., seu filme anterior, o diretor distribui bem o clima de tensão entre os blocos. Dessa forma a curiosidade do público é constantemente renovada, não pelo mistério em si, mas pela expectativa de acompanhar os desdobramentos de cada ação das personagens. O roteiro estabelece um jogo de sobrevivência, onde um dos lados está em clara desvantagem, elevando a sensação de angústia causada por obras desse tipo.

Essa abordagem funciona também pelo trabalho de suas atrizes. Sarah Paulson entrega um ar gentil ao mesmo tempo que transparece malícia através do olhar e de pequenos gestos. Se a revelação de suas intenções não é surpreendente, é prazeroso acompanhar a descoberta pelos olhos da protagonista. Já quando precisa subir o tom de sua atuação, mais precisamente no clímax, ela perde um pouco de brilho. Kiera Allen é o coração da obra, cativando o espectador com sua curiosidade e inteligência. Assim como a personagem, a atriz é uma pessoa com deficiência. Sua entrega física nos momentos de tensão torna tudo mais impactante, como, por exemplo, quando precisa se arrastar por um telhado.

Mesmo com tantos pontos positivos, Fuja não está livre de problemas. A maior parte deles presentes no último ato. Não que este seja ruim, entregando a mesma tensão dos blocos anteriores, mas acaba caindo na armadilha de precisar impactar quem está assistindo. E nem falo das conveniências narrativas, mas de algumas decisões criativas que resultam numa solução anticlimática. A presença de um epílogo para amarrar questões dramáticas levantadas ao decorrer da obra também não tem o desempenho esperado. Embora compreenda que isso é uma questão subjetiva.

Mesmo com problemas para encerrar seus trabalhos, Aneesh Chaganty consegue utilizar o básico para contar boas histórias. Isso é ainda mais considerável se levarmos em conta o gênero que ele escolheu para lançar sua carreira. Como diz o sábio: menos é mais.

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