Eddington (2025) | Crítica do filme de Ari Aster Eddington (2025) | Crítica do filme de Ari Aster

Eddington (2025) | Crítica do filme de Ari Aster

Ari Aster construiu sua carreira aterrorizando o público com o luto sobrenatural de “Hereditário” e o paganismo ensolarado de “Midsommar”. Depois de “Beau Tem Medo” (leia a crítica), Aster retorna com seu novo projeto, “Eddington“, e o diretor muda completamente de registro: agora, o horror é o nosso próprio reflexo no espelho da pandemia. O filme, tratado como uma “comédia” satírica, ambientada em uma pequena cidade do Novo México durante o surto inicial de Covid-19, é uma tentativa ousada e frenética de processar coletivamente a loucura que vivemos junto ao caos político e domínio das redes sociais. O resultado é um filme tão ambicioso quanto desajeitado.

A trama se passa em Eddington, uma comunidade fictícia onde as tensões latentes explodem com a chegada das máscaras e dos lockdowns. De um lado, o prefeito progressista Ted Garcia (Pedro Pascal) impõe restrições sanitárias. Do outro, o xerife Joe Cross (Joaquin Phoenix) se recusa a usar máscara, vê a medida como uma tirania e decide concorrer à prefeitura. Entre eles está Louise (Emma Stone), esposa de Joe, que oscila entre a depressão e o fascínio por um culto liderado pelo enigmático Vernon Jefferson Peak (Austin Butler).

Aster, que cresceu no Novo México, preenche a narrativa com observações locais afiadas: as instituições (xerifes, prefeitura, tribos indígenas) se esfregam desconfortavelmente; um gigantesco centro de dados (os famosos Data Centers) simboliza a internet como força que corrói a comunidade. “Eddington” é um faroeste, mas as armas são telefones e discursos vazios que buscam cooptar mais e mais pessoas.

Onde “Eddington” acerta?

O maior mérito de “Eddington” é como Aster não romantiza a pandemia nem se refugia em metáforas confortáveis. Ele joga na tela as divisões reais: o negacionismo, as teorias da conspiração, o ativismo de redes sociais, o movimento Black Lives Matter e o privilégio branco liberal; tudo isso sem medo de ser desconfortável.

Joaquin Phoenix entrega um xerife patético e fascinante: um homem que acredita genuinamente estar defendendo a “dignidade humana”, mas que é tratado com indiferença pela esposa e desprezo pela sogra conspiracionista (pela ótima Deidre O’Connell). Austin Butler, como o líder cultista, tem minutos de tela precisos e perturbadores. E acho que nem precisaríamos ter ele por mais tempo. Seu personagem é alguém que os estadunidenses conhecem há anos e que não acrescentaria nada mais além de narrativas conspiracionistas.

O diretor filma o caos com mão firme e confiança. Mesmo quando a narrativa ameaça desmoronar (e ela ameaça várias vezes), Aster mantém o controle. A sequência da reunião municipal em uma chamada de Zoom é uma das melhores partes do filme.

Erros que também podem ser acertos

O grande problema do filme é que, apesar de toda a sua ambição, “Eddington” não tem nada de novo a dizer, parece que chegou atrasado. Ari Aster parece acreditar que mostrar pessoas agindo de forma irracional durante a pandemia é, por si só, uma forma de crítica social. Mas falta à narrativa uma tese, um argumento, uma surpresa. O roteiro é excessivamente didático: os personagens anunciam suas posições políticas em diálogos que parecem manchetes do Twitter, e não falas humanas.

No entanto, Aster comete o erro de não trabalhar bem os personagens com atores talentosos como Emma Stone e Pedro Pascal. Tirando Joaquin Phoenix, que está contido parecendo a bomba-relógio que é, Stone está perdida, alternando entre a histeria e a passividade sem convicção. Pascal, sempre carismático, é reduzido a um arquétipo de “prefeito bonzinho” sem profundidade. Também há alguns coadjuvantes, como a adolescente ativista branca (Amélie Hoeferle) que é uma caricatura exagerada de culpa de privilégio que irrita em vez de divertir.

Crítica de “Eddington”

Com um tempo de execução que mais se adequaria a uma série de 12 episódios do que a um longa, “Eddington” se arrasta em seu segundo ato. As discussões políticas se repetem sem avanço dramático. As cenas de ação, quando finalmente chegam (incluindo um tiroteio no clímax), é pra deixar o espectador se perguntando: “mas o que diabos está acontecendo?”.

Para os fãs incondicionais do diretor, há prazer em vê-lo tentar algo novo. Para o público geral, “Eddington” será um exercício de paciência: uma sátira que raramente faz rir, um drama político que pode ou não envolver o espectador e um estudo de personagem que merecia mais destaque. É perceptível que há ótimas ideias no texto de Aster, mas quero vê-lo no potencial máximo ainda. Aguardemos o próximo.