Charles Luis Castro

21 out, 2017

Filmes

Mesmo com problemas, a recompensa final faz valer a jornada

É chover no molhado afirmar que 2017 é o ano mais prolífico para as adaptações das obras de Stephen King. A Torre Negra, It: A Coisa, O Nevoeiro, Mr. Mercedes e Jogo Perigoso estão aí para agradar os mais variados gostos. E fora alguns deslizes, o nível de qualidade é bastante positivo. O mais novo filho da família é 1922, longa original da Netflix, que mostra-se um verdadeiro estudo do peso imposto pela culpa e da deterioração da mente humana ao enfrentar seus demônios.

Baseada no conto homônimo, a trama acompanha o pacato fazendeiro Wilfred James (Thomas Jane), sua esposa Arlette (Molly Parker) e seu filho Henry (Dylan Schmid). Típico homem do campo, Wilfred entra em conflito com Arlette quando ela sugere vender as terras e viver na cidade. Disposto a vencer a discussão de uma vez por todas, ele decide matá-la e convence Henry a participar do crime. É desse ponto que tudo dá errado e a vida de Wilfred é consumida pelo fogo da loucura.

Publicado no livro Escuridão Total, Sem Estrelas, 1922 é uma conto cruel, difícil de digerir e que supera as barreiras impostas pelo sobrenatural. Assim como os melhores trabalhos de King, o terror é uma peça importante, mas nunca a atração principal. Existe toda uma subjetividade no desenrolar dos acontecimentos, colocando a mente do leitor sempre em estado de dúvida. Essa essência é captada pelo longa e representada pela figura do personagem principal.

Thomas Jane está incrível aqui, entregando seu melhor trabalho em muito tempo. O sotaque carregado do Nebraska, a face sisuda e o físico castigado pelo trabalho pesado do campo compõem sua atuação. Homem de poucas palavras, ele consegue transparecer seus pensamentos através do olhar. Tarefa auxiliada pela constante narração que ajuda a guiar o espectador pela trama. É interessante notar as nuances de sua interpretação, passando do cinismo ao desconversar sobre o paradeiro de sua mulher até uma mistura de loucura e desconfiança nos momentos que permeiam sua queda. Molly Parker é fundamental nesse processo, apesar de pouco tempo em tela. Sua interação com Thomas é ótima e seus momentos como assombração são extremamente tensos. O jovem Dylan faz o dever de casa, apesar da acelerada curva dramática de seu personagem. Ele é quem mais sofre com os pecados do pai.

Thomas Jane e Dylan Schmid em cena de 1922 (Divulgação: Netflix).

A direção e o roteiro são de Zak Hilditch (do ótimo drama apocalíptico As Horas Finais). Optando por manter-se na segurança da proximidade com o conto original, o diretor ainda assim consegue mostrar bastante qualidade em criar momentos de tensão e pavor. Zak entrega com eficiência a jornada de destruição física e mental de um homem, sem deixar a peteca cair nos momentos mais importantes. Aliás, ele utiliza com maestria um determinado elemento presente na história original: os ratos. Como pragas, eles vão devorando tudo de mais precioso para Wilfred. Sua esposa, seus animais, seu filho, sua mão e principalmente sua mente.

Ainda assim, 1922 possui alguns problemas claros de ritmo. O início acelerado é podado por um segundo ato arrastado, que por muitas vezes pode testar a paciência do espectador. Mesmo que o desenvolvimento de personagens seja uma justificativa, o filme passa a sensação de ser mais longo do que realmente é. A lentidão estende-se ao terceiro ato, mas a recompensa final faz valer a jornada.

1922 é um pesadelo genuinamente oriundo da mente de Stephen King, que não se dá por satisfeito até extrair a mais pura gota de agonia de quem o assiste. Sua atmosfera carregada de tragédia abre espaço para uma discussão sobre ganância, culpa, religiosidade e a consequência de cada ato. E lembre-se disso antes de descartar todas as possibilidades na hora de resolver um problema: cedo ou tarde, todo mundo é pego.

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